A descapitalização dos Bancos

Por JOÃO PINTO

Este meu comentário em relação aos bancos não faz parte de qualquer análise ou fundamento científico. Nunca trabalhei na atividade bancária e por isso não a conheço minuciosamente. As conclusões baseiam-se numa pura análise empírica.

A atividade bancária exerce enorme poder sobre a atividade económica portuguesa (e mundial). O financiamento da economia depende muito dos recursos disponibilizados pela banca. Os bancos têm gerado lucros fabulosos nos últimos anos, sabendo que uma parte significativa tem sido distribuída pelos acionistas. Não conheço as exigências a que os bancos estão sujeitos, mas os lucros fabulosos que têm sido gerados pela atividade bancária não têm servido para capitalizar os bancos. Como não conheço a atividade bancária, não sei se os bancos estavam ou não obrigados a reservar uma parte dos lucros. Por ser uma atividade importantíssima no atual modelo económico, a atividade bancária deveria estar sujeita a uma percentagem bastante elevada de financiamento próprio. Se tivermos em atenção os números trazidos a público pela comunicação social, os rácios de capital dos bancos (relação entre o capital próprio e o ativo) andarão entre os 6-7%.

Agora, com a crise financeira, e por imposição da tróica, os bancos têm de se capitalizar. Como os acionistas não estão dispostos a injetar mais dinheiro nos bancos (têm esse direito), o Estado está disposto (ou obrigado?) a entrar no capital dos bancos. Não percebo, sinceramente, por que é que o Estado há de injetar dinheiro nos bancos para eles cumprirem os objetivos mínimos de capital.

Concordo totalmente com o fundo de garantia dado pelo Estado aos depósitos a prazo; caso contrário as pessoas não se sentiriam suficientemente seguras para depositarem/investirem em produtos financeiros.

Houve, durante as últimas décadas, erro grosseiro de alguém (seja a nível nacional ou internacional). Ou as regras de capitalização dos bancos não eram suficientemente exigentes, e por isso é que os bancos, legalmente, se descapitalizaram tanto nos últimos anos (distribuindo lucros avultados aos acionistas), ou os próprios bancos não cumpriram com as regras emanadas da legislação.

Do lado das soluções para a economia, é necessário que todos os responsáveis (políticos, empresariais e outros) percebam que urge arranjar mecanismos complementares de financiamento económico. A atividade económica não pode esperar pelo apoio de um setor que, nos próximos anos, não terá possibilidade de ajudar a atividade económica.

Comments


  1. Também não sou especialista. A minha opinião sobre este assunto é a seguinte:

    • Os lucros dos bancos não são assim tão fabulosos se compararmos com as necessidades de capital, necessidades essas que deveriam andar pelos 47 mil milhões de euros a quando da assinatura do memorando da Troika, já que foi esta a fatia da ajuda destinada aos bancos. Os números do “lucro” são também altamente manipulados. Para efeitos de discussão acerca do problema de liquidez dos bancos (eu diria mesmo de solvabilidade), os lucros não interessam para nada.
    • As próprias necessidades de capitalização são falsas, dado que estas necessidades são função do risco associado aos activos. Acontece que os bancos mantém activos nos respectivos balanços que não valem nada. Se fizessem a avaliação dos activos de acordo com os verdadeiros valores de mercado, os bancos iam automaticamente à falência, sem qq esperança de ajuda salvadora. Para ter ideia, os nossos bancos têm cerca de 90000 milhões de euros no imobiliário, imobiliário esse que baixa de valor a cada dia que passa e, pior que isso, não se vende.
    • Não há motivo nenhum para salvarmos os bancos, penso mesmos que estes estão para além de qualquer esperança de salvamento. No entanto os políticos têm de fazer o que o dono diz e o dono neste caso são os bancos alemães, britânicos e franceses que estão tão falidos como os nossos. Se os nossos bancos cessarem pagamentos, é normal termos Dexias a aparecerem, como cogumelos, por tudo quanto é sítio. Dai a necessidade de salvarem os bancos portugueses.
    • As regras de capitalização foram sendo destruídas desde os anos 80 o que permitiu a extrema alavancagem a que assistimos hoje em dia. Muita gente estava à espera deste desfecho.
    • Solução? Fácil, deixar os bancos irem à falência. Paralelamente criar um ou vários novos bancos, capitalizados pelos estados e pelos bancos centrais com regras estritas de funcionamento, de forma a que alimentem a economia real. Daqui a uns anos os bancos seriam privatizados, as regras de funcionamento manter-se-iam. Ponderar, com muito, mas mesmo muito cuidado, empréstimos directos dos bancos centrais aos governos (reforço o ponderar, isto é uma caixa de pandora que não sei se deve ser aberta).

