A saúde privada

E

stou numa urgência no Hospital da Luz, um desses novos núcleos empresariais da saúde, no caso disponibilizado pelo BES, a acompanhar pessoa amiga. Aguardo que um dos dois únicos médicos que estão de serviço às urgências nesta especialidade terminem uma operação que havia sido agendada previamente. Isto é,  há urgências mas não há médicos alocados ao serviço de urgências, as quais terão que aguardar por uma pausa no serviço programado.

Em contrapartida, três jovens recepcionistas atendem todas as  necessidades que três belos sorrisos possam atender, duas assistentes de médico vão-me informando que os doutores continuam a operar – e ainda bem para o paciente – e uma empregada de limpeza passeia continuamente o seu carrinho numa impecável azáfama higiénica. Já da enfermeira de serviço não se sabe o paradeiro mas, possivelmente, estará a dar pinças no bloco operatório.

Isto é a saúde hospitalar privada que conheço. Atendimento de luxo pela módica quantia de uma actual taxa moderadora, que o resto paga o seguro da empresa, muito glamour e beautiful (working) people. Mas, e os médicos onde estão? Talvez esta urgência seja pouco concorrida. Mas se há uma urgência…

Enquanto espero, olhando para esta bela sala de espera, vem-me à memória uma entrevista de há umas semanas na Antena 1, onde a senhora das relações públicas do novel hospital (privado) de Odivelas falava da necessidade de trazer os doentes ao hospital. Relaciono-a com as notícias sobre a falência do (privado) hospital de Cascais e ainda com o crescente número de hospitais privados que tê
m sido construídos. Haverá espaço para todos eles? Com o actual SNS, talvez não mas com as taxas moderadoras a aumentarem, com serviços a fecharem e com a falta de médicos de família, quem sabe? Não precisava de assim ser, um SNS a viver na ambivalência publico-privada, com a carteira do contribuinte a pagar duas vezes. À semelhança do que se faz por exemplo em França e na Alemanha, bastaria uma coisa simples assim: quem precisa vai ao médico e depois o Estado paga ao médico. Com a vantagem do Estado não ter que andar a construir centros de saúde, a fazer gestão de pessoal, a gerir filas de esperar, … Bastaria gerir o nosso dinheiro de uma forma racional.

M

as tudo isto é irrelevante, já que o país que temos é este, no qual muita coisa que é serviço público se paga duas vezes. Ora, mesmo com três belos sorrisos, duas assistentes de médico, uma limpeza impecável e a pagar duas vezes, o facto é que o belo Hospital da Luz  pede pagamento adiantado dos serviços que vai prestar.  Quando procurei saber quanto custaria, para perceber se valeria a pena e porque até existem alternativas, não me souberam dizer. Que não sabia o que seria feito, apesar do médico me ter explicado o que iria fazer. O Hospital queria, por isso, uma caução de 750 euros, perdão um adiantamento médico de 750 euros, sobre o qual se faria o ajuste à saída. Dar dinheiro assim, sem saber o que virá a ser facturado, é como entregar heroína a um viciado. Como meter manteiga em nariz de cão. Como perguntar à máfia o que acha do crime.

Isto é a saúde privada. A alternativa consiste em fazer fila às 5 da manhã para se ter senha para uma consulta, que é o que têm que fazer os que não tenham médico de família. Porque raio não se há-de poder simplesmente ir ao médico?

Comments

  1. marai celeste ramos says:

    Por acaso já tive de ir às urgências do Hospital da Luz onde esperei 4 horas alta madrugada em 2011 – mas comparado com 13 horas de espera ao fim das quais nem fui parar à especialiade pedida (fui parar à psiquiatria por engano da menina da gaiola tendo o médico perguntado como estava ainda tão bem disposta ao fim de tal espera, o que achei estranho, e então diga disse o doutor, de que se queixa – é isto – minha senhora mas sou psiquiatra – claro que já meio doida falei o tempo que me apeteceu e disse isso mesmo já que tinha sido dada com o doida, pois as urgências de Xavier-Lisboa são são !!!
    Mas não eram – o Xavier era exemplar – deixou de ser e a LUZ comparado com o Hospital Xavier, até achei que era uma mararavilha depois de ter sido dada como “doida” no Xavierr – o que nunca me tinha sucedido – No entanto, na Luz, ao ir não sei quantos dias depois – talvez 12 – levantar o exame feito, levei horas e andei perdida por km e km de corredores, pois que de cada lado me enviavam para outro e ninguém encontrava nada em lado nenhum – e lá encontraram – levou mais tempo do que o de espera de consulta . E para que ficasse tudo a condizer fui de taxi e só para levantar exame achei que podia esperar – mas o taxista fartou-se e foi embora – andei na rua à procura dele pois foi aqui que tomei o taxi – mas nunca o encontrei e fiquei danada – há dias e locais que parecem situar-se noutro país algures – não sei porque é que há duas semanas 400 médicos, creio, debandaram para frança e alemanha fartos deste país e de n~´ao receberem o que achavam correcto – pena terem ido mas foram como tantos outros que se fartam – Afinal seria tão mais simples como disse esta semana em reportagem TV o médico não sei quê Sobrinho, se as unidades familirares fossem bem geridas e que o problema do opais é em geral carência de estruturação e funcionamento – é verdade – a do meu bairro já melhorou um bocadinho – mas é tudo lento demais a mudar e seria tão fácil pois resolveria 90% das situações do bairro (e até jé mandam mails a marcar consulta o que acho espantoso, embora tenha perdido o serviço de análises, mas alguém inteligente situou-se ao lado) e se assim fosse nunca seria necessário estar tantas horas em nenhum hospital central ma«nas urgências já que tudo funcionaria bem e em hierarquia de funções e ganhos de tempo – mas a Justiça é igual pois há dúzias de anos que nem a informatização funciona – tudo está como as rêdes de pesca que fazem burações nas suas malhas que se rompem mas os pescadores remendam-nas – aqueles senhores não se calam e hoje não conteceu nada a não ser gastar dinheiro (e ganhá-lo) que parece que é cáro o minuto de TV – Santana Lopes encaganita-me- Agora falam do corete de feriados e da forma arrogante e obscura como diz Rosas e Santana quer feriado para o dia das Bruxas – tirem santana da minha frente – coo gande homem de cultura monopolizou co mo habitualmente 2/3 do tempo-fim04-40H de quinta feira 2 de fevereiro a anunciar o frio siberiano – não não vou ouvir Vitorino de Almeida – vou ver o frio

