A crise do sistema e a banalização da violência policial

A ensaísta, superdotada ‘tudóloga’, escrevente aqui, palradora acolá, manifesta-se incomodada. Coitada da criatura está molestada contra jornalistas que considerem que a liberalização das leis laborais, em Espanha ou em Portugal, esteja a suscitar vasta contestação popular; o que, de resto, sucedeu este fim-de-semana em 57 cidades espanholas.

Presumo que ‘a ensaísta’, especializada em tudo e mais alguma coisa, tenha igualmente desenvolvido um complexo modelo matemático e macroeconómico, para sustentar a tese de que despedimentos mais fáceis e económicos, bem como relações de trabalho mais precárias, constituem factores criadores e multiplicadores de desenvolvimento e emprego.

Recusa-se a entender que, na Europa, os sistemas económico e financeiro estão em aguda crise. Não resolúvel através de modelos de austeridade severa, os quais, felizmente para ela, lhe passam ao lado.

Se censura os títulos do ‘Expresso’ sobre a revisão de leis laborais, acusando-o de alinhamento com o socialista ‘El País’, é melhor que leia também o insuspeito ABC, que não se furta à obrigação de divulgar a carga policial e violência exercidas sobre poucas centenas de jovens em Valência. Houve dez detidos, entre quem contestava os cortes nas despesas públicas com o ensino. As imagens reproduzidas são elucidativas.

Atitudes deste género, infelizmente replicadas por outros ensaístas de almanaque, são prova da ignorância da dimensão da crise europeia e da falta de reconhecimento da banalização da violência policial; tudo isto, à míngua de soluções políticas eficazes.

O fenómeno da crise europeia é efectivamente sistémico. Apenas, com esta amplitude, se compreende que “Bruxelas admite impacto de incertezas gregas em Portugal”.

(Obs.: Duvido que seja apenas em Portugal. A continuar a falta de eficácia política correcta, em outros países, o povo também sairá à rua e, pelos vistos, a violência policial será a solução contra legítimos e legais protestos)

Comments

  1. José Galhoz says:

    Houve tempo em que encarava o alinhamento de certos ensaístas/comentadores com as teses dos poderes instituídos como uma questão de ideologia. Nos tempos actuais, com as evidências do falhanço das políticas aplicadas na Europa, acho que a questão só pode resumir-se ao binómio estupidez-mercenarismo. Quanto ao “contágio dos mal comportados”, é evidente que não será precisa a bancarrota da Grécia para ele se verificar; mais cedo do que tarde mesmo os bem comportados serão atingidos pelas consequências das sua políticas xenófobas de defesa intransigente dos seus queridos sistemas financeiros.


  2. Meu caro, esta tudóloga como muito bemn a apelida, se vier a existir novamente o gabinete censório, já tem lugar apontado para a presidência ou vice-presidência, tudo depende da aceitação de outro tudólogo, que é mestre em cambalhotas jornalísticas e escreve no mesmo local.

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