O portuguesinho, o galês e o chinês

Numa sociedade em que valores como a competitividade ou o dinheiro se sobrepõem à solidariedade ou à decência, é sempre bom saber que há pessoas como Christian Bale, enorme actor já em O Império do Sol, para que possamos apreciar melhor figuras como António Mexia.

Bale tentou visitar o dissidente chinês Chen Guangcheng, tendo sido impedido de o fazer, o que só poderia acontecer num país democrático. Podem ver o vídeo mais abaixo.

Ao que parece, não existem vídeos em que possamos ver Mexia com os novos accionistas da EDP, mas, se existissem, não me espantaria vê-lo de joelhos no chão a manifestar disponibilidade para um projecto em que acredite. Entretanto, é possível ouvi-lo a elogiar a ausência de preconceitos de um governo que vende a quem der mais. É claro que ninguém se espanta por saber que a empresa chinesa pretende manter a actual equipa executiva da EDP.

É claro que há muitas afinidades entre Mexia e a China, nomeadamente no que se refere ao desejo de retirar direitos aos trabalhadores e de prescindir, o mais possível, desse incómodo chamado democracia.

Enquanto Chen Guangcheng luta para que os cidadãos do seu país usufruam de liberdade, Mexia luta para manter os seus privilégios e o seu gabinete, sem preconceitos contra as ditaduras. Ambos servem de exemplo para muita coisa, mas só o primeiro é exemplar.

Comments


  1. Não foi Mexia quem seleccionou a proposta chinesa…
    O artigo mistura alhos com bugalhos pelo que torna pitoresco o tema que, segundo se crê, se pretendia político.

    • António Fernando Nabais says:

      Não sei se Mexia participou na selecção. É-me indiferente que o tenha feito ou não e nada no texto diz isso ou o contrário.


      • É evidente que o texto insinua uma influência decisiva de Mexia na selecção, o que é incerto. O governo de Portugal tomou a decisão como lhe competia.
        Christian Bale e António Mexia nada têm de equivalente para se poderem comparar.
        Não se decortina como se pode, neste momento, pôr em causa os direitos dos trabalhadores da EDP
        Convenhamos: estamos perante um texto deveras arrevesado


      • .


      • No entanto, a insinuação é evidente.
        O actor e Mexia nada têm de comparável.
        O direitos dos trabalhadores da EDP, ao que se sabe, ainda não foram ameaçados.
        Convenhamos: trata-se de um texto deveras arrevesado!

        • António Fernando Nabais says:

          Também penso que o actor e Mexia não têm nada de comparável ou mesmo de comum. Registo que, ao falar dos direitos dos trabalhadores, escreveu que “AINDA não foram ameaçados” e, em boa verdade, talvez não seja preciso esperar pelos chineses.

  2. MAGRIÇO says:

    A venda da EDP a chineses deixa-me completamente indiferente: de qualquer modo, quando recebia a factura da luz eu já ficava amarelo e com os olhos em bico…

    • Pentesiléia says:

      Não é só o Magriço que fica com os olhos em bico: deve acontecer o mesmo a milhões de portugueses. Tudo para que o sr. Mexia apresente bons resultados de gestão para ter direito a prémios de produtividade.

  3. Faroleiro da Berlenga says:

    Acho curioso que o ocidente “civilizado e democrático” não se importe nada que o capital chinês seja proveniente da exploração desumana de milhões de pessoas quase á semelhança dos diamantes de sangue da áfrica. Todos se dobram à ladroagem de know how ocidental por parte dos chineses com o conluio do seu governo que olha par o lado e ninguém fala das inenarraveis condições de trabalho na china. Mao Tse Tung dizia que o capitalismo lhes haveria de vender a corda com que seria enforcado e não é que parece que o homem tinha razão: A minha alma está parva


    • Quando foi a última vez que esteve na China?

      • Faroleiro da Berlenga says:

        Nunca estive na China mas mesmo que lá tivesse estado acho que as fábricas de contrafação não fazem parte dos roteiros turísticos e por outro lado os documentários abundam nos canais de cabo mais prestigiados. Não será aquele certamente o futuro que queremos para nós nem para os nossos filhos.

  4. MAGRIÇO says:

    Analisar ou simplesmente comentar determinado período da História de um país não é tarefa fácil nem deve ser feito levianamente. Por vezes, os vícios de gerações, tradições conservadoras ou direitos de elites não podem ser ultrapassados num sistema democrático que, por definição, se vê obrigado a considerar todas as tendências da sociedade, o que desde logo limita ou mesmo aborta à partida qualquer veleidade de mudança. Era neste contexto que surgiam os déspotas, normalmente indivíduos imbuídos de fervor patriótico, que impunham as suas ideias de progresso contra os interesses e privilégios de classe instituídos. Foi assim na Rússia, no século XVII, com Pedro o Grande, que começou por acabar com os privilégios da aristocracia russa, os Boiardos, e conseguiu ultrapassar um atraso de anos relativamente aos seus vizinhos do norte da Europa, e foi assim com Mao Tsé-Tung no século XX, que, embora com alguns exageros de disciplina ideológica, conseguiu tirar a China da idade média em que ainda se encontrava e transformá-la numa moderna economia, pese embora algumas assimetrias e até mesmo injustiças sociais que ainda persistem. Os países são todos diferentes e cada um tem as suas próprias complexidades que por vezes nos escapam, pelo que fazer juízos de valor sobre um tema que não conhecemos em profundidade me parece um pouco leviano.

