Uma história antiga

adão cruz

Há muitos anos, João andava na Faculdade. Encontrava-se no velho Café a estudar umas coisas de embriologia, a estúpida abordagem da embriologia de então, que nada tem a ver com as maravilhosas lições de Richard Dawkins. Estava sentado numa daquelas pequenas mesas quadradas, mesmo junto à porta.

 Tinha pedido ao empregado um café e um brandy. Pouco tempo depois, um velhinho dos seus oitentas ou noventas, como não tinha lugar – as mesas estavam cheias de jogadores de damas e dominó – fez um gesto, com o qual queria pedir para se sentar na mesa do João, ao que ele acedeu com um discreto sorriso. O velhinho sentou-se, pôs a bengalita entre as pernas, cruzou as mãos e fitou os olhos lá para o fundo do café, talvez o seu único infinito.

 Estava João embrenhado na leitura, com o livro a uns quarenta e cinco graus em relação ao plano da mesa, portanto com um campo visual relativamente limitado, quando viu a mão do velhote deslizar sorrateiramente pela mesa até ao seu cálice de brandy, fazer do dedo indicador uma espécie de gatilho, arrastá-lo suavemente até si, e, rapidamente, com notório trémulo, levá-lo à boca e sorver uma boa golada. Com o copo de novo em cima da mesa, iniciou delicadamente o trajecto inverso, fazendo-o deslizar suavemente e manhosamente até debaixo das costas do livro de João. Este procurou não olhar para ele, como é óbvio, pois de modo algum pretendia denunciar aquilo que o enchera de ternura. A vida tem coisas cuja dimensão de simplicidade, autenticidade e verdade é tão grande que as transforma em irradiantes e majestáticos fenómenos de coerência. João deitou o rabo do olho para a cara do ancião e notou que a sua fisionomia mostrava a satisfação de um golpe de mestre.

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