  2. Enquanto existiram lucros, e eram grandes pelo que se soube pela imprensa, os gestores e investidores gabaram-se do facto, mas quando surgiram as dificuldades vai de pedir as garantias do Estado e as ajudas públicas. A dependência relativamente ao Estado, quer dos bancos, quer das grandes empresas, é uma realidade que não está de acordo com as críticas que muitos gestores fizeram e fazem ao Estado.
    Cumps


  3. Caro Hélder Guerreiro,

    Concordo com muito do que diz. Apesar de, como disse atrás, não ser especialista, nunca ter trabalhado em bancos e nunca ter analisado pormenorizadamente as suas contas, a descapitalização do bancos é ainda mais grave se acontecer o que o Hélder diz que acontece. Se os ativos dos bancos estão sobreavaliados e por isso apresentam elevados lucros, então faz ainda mais sentido o título deste artigo – descapitalização – ainda por cima infundada. Mesmo assim, à lúz das regras contabilísticas, não me parece que tenha existido alguma ilegalidade. A Contabilidade permite qus os ativos sejam avaliados aos valores de mercado, mesmo que pensemos que aqueles valores não estão bem avaliados.

    Mesmo excetuando os factos que diz existirem, a verdade é que, mesmo com estas regras, o rácio de capital dos bancos é bastante baixo, razão pela qual eles estão obrigados à injeção de capital.

  4. Nightwish says:

    Os bancos estão descapitalizados porque andou tudo a investir em CDS, que depois se revelaram que valiam mais ou menos o mesmo que o valor do papel em que estavam imprimidos.
    Aliado a isso, os depósitos e investimentos em produtos financeiros permitem aos bancos emprestar no até 40x mais do que o dinheiro que têm (dependendo do tipo de produto), criando um valor fictício para a economia que nada tem a ver com a criação de riqueza (nos países onde existe a moeda). Não é por acaso que os bancos e os banqueiros são donos de uma fatia cada vez maior dos países.
    Na verdade, nenhuma regra foi mudada desde a falência do Lehman Brothers, ninguém foi punido e os bancos preparam-se para reiniciar tudo outra vez.
    Nem tão pouco é possível deixa-los ir à falência com o tamanho que têm e com o impacto que o sumiço do dinheiro (ou suspensão em processos a durar uma década ou mais) causaria, causando depois a queda de um atrás do outro por todas as fraudes legais que lhes são permitidas fazer.

  5. Joao says:

    Correndo o risco de ser atacado por estar a defender os bancos…

    “Como os acionistas não estão dispostos a injetar mais dinheiro nos bancos (têm esse direito)”

    Isto não é bem verdade. A verdade é que os bancos não têm sequer problemas de lucro, nem sequer com os activos porque a grande maior parte dos activos, os tais imobiliários, são activos em geral estáveis e que sem uma hecatombe nacional devem-se pagar ao longo do contrato. Os bancos têm sim 2 problemas (bem, sendo o BCP a excepção, que está bastante perto de ter problemas mesmo se o país estivesse bem); Um é que estão com dificuldade de financiamento por efeito nacional, o facto do país ter problemas de financiamento significa que eles têm por estar neste mesmo país. O segundo é que as exigências de capitalização são altas face ao tempo dado e exigem muito dinheiro num curto espaço de tempo. Os bancos não têm problemas com os rácios anteriores e face ao que era exigido antes não tinham um rácio de capital baixo. O problema de capitalização mete-se com as novas exigências. Se estiverem atentos é isso que mais reclamam. (por isso é que a maioria reteve dividendos no ano passado)

