Contra o Acordo Ortográfico: mais homografias

O AO90 contribui para o aumento das homografias, ou seja, com a sua aplicação o número de palavras que se escrevem da mesma maneira e se pronunciam de maneira diferente. Tal facto poderá dar origem, como vimos anteriormente, à alteração da pronúncia, para além de poder dificultar o entendimento de enunciados.

Na Nota Explicativa dedica-se o ponto 5.4 a esta questão, o que, de certo modo, corresponde ao reconhecimento da existência de um problema.

Um dos primeiros argumentos é o da preexistência de outras homografias na ortografia portuguesa. Ora, se é reconhecido que a homografia pode trazer problemas, qualquer acordo deve, na medida do possível, evitar a sua multiplicação. Relembre-se uma das contradições apontadas ao AO90, quando defende a manutenção do acento em “pôr” para evitar a homografia e a supressão do acento em “pára”, apesar da homografia.

Na Nota Explicativa, 5.4.1, b), defende-se que a criação das homografias não criará dificuldades de leitura ou de entendimento “(…) porque, tratando-se de pares cujos elementos pertencem a classes gramaticais diferentes, o contexto sintáctico permite distinguir tais homógrafas.”

Resulta da minha experiência profissional o contacto com homografias involuntárias que, efectivamente, criam textos que só a custo podem ser descodificados. Desafio o leitor a não ficar atrapalhado perante um enunciado como “A personagem e racional, mas, neste excerto, esta emocionada.” É claro que há, aqui, formas verbais que não foram acentuadas e é certo que um leitor experiente consegue, ainda que a custo, ultrapassar as dificuldades. Seja como for, a homografia é sempre um ruído que deve ser preferencialmente evitado.

Francisco Miguel Valada, na p. 49 de Demanda, Deriva, Desastre, acrescenta o seguinte: “Quando se refere o contexto como fórmula de desambiguação, esquece-se que nem sempre o contexto pode ser factor auxiliar, nem, por vezes, se subentender, como pode acontecer com um cabeçalho de jornal, na linguagem publicitária ou mesmo em cartazes de campanhas partidárias.” Relembro, a propósito, que o próprio Record, o primeiro jornal a adoptar o AO90, optou por manter o acento gráfico em “pára”, dando como exemplo a ambiguidade que poderia nascer de um título como “Ninguém para o Benfica”, quando o objectivo fosse o de fazer referência a uma série vitoriosa daquele que se espera que venha a ser o próximo campeão nacional.

Pedindo perdão pela nota clubística, acrescento, aqui, mais uma conclusão parcial: o aumento das homografias constitui mais um pecado do AO90.

Texto 6 de 8. Contra o Acordo Ortográfico

Comments


  1. Só não concordo com o conteúdo da frase: “quando o objectivo fosse o de fazer referência a uma série vitoriosa daquele que se espera que venha a ser o próximo campeão nacional.”

  2. António Fernando Nabais says:

    Já fico contente se concordar em discordar do acordo. Quanto ao resto, que ganhe o melhor (ou o pior, se o pior for o Benfica).

  3. Tiro ao Alvo says:

    É estranho que não apareça por aqui, pelo menos, um dos defensores do Acordo Ortográfico de 90, o chamado AO90. Será que já estão todos convencidos de que estavam a laborar em erro? .

  4. Lina says:

    Estranho, os defensores do AO90 não aparecerem por aqui? Não me parece. Como se diz, contra factos (ou “fatos”, para os que, como os “redatores” do Diário da República, utilizam essa bela ferramenta que é o “corrêtor” ortográfico lince) não há argumentos que valham! É vê-los caladinhos enquanto a revolta contra aquele documento sem pés nem cabeça (e contra os políticos/empresários que no-lo querem impingir) se avoluma.


  5. Concordo com os problemas de interpretação que podem resultar de se deixar de acentuar a palavra pára… mas, em termos gerais, não discordo do acordo ortográfico.
    Aproveito para notar que não é verdade que se vai passar a escrever fato em vez de facto. Como nós pronunciamos facto, continuar-se-á a escrever facto.
    Para mim, toda esta oposição ao acordo ortográfico não passa da costumeira resistência à mudança. Natural, mas que deve ser ultrapassada.
    Portugal e o português só têm a ganhar com uma maior homogenização da língua. Afinal nós somos apenas 10 milhões dos cerca de 270 milhões de lusófonos.
    Por outro lado, este não é o primeiro, nem será com certeza o último, acordo sobre a nossa língua. Os meus avós, dando um único exemplo, ainda escreviam pharmácia, mas nem por isso é menos correto escrever-se agora farmácia. Se a escrita não evoluísse, podíamos estar ainda a escrever latim, embora falando já português.

  6. António Fernando Nabais says:

    #5
    1 – concorda que possam passar a existir problemas de interpretação criados pelo AO, mas, em termos gerais, concorda com o AO?
    2 – as confusões acerca de “facto” surgem em textos que seguem o AO.
    3 – cabe-lhe a si provar que a oposição ao acordo “não passa da costumeira resistência à mudança”. A não ser que seja um pressentimento seu. De qualquer modo, o AO não passa a ser bom, só porque é uma novidade. Também não é o facto de ser uma novidade que faz com o AO seja mau. Aceitemos o AO, se for bom. Rejeitemo-lo, se for mau. Simples.
    4 – O AO não consegue homogeneização da ortografia e também não consegue homogeneização da língua (ortografia e língua não são a mesma coisa). Qual é o problema de sermos apenas 10 milhões? Os 320000 habitantes da Islândia deveriam passar a falar norueguês? Talvez não valesse a pena: o norueguês só tem 5 milhões de falantes.
    5 – a escrita não evoluiu, foi sempre alterada por decisão política. Seja como for, a crítica às alterações deve ser feita com base, sobretudo, em factos ou em argumentos o mais rigorosos possível. Foi o que tentei fazer, na esteira de muitos outros. O caro comentador não contrariou nenhum dos argumentos utilizados neste ou nos outros textos desta série que termina amanhã.

