As minhas memórias: Queira saber, senhor professor

socrates

O profesor dos professores: Sócrates, ensina. Sócrates professor de professores, ensina, criando a dialéctica: eram debates de mestre e discípulos

Para a equipa do projeto da Página, liderada nesses tempos pelo sindicalista José Paulo Serraheiro: E agora, Senhor Professor? Um repto aos escritores da Página da Educação, que eu respondi assim:

Surpresa e prazer. Esses foram os sentimentos que me invadiram, quando tive a honra de receber pelo correio, uma cópia do livro E agora Professor? O que o nosso Diretor José Paulo Serralheiro, tinha-me enviado antes sem estes saberem. Porque mais tarde, nesse dia, um muito querido antigo, discípulo meu, hoje o Professor Doutor Ricardo Vieira, acompanhado pelo nosso novo colega de pesquisa, José Maria Trindade, trouxeram-me em mão, o mesmo livro desta feita, com uma dedicatória personalizada, o que agradeço. O conteúdo do livro está organizado por textos como: A Segunda Pele? Darwinismo Escolar? Trabalho académico dos professores do ensino superior…?; A freiriana dúvida de entre a teoria e a prática?, bem como outros textos que contribuem para abrir a porta para essa escola que na Página temos reivindicado durante anos a escola dos pais, a do diálogo entre docentes/estudante/trabalhador; a da realidade socioeconómica como parte do currículo académico; a procura da autonomia do saber, da pesquisa do académico que entende o real por meio de modelos não analíticos, mas ideológicos. Modelo que levam a dizer publicamente à referida professora com vontade de abrir uma instituição mas que ao mesmo tempo foge quando percebe que o seu poder não está acima do dos seus estudantes. O debate docente, pai, está fortemente ligado com laços de ternura para o estudante e de compreensão para os professores. Este curto livro, já publicado em artigos no jornal, está repleto de ideias bases na eterna luta pela mudança escolar, como forma de encurtar o espaço entre escola e lar, de dar voz a esse terceiro, o estudante e seu entendimento, sem o qual a escola não existia.

Em 1990, referi num livro que a escola, essa suposta subordinar novos cidadãos do Estado, ao Direito, ao IRS, uma gentileza e, especialmente, ensinar o mínimo, não para inglês ver, mas para controlar a força de trabalho. Exatamente como faz o Código Civil, que distribui a responsabilidade infantil, objeto do livro que me foi oferecido por mais, de dois mil artigos: a criança e os pais, a criança e a idade, a criança e a reprodução, a criança e os bens, a criança e os contratos, a riqueza e os seres humanos excluídos da sua gestão, incapacitados para a tratar e, aos seus trinta anos, passam a ser de oito ou, melhor dizendo, menor: Art.º 122º Do Código Civil Português (1), atualizado em 2001 e 2005: é menor quem não tiver ainda completado dezoito anos de idade. Lei que reitera no Art.º 124º: a incapacidade dos menores é suprida pelo, poder paternal, subsidiariamente, pela tutela, conforme se dispõe nos lugares respetivos. Senhores escritores do livro: sem se saber a lei, a coordenação entre docentes/estudantes/tutores, fica dificultada. Quem manda é a casa, e não a escola nem as leis acerca da escolaridade: são as leis Civis e Penais ou Códigos, sem esquecer a Nova Concordata entre os Estados Português e do Vaticano, renovado dias antes do mundial os nossos comandos televisivos: um Fátima redimida porque o povo nos envia alunos, quase um milagre e que não é referido no livro; em consequência, outra ideia é ler, por favor, os livros autónomos e premiados dos que contribuíram sempre nestes reptos do ensino-aprendizagem, como intitulo um ensaio meu de 30 páginas do º 1 da nossa Revista: Educação, sociedade e culturas, referindo a obra de Telmo Caria, Manuela Ferreira, João de Deus, Ana Maria Bénard da Costa, Ricardo Vieira e, como é evidente, a Lei.

