BCE e o risco de falência dos bancos europeus

O fútil e a polémica pela polémica – propositadamente, creio eu – ocupam tempos e espaços consideráveis nos ‘media’ e, consequentemente, no debate público, blogosfera incluída. Todavia, de volta e meia, há alguém que resolve evadir-se do superficial e da conversa para pacóvios. Um exemplo: o excelente trabalho de Ana Rita Faria no jornal ‘Público’, sob o título “BCE – o ponto de refúgio do euro está a tornar-se tóxico?”.

Do artigo, destaco o último parágrafo:

“Em momentos de crise, o banco central tem de escolher entre dois demónios. O primeiro é o colapso iminente do sistema bancário, o outro é um risco moral futuro. Um banco central responsável quererá sempre evitar o primeiro demónio”, defende Paul De Grauwe. Para o economista, o BCE devia, desde o início da crise, ter assumido o papel de “credor de último recurso”, comprando ilimitadamente dívida pública e impedindo que as taxas de juro dos países periféricos subissem acima de determinado patamar. Um papel que parece demasiado desafiador, até mesmo para o “Super-Mario”.

Devido aos motivos invocados pelo professor da Universidade de Lovaina, o sistema bancário europeu está seriamente ameaçado de falência, podendo vir a revelar-se inúteis os esforços, de certo modo desesperados, do BCE, dirigido por Mario Draghi; muito contestados, de resto, pelo líder do Bundesbank, Jens Weidmann.

Os países da Zona Euro, excessivamente focados nas políticas de contenção orçamental, vivem em alto risco de colapso do sistema bancário e, sem ser exaustivo, refiro alguns aspectos nucleares da crise:

  • o balanço do BCE, em 5 anos, praticamente incrementou os 1,5 triliões de euros de activos para valores superiores a 3 triliões (a parte correspondente a activos tóxicos, associados a empréstimos sob risco de incumprimento é extremamente elevada);
  • a exposição do BCE aos chamados PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha) está estimada em 705 mil milhões de euros, ou seja, mais 50% do que no Verão de 2011;
  • a totalidade dos bancos europeus apoiados pelo BCE são cerca de 800 e não apenas instituições bancárias dos PIIGS;
  • a alavancagem atingiu o elevadíssimo valor de 36 vezes o valor do capital e reservas, significando que perdas de 2,77% dos activos (empréstimos não reembolsados) absorverão a totalidade do capital e das reservas do BCE;
  • o BCE tem concedido empréstimos a 1% a bancos comerciais que, por sua vez, financiam as dívidas soberanas a taxas bastante superiores (6/7% no caso português);
  • o BCE aceitava dos bancos comerciais, como garantia, os ‘títulos de dívida pública’ dos Estados devedores, mas passou a receber igualmente outras garantias de risco: pacotes de crédito à habitação, créditos ao consumo e empréstimos a empresas.

Estes e outros dados podem constituir o pronuncio da catástrofe financeira, económica e social a que está exposta a UE. Se as falências bancárias dispararem, os países do Norte não escaparão ao dilúvio. Até a Noruega, que não é Estado-membro, tem um investimento de 400 mil milhões em dívidas soberanas.

Sob o risco de suceder o pior, será caso para lembrar o velho slogan: com “Dum-Dum” não escapa um!

Comments


  1. É interessante observar a evolução dos activos do BCE. Os esforços do BCE vão ser mesmo infrutíferos.

  2. Carlos Fonseca says:

    #6
    Helder, para o ‘post’ consultei a informação da Bloomberg que há dias me enviaste e cujos valores correspondem àqueles que a Ana Rita Faria indica no Público.

  3. marai celeste ramos says:

    É uma espécie de “subprime” da banca mundial ???
    Pedro Nunes soares do PS está aos berros com o jornalista na TVi24H e não falam – desmentem-se – ideias não oiço – artefactos apenas – programa “politicamente correcto” – ai que não foi nada disso – foi apenas e mais uma vez queimar palavras sem sequer ter argumentos – o vazio total invadiu as TV

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