    Sim, os accionistas não querem meter mais dinheiro agora, mas a maioria estaria disposta a deixar os bancos capitalizarem sozinhos com retenção de dividendos

    Dizer que o melhor é deixar-lhe falir é não perceber como funciona a economia. Imaginem que a EDP vai um dia à falência e deixar de fornecer electricidade. O que acontece enquanto não se arranja outra? às empresas, aos trabalhadores e às famílias? Como vivem as pessoas sem luz, sem os transportes como o comboio, sem fabricas a funcionar? Se os bancos hoje têm dificuldade em financiar, mesmo os que estão melhor, onde iam os novos bancos financiar-se? Se até o estado tem dificuldades… (a titulo de exemplo até o Santander portugal deixou de financiar-se ao mercado já à alguns anos, e estamos a falar de um banco sem problemas nenhuns de capitalização, activos, ou rácios. Sim, o Santander Portugal, que hoje financia-se exclusivamente com a casa mãe, antes financiava-se em parte sozinho)

    Além do erro grosseiro de não exigir rácios decentes (algo que aconteceu mundo fora) foi incentivado/permitido os bancos a alavancarem-se em demasia (erro dos bancos e dos políticos) e deixamos os bancos atingirem lucros algo astronómicos (novamente erro dos bancos e dos políticos). Isso tudo não ajuda em especial num momento em que era essencial os bancos fazer o seu objectivo básico, servir de financiamento à economia. E ainda por cima continuando a permitir lucros elevados.

    Não quero aqui defender o que os bancos fizeram pois houve muita coisa errada e imoral que foi feita com complacência do estado, e podem acreditar ou não, mas na verdade o problema deles está mais ligado ao facto de o país estar mal do que individualmente estarem descapitalizados ou com problemas no balanço

    Se de repente, porque a Alemanha dizia que cobria toda e qualquer dívida de portugal sem condições, muito provavelmente os bancos deixariam de ter problemas de um dia para o outro.

    Não significa isto que acho que se deva deixar de exigir a desalavancagem ou a capitalização dos bancos para cumprir os novos rácios, acho que sim devia-se exigir isso, e quem não cumprir devia ser o estado a entrar, mas entrar à leão, pior que as exigências da troika ao país, exigindo retenção de lucros, colocando máximos nos salários, e passando tudo a funcionar a chicote. Enquanto não conseguiam comprar de volta a participação do estado, de maneira a este fazer um retorno acima das taxas de juro da troika. E com vista ao estado sair, porque senão lá tínhamos mais um tacho para os boys do costume. Mas do que se tem visto do recuo das posições do estado.. .infelizmente duvido…

  6. Carlos II says:

    João, já tomou conhecimento das exigências da Troica para meter dinheiro nos bancos? Não adivinha por que é que eles (os Bancos) não querem esse financiamento? E, ainda, acha que os accionistas do BCP, muitos deles a perderem, efectivamente, 90% do seu investimento, estarão dispostos a meter lá mais euros? Eu não acredito: só se fossem todos burros, o que não é verdade. Burros foram, mas agora arrebitaram as orelhas…


  7. Caro João,

    Agradeço o seu comentário, como disse no artigo, não conheço por dentro o sistema banacário, assim como não fiz uma análise exaustiva às contas dos bancos. No entanto, numa fase, o João revela o que defendo:

    “Além do erro grosseiro de não exigir rácios decentes (algo que aconteceu mundo fora) foi incentivado/permitido os bancos a alavancarem-se em demasia (erro dos bancos e dos políticos) e deixamos os bancos atingirem lucros algo astronómicos (novamente erro dos bancos e dos políticos). ”

    Não faz sentido, na minha opinião, que uma atividade que necessita da confiança das pessoas (dos depositantes e dos devedores) esteja sujeita a rácios de capital de 6 e 7%. Posso estar errado, mas penso já ter lido ou ouvido em algum lado que o bancos deveriam ter um rácio de capital de 9%. A capitalização dos bancos só pode acontecer de duas formas: retenção de lucros ou entrada de mais dinheiro (dos atuais acionistas ou de novos acionistas). É aqui que reside a minha dúvida: por que é não foi feita uma retenção maior dos lucros nos últimos anos? Será que a percentagem mínima de capital estava a ser assegurada? Se sim, significa que o capital mínimo era baixo. Se não, significa que houve erro grosseiros dos bancos.