    • jorge fliscorno says:

      Pois, 400 médicos que se foram e que tanto dinheiro custaram ao Estado a formar. Há realmente dias em que este país parece outro lugar – aqueles que não parecermos uma república das bananas.

  2. Tiro ao Alvo says:

    Diz o amigo que “bastaria uma coisa simples assim: quem precisa vai ao médico e depois o Estado paga ao médico. Com a vantagem do Estado não ter que andar a construir centros de saúde, a fazer gestão de pessoal, a gerir filas de esperar”.
    Se não erro, nesses países, o médico não recebe por acto médico, o médico recebe pelo número de “doentes” que apoia, tendo todo o interesse em que eles não lhe aparecem no consultório, prestando, por isso mesmo, grande atenção aos cuidados preventivos, aconselhando os doentes a vacinarem-se, quando conveniente, etc. E se for assim, o doente vai ao médico e o Estado não paga depois, o Estado paga sempre o mesmo, conhecendo antecipadamente, o valor da “factura” com os clínicos. Estarei errado?

  3. jorge fliscorno says:

    Conheço o sistema alemão de lá ter vivido mas não conheço assim tão bem. Quando precisei de consulta, vi que médico me podia atender, fui à consulta, dei o meu cartão OAK (seguro de saúde público) e acabou ali a história.

  4. Carlos Fonseca says:

    Jorge,
    Se, acima de tudo, se mantiver a filosofia do negócio, necessariamente lucrativo, dos hospitais privados – e não vislumbro que se altere – os serviços de urgência ou de emergência são a parte espúria do negócio, em conjunto com a assistência a doentes oconlógicos que, uma vez gasto o ‘plafond’ das seguradoras, são pura e simplesmente transferidos compulsivamente para o domicílio ou para os chamados os hospitais de retaguarda ou de cuidados continuados do Estado ou de IPSS’s financiadas por dinheiros públicos. A Eng.ª Isabel Vaz ´, de resto, foi clara quanto aos limites de assistência a doentes:
    http://aventar.eu/tag/isabel-do-carmo/
    Ter médicos de várias valências – cardiologia, neurologistas, crurgia geral, pneumoligia, gastrenterologia, urologia, ortopedia e imagiolia… – em serviço permanente para responder a doentes de urgências, cujo número nunca pode ser pré-definido, é muito complicado e arriscado para o negócio.
    O risco de mortalidade, ao recorrer a urgências dos privados, é muitto elevado. Sobretudo para acidentes súbitos de doenças cardiovasculares – AVC’s e Enfartes. Aos doentes com patologias deste tipo (principal causa de morte em Portugal e na Europa, a uma taxa de cerca de 35%) é recomendável recorrer às urgências de hospitais públicos – S. João no Porto, HUC’s de Coimbra, Santa Maria e São José em Lisboa e uns poucos mais.
    No fundo, o problema é se o SNS não tem dinheiro e se o privado não oferece serviços de emergência à altura das necessidades, infalivelmente a qualidade dos serviços de saúde efectivos e a esperança de vida dos portugueses vão degradar-se acentuadamente.

  5. carlos says:

    De facto é uma vergonha esta conjuntura atual do SNS em que as ruinosas parcerias público-privadas dominam!


  6. Adorei a expressão “trazer os doentes ao hospital”…. fez-me lembrar a promoção de um resort!

    Andam-me a tramar estes eleito pelo meu povo (não por mim…)!!!


  7. se havia uma coisa interessante no sistema português de saúde, era precisamente a existência de centros de saúde, coisa que em França, por exemplo, já foi extinta, levando a que 60 % das urgência sejam falsas.
    Ora que fecham em Portugal ? Os centros de saúde.
    Boa !!!!
    e privatizam os hospitais quando se sabe que as urgências não interessam os privados.
    Melhor !!!

    foram 300 os que concorreram para dar de frosques.
    Podemos po-los na conta daquela emissão onde o Relvas aprovava a deslocalização da produção nacional para Angola.

    Só falta saber se é com os doentes angolanos que pensam rentabilizar os hospitais privados…
    Desempregados não têm nem para pagar taxas moderadoras.

    O médico que tinha em Portugal, e que até era todo da direita, fartava-se de rir com a falência do Hospital privado de Cascais. Uma prima minha que é toda PSD mas trabalha no setor da saúde, não quer nem ouvir falar de hospitais privados.
    é que também há pessoas que são profissionais antes de terem ideologia. pena é que não governem.

    Tito Livio Santos Mota

  8. jorge fliscorno says:

    Precioso, este teu comentário, Carlos.

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