Outra ideia: sem saber legislação sobre seres humanos, sobre a sua relação com os bens, arriscamos-mos a ser os Párias referidos no texto. É assim como se desenvolve a nossa capacidade de contribuir para a análise do Portugal de Salazar para Robert Merton (2), e Talcott Parsons (3) e as suas ideias sobre socialização. Há, ainda, uma outra ideia. Sem descurar Karl Marx (4) e as suas teorias da Mais-valia de 1861-63, ideias fundamentais para entender outra ideia ainda mais simples: tanto a criança atual como o adulto de hoje, outrora também criança, têm orientado as suas ideias pela teoria quotidiana da cultura e não pelo saber académico dos eruditos. Saber que permanece entre eles e mais ninguém entende. Porquê? Freud o diz em 1920 (5): a teoria psicanalítica admite sem reservas que a evolução dos processos psíquicos é regida pelo princípio do prazer. Por outras palavras, para evitar o desprazer, a zanga e a mágoa, o estudante disfarça com jogos, com a indiferença e outros comportamentos, desenvolvidos pelo autor no seu Au-delà du príncipe de plaisir: um estudante que apareça com um trabalho inovador, uma composição original, uma História de Afonso Henriques retirada do livro oficial, essa criança está a tentar fugir dessa experiência, muito natural no sistema onde impera o capital, de sentir que a sua auto estima está a ser abalada, atropeladas, abatida, como Freud analisa em 1923 (6), no Capitulo 3 da versão que uso do seu Le moi et le ça , para evitar o que o autor já tinha advertido em 1901: adoecer, criar psicopatologias da vida quotidiana, evitar os erros de leitura e escrita, os da análise aritmética, causados pela perseguição do ótimo, procurado na interação social do capital globalizado, no Capítulo 6 da versão que uso do seu Psychopathologie de la vie quotidienne (7). Ideia sintética e última sugestão.

Pretendo que todo professor seja um terapeuta? Não, apenas um bom conhecedor dos patamares da sua cultura socioeconómica, da divisão em classes sociais existentes desde há milhares de anos e esquecida na análise do texto. É esse o meu orgulho como leitor que fez com que eu mudasse o meu texto mensal para estas novas vias e estas formas ao citar livros da Net, indispensáveis para o estudante estudar e para o professor saber ensinar. Arrisco-me a levar à falência as editoras…mas fica os objetivos da Escola definidos e finalmente materializados.

O que pretendo o foi definido no nº 1 da nossa revista Educação, Sociedade e Culturas, num bem afamado texto: O processo educativo, ensino ou aprendizagem?

A minha pretensão é esta:

Todo o grupo social precisa de transmitir a sua experiência acumulada no tempo à geração seguinte, como condição da sua continuidade histórica. O facto de os membros individuais do grupo estarem sempre a renovar-se, seja pela morte, seja pelo nascimento, dinamiza a necessidade de que essa experiência acumulada, que se denomina saber e existe fora do tempo individual, fique organizada numa memória que permaneça no tempo histórico. A questão está em saber se é mais útil para a reprodução do grupo que os novos reproduzam o saber; ou que entendam a necessidade dele por meio de praticar a sua utilidade. O primeiro seria ensinar o que já se tem, subordinada à letra do que já se possui como explicação da natureza e das relações entre os homens; o segundo seria aprender o processo que dinamiza as operações pelas quais a mente humana resolve uma questão cada vez uma problemática se lhe coloca. Pode aceder ao texto em:

http://www.fpce.up.pt/ciie/revistaesc/ESC1/Iturra.pdf

E este é meu depoimento perante o repto do José Paulo Serralheiro. Haverá mais, mas por em quanto, paro aqui.

Notas:

1. http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=C%C3%B3digo+Civil+Portug%C3%AAs&btnG=Pesquisar&meta=

2. http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Robert+Merton&btnG=Pesquisar&meta=

3. http://www.google.pt/search?q=Talcot+Parsons&hl=pt-PT&lr=&ie=UTF-8&start=10&sa=N

4. http://pt.wikipedia.org/wiki/Karl_Marx

5. http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Sigmund+Freud+Au-del%C3%A1+du+principe+du+plaisir&btnG=Pesquisar&meta

6. http://www.uqac.uquebec.ca/zone30/Classiques_des_sciences_sociales/classiques/freud_sigmund/essais_de_psychanalyse/Essai_3_moi_et_ca/Freud_le_moi_et_le_ca.doc

7. http://www.uqac.uquebec.ca/zone30/Classiques_des_sciences_sociales/classiques/freud_sigmund/psychopathologie_vie_quotid/Psychopahtologie.doc

Raúl Iturra

ISCTE-IUL

12-12-11

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