  8. artur almeida says:

    Desculpem lá meter o bedelho no assunto.Também não sou perito. A Banca vive do ágios ou Juros. Veja-se a como é pago o Depósito a Prazo e a como emprestam para qualquer tipo de empréstimo (pessoal por exemplo). Salvam-se algumas linhas de crédito com juros limitados (por exemplo: campanha do Tomate ou do arroz e há mais).. Vivem também claro está da especulação Bolsista (grave dor de cabeças neste momento de recessão) e de outras actividades paralelas exemplo: PPRs, Poupança Investimento,trnsacções cambiais, Investimentos paralelos etc.Quando a Banca estava em aflição faziam no Banco de Portugal o Redesconto de Letras e Livranças. Agora podem ir ao BCE pedir emprestado a 1% e vender a 10 ou 15%. É por isso (será?) que exigem uma recapitalização da Banca que épara não irem tantas vezes bater à porta do BCE. Agora até cobram dinheiro para se poder ter uma conta de D.Ordem (Despesas de manutenção da conta).Depois há o Património que não é só Imobiliário próprio mas também (neste momento) a retoma de habitação que por razões várias não foi paga, (o desemprego e a precaridade são a causa principal). Quando do crescimento de vários prédios para vender por andares, mal o construtor tinha o 1º andar pronto para acabamentos iam logo hipotecar para construirem o 2º andar e por aí fora.Depois o cliente ia ao Banco Pedir o empréstimo para habitação. E por aí fora. Não há nenhuma obra pública ou privada que não tenha um financiamento Bancário,Se não for a Banca Nacional é a Banca estrangeira..
    Para não alongar muito a EDP não tem comparação possível com esta actividade. Para haver electricidade é preciso apenas haver barragens, Eólicas,Energia das marés, ou Centrais Térmicas ou até nucleares. Vender electricidade até a Loja do Chinês o fará..


  9. #3 J. Pinto

    Tenho a certeza que a contabilidade dos bancos foi feita de acordo com a regras e seguindo as melhores práticas do sector! Não quer isto dizer que não tenham sido demasiado ambiciosos.

    #4 Nightwish

    Eu penso que os nossos bancos não se meteram excessivamente no negócio dos derivados e coisas do género. Penso que foram muito mais conservadores que os grandes bancos mundiais. Isto não quer dizer que não se tenham alavancado em demasia. Por exemplo quando o BCP fazia empréstimos para os clientes comprarem as próprias acções do BCP estava a incorrer num perigo extremo. Os bancos portugueses também financiaram a construção das infraestruturas do país e claro, financiaram o imobiliário. O problema é que para se pagar um empréstimo tem de haver retorno no investimento, coisa que não acontece em muitos destes casos. (Também houve muitos casos de amiguismo e coisas piores, com os manueis finos da praça…)

    #5 João

    Os bancos neste momento não estão a cumprir a sua função principal que é proporcionar crédito à economia. É claro que necessitamos de ter um sistema financeiro a funcionar caso contrário matamos as PME que são o suporte do país (com a desvantagem de não serem too big to fail, individualmente). Assim, penso que se deveria criar um banco, capitalizado por exemplo com os 47000 milhões da troica, ou com o que já gastámos com o caso de polícia que é o BPN e BPP. Esse banco (que poderiam ser vários) proporcionaria o crédito onde ele não existe. Se isso não for feito somos todos nós a pagar a imprudência dos bancos (se não mesmo comportamentos criminosos, como já vimos).

    Eu penso também que não temos capacidade para salvar os bancos. Se eu tiver razão, o esforço que estamos a fazer para os salvar vai ser inglório. Note que por termos a economia parada já estamos a ter desemprego, as famílias já sofrem, por isso o resultado não será muito diferente.


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