    • António Fernando Nabais says:

      Vai desculpar-me, mas isso faz-me lembrar os elogios a Salazar porque conseguiu impor a ordem, após o caos da Primeira República, ou porque encheu os cofres do país ou porque nos manteve a salvo da Segunda Grande Guerra. Como é evidente, no entanto, se quisermos estudar uma ditadura, não devemos emitir juízos de valor.
      Depois disso, se acreditarmos que a Democracia é uma conquista essencial da humanidade, não faz sentido defender ou relativizar uma ditadura, mesmo que, ideologicamente e em teoria, esteja assente em algo que defendemos. Muito do que é o comunismo faz parte da matriz a que vou beber, mas isso só faz com que, para mim, uma figura como o Mao seja tão sinistra como o Pinochet. Ainda por cima, comparar um governante do século XVII, em que a Democracia era apenas uma palavra, a outro do século XX, quando se tornou uma prática exemplar, não faz sentido.
      A EDP foi vendida não exactamente a uma empresa, mas a um país, e não deixa de ser curioso ver Ângelo Correia, entre outros, a ter o mesmo discurso do PCP acerca da necessidade de não julgarmos outros países, porque isso seria uma ingerência.
      Aliás, o mundo desalmado dos negócios permitiu, porque isso lhe interessava, que os produtos chineses, fabricados com base em ordenados baixos e ausência de direitos laborais, pudessem concorrer em pé de igualdade com as democracias em que os trabalhadores tinham direitos. Tinham, porque agora é aquilo que se vê.

  5. MAGRIÇO says:

    Já me habituei a identificar-me normalmente com aquilo que aqui faz o favor de partilhar connosco, caro Nabais, e mesmo com muito do que acima diz concordo incondicionalmente. No entanto, gostaria de lhe chamar a atenção para algumas considerações que faz no seu comentário que não me parecem apropriadas ao que eu tentei, pelos vistos sem êxito, transmitir. Por exemplo, parece-me que não foi muito feliz ao referir Salazar, porque não mencionei nem Hitler, Mussolini, Getúlio Vargas, Fulgêncio Batista, Franco e tantos outros que seria fastidioso enumerar todos. E se Salazar teve as virtudes que lhe atribui, falhou redondamente naquilo que eu quis enfatizar: tirar o país do atraso crónico que ainda hoje se encontra. Pode não se concordar com os métodos de Mao Tsé-Tung, mas tenho sérias dúvidas que uma democracia do tipo ocidental tivesse obtido os mesmos resultados, mesmo levando o dobro do tempo. Mário Soares disse um dia que o socialismo ficava, “por ora”, na gaveta (os dirigentes do PS que se seguiram encarregaram-se de o pôr definitivamente no cesto dos papéis): eu interrogo-me se não será melhor para um país com as complexidades da China adiar a democracia enquanto não se encontra como Nação moderna e competitiva, ou seja enquanto não ultrapassar as suas limitações culturais. Esta minha muito modesta opinião já foi, aliás, formulada por quem tinha muito mais mérito e prestígio: “Se fosse necessário escolher detestaria menos a tirania de um só do que a de muitos. Um déspota tem sempre alguns bons momentos; uma assembleia de déspotas nunca os tem.” (Voltaire). Isto da “assembleia de déspotas” não lhe lembra nada?

    • António Fernando Nabais says:

      Em primeiro lugar, deixe-me dizer-lhe que são os leitores que fazem favores. Quem escreve só tem de agradecer que alguém o leia.
      Espero que tenha compreendido que não quis elogiar Salazar e continuaria a não o elogiar, mesmo que tivesse tirado o país do atraso em que ainda hoje vive, pela simples razão de que foi um ditador. Não me chega, por exemplo, que apontem os avanços da saúde e da educação em Cuba para que deixe de considerar Fidel um homem sinistro (o que não significa atribuir virtudes a “democratas” como Kennedy). A partir daqui, não posso aceitar as virtudes de Mao, porque modernizar um país à custa do terror e do desperdício de vidas individuais ser-me-á sempre revoltante.
      Voltaire coloca a hipótese de ser necessário escolher. Recuso-me a escolher. A “assembleia de déspotas” lembra-me muita coisa e é o que me leva sempre a votar contra as maiorias absolutas. Não tenho tido muita sorte, infelizmente.

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