O masoquismo republicano.

Gerou-se um grande ruído à volta das declarações do professor Aníbal Cavaco Silva a propósito da difícil vida de um aposentado que decidiu ser presidente da república.  Como se tal fosse um fardo e uma obrigação cívica, depois de uma tentativa falhada, um mandato presidencial e 10 anos como primeiro-ministro. Até parece que este caminho para o calvário de Belém deixou o senhor depauperado, como se o serviço à pátria, em Portugal, tenha alguma vez levado alguém à pobreza. Como dizem os ingleses: lets cut the crap*. Que o senhor em causa é um lobo, apesar do seu beiço descaído, discurso apagado e ar de cordeiro, não tenhamos dúvida: entre raposas é preciso alguém que morda mais e melhor para escalar a pirâmide dos predadores que constitui a política nacional.
Mas sendo a 5.ª vez que o elegem vêm agora fazer petições para lhe comprarem umas pantufas?

Chega a ser mais grave a reacção dos comentadores do que a tola resposta do senhor Aníbal, o tal, filho do gasolineiro de Boliqueime, prova provada de que república funciona. O Rui Rocha, do Delito de Opinião, acha que o republicanismo funciona tão bem, que “é sempre melhor incorrer no risco de escolher mal sabendo que mais tarde poderemos tentar corrigir uma má decisão“. É pena que cidadãos republicanos tão honrados e probos escolham duas vezes o mesmo erro e só não escolham uma terceira por limitação da lei. Estes comentadores, como o João Gonçalves que para defender a honra de Cavaco cita Salazar (apropriado, mas de mau gosto), são a prova de que um significativo grupo de cidadãos deste país não tem capacidade nenhuma para eleger ou ser eleito. Porquê? Porque eleger implica responsabilidade e se há coisa que, desde 1910, a república nos demonstrou é que a estabilidade institucional ou respeito de quem ocupa os cargos não vale tanto como a repartição do poder pelos caciques.
E se como o João Gonçalves os nossos monárquicos são pobres ou se, segundo Vasco Pulido Valente, não existem, então deixem-me dizer-vos uma coisa: mais têm feito os poucos republicanos portugueses pela monarquia. E não incluo o pobre reformado, velho tecnocrata formado na escola do Estado Novo chamado Cavaco Silva. Este sim faz lembrar o velho Botas: “que, muito adequadamente, nunca quis saber da “polémica” República/Monarquia para nada“. Apenas das finanças.

Ao que parece em república a História não é apenas assustadoramente cícicla. É chata. E repleta de masoquistas.

*Deixemo-nos de dizer coisas que não são importantes

Comments

  1. Observador says:

    Só quero deixar um recado ao sr. Aníbal e de acordo com a educação que recebi. A saber: nunca gaste mais do que o que tem. Se ganha pouco, governe-se com o que tem. Porque eu, EU, é que não estou disposto a pagar-lhe mais pelos seus vícios.


  2. “É pena que cidadãos republicanos tão honrados e probos escolham duas vezes o mesmo erro e só não escolham uma terceira por limitação da lei.”

    Uma lei que impede que a estupidez seja ainda maior. Dizem que à terceira só cai quem é estúpido, não é?

  3. Nightwish says:

    Tem razão, se tivéssemos uma monarquia sempre podíamos ter o Rei a dizer que se estamos a passar fome, que comamos bolo rei.
    E sempre perdemos oportunidade de ver uns casamentos luxuosos com chapéus a condizer.

  4. Pisca says:

    “são a prova de que um significativo grupo de cidadãos deste país não tem capacidade nenhuma para eleger ou ser eleito”

    Quem escreve e acredita numa pérola destas não merece o menor respeito, já que se assume como o detentor da escolha dos possíveis eleitores, olhe que já tivemos disso em tempos.

    Pergunto quem deve votar ?

    – Os proprietários com familia constituida e atestado da Junta de Freguesia ?
    – Os eleitos pelo autor do post ?
    – Os sócios com as cotas em dia da Associação de Beneficência de Vila Nova do Assobio ?

    Explique-me lá para me poder inscrever ? Pode até ser que me deixe votar de tempos a tempos, desde que lhe diga em quem vou votar é claro

    Esqueci-me de acrescentar, por inerência de funções os cretinos como o autor podem votar mais que uma vez

    Satisfeito ?


  5. Meu caro Pisca, pelo comentário acintoso e vagamente equino parece que lhe coube a carapuça.

  6. Pisca says:

    Vá lá “equino”, poderia ser “asinino” como é o seu caso levando em conta a forma como se exprime


  7. Postas com insultos é sempre bom sinal. Sinal de que a mensagem chegou como e onde devia.

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