Sim e Não à Greve

Na minha opinião, é necessário protestar, reclamar, é fundamental que nos façamos ouvir. Não é possível ficar calado diante de tanta unanimidade podre, diante das soluções únicas, diante das mentiras e do descaramento de quem tem ocupado o poder. Se as pessoas decidirem que a greve é a melhor maneira de exprimir tudo isso, devem fazê-lo, em consciência, ignorando as vozes que, como de costume, consideram as greves desnecessárias, com os argumentos estafados dos prejuízos na produtividade ou da necessidade de “remarmos todos para o mesmo lado” (frase que ganha um sentido curioso, quando os que a proferem estão a empurrar tanta gente para fora do barco) ou que o exterior está a olhar para nós (e já há cassandras a relacionar a greve geral com a classificação da Fitch). Quando falar não chega, é preciso gritar.

Depois de muitas greves e de manifestações, com resultados nulos ou insignificantes, há quem se sinta desiludido, há quem não se reveja em movimentações que parecem ter-se transformado em rituais que têm como único resultado o anúncio épico de percentagens de adesão, a manutenção do que estava antes e a perda de um dia de salário, para não falar, no caso dos professores, da assinatura de acordos, no mínimo, dispensáveis. É pouco para me convencer a voltar a participar numa greve e, por isso, faltei à chamada e, enquanto sentir o mesmo, continuarei a faltar.

Por, na prática, ser amarelo e, no fundo, ser grevista, tenho consciência de que me arrisco a ser elogiado por aqueles de quem discordo absolutamente e a ser criticado por aqueles com quem concordo em grande parte, mas eu ser elogiado ou criticado não tem importância nenhuma. O que tem importância é saber que não sou o único, o que tem importância é perceber que parte do problema está na voz e que parte está no megafone.

Comments

  1. jorge fliscorno says:

    De uma maneira inteligente, “evitas” simultaneamente que te critique ou apoie. 🙂
    Eu cá acho que as greves têm sido mais um instrumento político, sobretudo do PCP, do que uma preocupação com os trabalhadores. Tenho reflectido sobre o tema e, sistematicamente, acabo a dizer para comigo mesmo que o país está mal, as pessoas estão mal e a política está mal. Mas irão as greves mudar alguma coisa? Não me parece. A mudança terá de começar em cada um de nós, desde os chico-espertos que dão o golpe na fila do trânsito (com o consentimento dos que deixam dar o golpe) até ao ex-ministro que, ele mesmo um chico-esperto, acaba na empresa privada à qual deu negócios enquanto ministro. Há mentalidades a mudar. Enquanto estas forem as que temos, bem podem haver greves gerais que daí nada mais resultará do que os 12 meses até à próxima greve geral. Ah!, sim, e umas entrevistas no noticiário das 8.

    • MAGRIÇO says:

      Qual é a alternativa? Cruzar os braços e vergar a cerviz?

      • jorge fliscorno says:

        Já que pergunta, uma vez ouvi alguém, cujo nome me escapa, comentar que para mudar a forma de fazer política é preciso mudar quem tem alvará para fazer política, ou seja, os partidos. Mas os partidos apenas se mudam de dentro para fora, pelo que só mudando as pessoas que estão nos partidos é que estes mudarão. Se os portugueses se inscrevessem em massa nos partidos, não importa quais, as pessoas que estão nos partidos, mudariam, necessariamente.

        É uma ideia com algumas falácias. A primeira delas é que assume que quem está agora nos partidos não constitui uma amostra representativa da maneira de ser da população. Aí tenho dúvidas. Outra é que é uma utopia, pois nunca teremos movimentos de massas sem ser por fortes condicionamentos. E, finalmente, Nada garante que que esta mudança trouxesse a mudança. Mas se tal acontecesse, significava que as pessoas, numa perspectiva colectiva, tinham mudado. E essa mudança, isso sim, levaria a uma diferente forma de estar na política.

        Quanto a alternativas, não sendo eu dono do conhecimento, não sei quais são. Isso não me deve impedir, parece-me, reflectir sobre as que se apresentam.

        • MAGRIÇO says:

          É dos livros, e remota ao tempo de Heraclito, que só a dialéctica conduz ao conhecimento, que a síntese nasce dos contraditórios tese e antítese. Logo, a padronização de ideias ou de comportamentos é conservadora, inibe a evolução e o desenvolvimento intelectual. Pelo que acaba de expor, como o mal está no indivíduo (e eu concordo!), façamos o que fizermos não alteramos o rumo dos acontecimentos. É com esta teoria do determinismo que eu não concordo (não é nada de pessoal, garanto-lhe!) e como acaba por confessar que não sabe quais as alternativas, vou dar-lhe uma sugestão: todas serão boas, menos o imobilismo e o laxismo. A evolução faz-se de avanços e recuos, nunca com a inércia.

    • jota says:

      Pois é, eu tambem acho que os teus comentarios estao instrumentalizados pelo PSD e ou CDS e não é de agora .

      • jorge fliscorno says:

        Tem razão, agora é que o jota acertou em cheio. Mas olhe, é pública ligação dos quadros da CGTP ao PCP. Já o mesmo não se pode dizer da minha pessoa pela simples razão de não ser militante (nem frequentar ) nenhum desses partidos.

        Mas devolvo-lhe a deselegância: o jota é instrumentalizado por quem?

    • António Fernando Nabais says:

      Ao contrário de ti, estou numa situação em que me critico e me apoio, o que vai dar ao mesmo. Não estou muito preocupado com a intrumentalização que o PCP possa fazer, desde que sinta que a greve causa efeitos, porque não duvido da necessidade de protestar (e isso inclui não permitir que os chicos-espertos dêem o golpe no trânsito). O problema é que a greve parece-me reduzida a uma coreografia sem efeitos. Em mais de vinte anos, apercebi-me de uma greve que fez mossa: os professores organizaram uma greve rotativa que impediu a saída de notas no segundo período. Houve logo negociação. Com ou sem greve, já não é mau existir o Aventar 🙂


  2. bem podem haver greves ???
    parece o hadem da sraº ministra da agricultura HADEM ?? (hão-de)
    Bem pode haver greve (ou greves)
    Há uns verbos que têm plurais complicados que nem os ministros entendem

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  1. […] da minha relação com as greves de um dia, não tenho muito a acrescentar àquilo que já escrevi e partilho a opinião do Ilídio Trindade, partindo do princípio de que haveria união suficiente […]

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