Provocações – O Essencial é Saber Ver

Sem que desejasse ou procurasse, caiu-me uma provocação nas mãos. Como um bilhete do ‘metro’, onde estou a viajar. Sentado e pensativo, fui enrolando ambos na mão esquerda. O que é minúsculo e insignificante, no fundo, reduz-se a minudências materiais ou imateriais. Facilmente destrutíveis num enrolar de dedos.

No decurso da viagem, o pensamento vazou-me um poema de Pessoa, no heterónimo Alberto Caeiro; aqui declamado por Antônio Abujamra:

E a seguir ao primeiro eclodiu um outro, também de Alberto Caeiro:

DA MINHA ALDEIA

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo…
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura…
Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe
de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos
nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.

De seguida, lembrei-me de Samuel Beckett. Irlandês de nascimento, abraçou afectuosamente a língua francesa e a França. Em Setembro de 1939, estava de visita à sua mãe, na Irlanda, quando Hitler invadiu a Polónia; em vez de se manter em segurança na sua terra natal, retornou de imediato a Paris, declarando que preferia a França em guerra à Irlanda em paz.

Sempre houve quem tenha ultrapassado o tamanho da sua altura e a dimensão do lugar em que nasceu e vive. Outros jamais conseguirão exceder essas limitações e ter a capacidade de visão sobre as grandes causas; aquelas que verdadeiramente são críticas e fundamentais para a sociedade humana. Coitados!

Comments


  1. e a provocação ofereceu-te esta viagem que não é, de todo, limitada e, por isso, também por isso, já valeu a pena ter-te caído nas mãos: abençoada provocação que soube cair nas mãos de quem – e apenas para quem – sabe ver. 🙂

  2. kalidas says:

    Aqui está um activo, um capital genuinamente português e de dimensão universal. Procurem por esse mundo fora, e digam quantos como ele encontram. A tróica não tem aptidão vocacional para avaliar este tipo de cabedais, mas não é defeito é feitio.

    Cultura e usura rimam, mas apenas isso.

  3. Carlos Fonseca says:

    Olinda,
    De facto, é caso para dizer abençoado agravo:)
    kalidas,
    A porra toda é que quem manda é ‘troika’ e seus tentáculos nacionais. Dizia-se em tempos idos que a Cultura não tinha preço, mas os Catrogas & Cia. dizem que o têm. Os custos, está garantido, são por nossa conta.

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