  7. Lina says:

    Permita-me o autor dos excelentes textos que têm vindo a ser publicados neste blogue, identificando as inúmeras inconsistências e erros do AO90, que cite um excerto de um artigo do filósofo e escritor José Gil, recentemente publicado. Para os que aceitam a reforma ortográfica que está em curso, sem questionar os seus benefícios e coerência (i.e. sem a recusarem), eis uma descrição certeira sobre a “suave lavagem ao cérebro” que ela acarreta:

    “O AO afecta não só a forma da língua portuguesa, mas o nosso pensamento: com ele seremos levados, imperceptivelmente, a pensar de outro modo, mesmo se, aparentemente, a semântica permanece intacta. É que, além de ser afectiva, a ortografia marca um espaço virtual de pensamento. Com o AO teremos, desse espaço, limites e contornos mais visíveis que serão muros de uma prisão onde os movimentos possíveis da língua empobrecerão. Como numa suave lavagem de cérebro.” (José Gil, in revista “Visão”, 16.02.2012)


  8. Meus camaradas portugas, vocês levam mesmo a sério esse tal de acordo ortográfico? Aqui no Brasil que o acordo esta em vigor, foram perguntar a João Ubaldo Ribeiro ( Academia brasileira de letras ) o que ele pensava sobre o acordo ortográfico e João disse a expressão regional “não infloi nem contribui”. Aqui quando vimos o acordo já estava feito e e já se sabia que acordo ortográfico não pegaria.
    Que lei é essa que pensa que pode mandar na língua ? Eu moro no rio de janeiro e o sotaque já e diferente em cada bairro. No Brasil cada estado fala de um jeito, tem expressões diferentes e variações absurdas de sentido. Dado a variação linguística nem mesmo os concursos públicos levam totalmente a sério esse dito acordo. Não da para calar, modificar ou controlar uma lei por decreto.
    E se decretarem novamente:
    “Ora sabereis que sua riqueza de expressão intelectual e tão prodigiosa, que [brasileiros] falam numa língua e escrevem noutra”.

  9. marai celeste ramos says:

    Pois José Gil, considerado um dos 6 mais famosos filósofos do mundo ocidental, explicou de forma simples e inquestionável – não fosse ele filósofo, pelo menos, e não perde, nesta situação, tempo com opiniões. Nesta situação opinião é a mais inútil perda de tempo, mesmo com aderentes que se intitulam de eruditos (como de confª que ouvi, de linguista) – do que me é dado entender, e tendo atravessado, se bem me lembro, duas alterações ortográficas, esta é além de perfeita, bela até do ponto de vista visual já que a própria grafia encerra, por si só beleza, e conctitui uma entidade – se for macaqueada, não passa de macaqueada e o ph que abrandou em f não não explica nada

  10. marai celeste ramos says:

    GIRICO – a sua observação fez-me pensar no “crioulo” de Cabo Verde que tendo 10 ilhas tem 10 variantes e, em cada ilha, tem duas já que no interior e litoral de cada ilha o crioulo diferia sendo que as razões seriam, crei eu que lá estive, derivadas do facto de não haver transporte e comunicações ente as ilhas – mas todos se entendiam quando e se se encontrassem. goar que todas as ilhas estão ligadas até por avião, não sei se esse “encontro permitiu, naturalmente, que os diferentes linguajares se aproximassem – e era crioulo, como é na Guiné, que será, ainda diferente – mas como não sou linguista nem sei se estou a dizer disparates para além da observação, local, que fiz – de qualquer maneira eu não leio (ou oiço) brasileiro de forma a entender tudo, não pela fonia, mas por termos que não uso (usamos) e sei que não é fácil, a brasileiro, ouvir português mesmo que tenha estados em que usam português mais antigo ainda do que o existente. será então uma questão de fonia e dicção – por mim deixem estar bem que está bem é é usado como é usado, e deixem-se de bizarrias porque cada local da mesma lingua fará “variações” certamente e os algarvios não falam como eu mas escrevem da mesma maneira mesmo que façam erros de ortografia


  11. Marai, não estou negando a existência de uma norma culta para a ligua. Estou sendo contrário a pretenção de se fazer a ligua pela força do estado e normatizar a gramática por decreto. . Não compete ao estado ou a academia normatizar a ligua. A ligua é algo vivo. Não sera decreto que fara o mesmo portugues escrito no Brasil ser entendido em portugal e etc.
    Penso em por exemplo ter que dizer aos meus filhos( quando eu tiver filhos) que ao ler Caio Fernando, Clarice Lispector e Jorge Amado eles estaram desaprendendo o portugues culto porque o portugues culto é o portugues oficial de normatizado por lei.

    Pior! imagino se meu filho (quando eu tiver filho) acreditar nesse papo de que portugues escrito é tudo igual. Ele escreve um bilhete para uma gatinha do colégio dizendo ” A senhorita é uma rapariga muito gira!” e leva um tapa e uma suspensão.

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  1. […] mas a verdade é que o mais elementar bom senso leva a que, quase instintivamente, se resista à multiplicação de homografias. Por outro lado, o redactor do título talvez tenha partido do princípio de que a mesma palavra […]


  2. […] já existiam palavras homógrafas antes do AO90, como se a existência prévia de obstáculos fosse razão suficiente para se criem mais obstáculos. Entretanto, e não por razões sentimentais, os autores do AO90 obrigam a manter o acento em […]

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