Ser Gente

adão cruz

Quando eu era criança, diziam-me os meus pais que eu tinha de fazer tudo para ser gente. Ser gente? Mas o que é ser gente?

Ao ver hoje o que se passa à nossa volta, ao ver a deterioração mental, a total ausência de escrúpulos, o desprezo da honra e da dignidade, a proliferação de criminosos, corruptos e vigaristas de toda a espécie, mais evidentes nos estratos superiores da sociedade e nos sectores da Administração e do empresariado, de onde deveria vir o exemplo e não o assalto miserável a quem trabalha, eu entendo o que os meus pais quereriam dizer, com o ser gente.

Ser gente seria, porventura, ir mais além do que trabalhar com seriedade e honestidade. Ser gente pressuporia a construção de alguma coisa dentro de nós e fora de nós que assenta, a meu ver, em quatro pilares fundamentais:

1 – O pensamento. O pensamento é o suporte mais poderoso e a armadura mais forte do homem, a mágica força da sua criatividade e da sua razão de ser. Sem pensamento o homem não pode ser gente, o homem não passa de um céu brumoso, sem ponta de sol. Por isso o pensamento tem tantos inimigos! São inimigas todas as inúmeras formas de anestesia mental, falsamente lúdicas, falsamente festivaleiras, falsamente religiosas, falsamente futebolísticas, levando a sociedade à ignorância, através de uma espécie de coma vigil que a impede de raciocinar. É inimigo o vazadouro de lixo mental da televisão, com que a sociedade vai enchendo a disquete da sua metacultura. Inimiga a perversão mediática da política, que deveria ser a nobre arte de uma verdadeira democracia participativa, inimiga a política pornografada em degradantes guerras de interesses que escamoteiam os verdadeiros problemas nacionais, inimiga a política atafulhada no maior lamaçal de corrupção de sempre.

2 – O segundo pilar do alto edifício que é ser gente decorre do primeiro e chama-se cultura. Não se trata da cultura do enciclopedismo balofo, somatório de vagos conhecimentos, empilhamento de ideias improdutivas, a cultura-cassete dos tempos de hoje, a cultura-espectáculo, mas sim a cultura do dia-a-dia, a cultura autêntica da dignidade da vida, a cultura irrepreensível do percurso.

3 – O respeito pelos outros constitui o terceiro pilar. Simplesmente, não há respeito pelos outros se não houver respeito por nós próprios. Quem não se respeita a si mesmo não pode respeitar os outros. E quem tem respeito por si próprio não pode ser falso, corrupto, ladrão, indigno, especulador, manipulador de pessoas e ideias, criminoso, traficante e sabujo. O respeito dos outros é o espelho de nós próprios.

4 – O quarto pilar desta edificação é a solidariedade, a solidariedade no seu sentido global, já que a solidariedade pontual, ainda que louvável, não conduz a nada em termos sociais. É o caso da caridade, que não sendo de forma alguma negativa, pode ter, ao contrário do que acontece com a justiça, efeitos nefastos quando pregada como fim em si mesma. O primeiro passo da solidariedade está no entender da indispensabilidade da justiça social e no seu consciente reconhecimento como prioridade das prioridades, a todos os níveis. O segundo passo reside, por parte do cidadão, no cumprimento correcto da lei, no cumprimento escrupuloso e competente dos seus deveres de cidadania, no mais correcto exercício da sua profissão e da missão de que cada um está incumbido. Viver dos outros, implica viver para os outros.

É triste reconhecermos que uma parte dos homens de hoje, dos homens que mandam, dos homens que podem, dos homens que estão à frente de governos e de instituições de alta responsabilidade não são gente, nunca foram gente nem para lá caminham. São verdadeiros exemplares da mediocridade e da ausência de formação e de escrúpulos, a ocupar grandes e rendosos postos, arremedos de gente, excrescências malignas da sociedade, contrafacções da honra e da dignidade, são a parte podre da humanidade. A epidemia de corruptos é disso exemplo, e o que conhecemos é a ponta do iceberg.

A esses, os que se apresentam como cabotinos deste palco da vida, para os que não reconhecem a sua inutilidade e dilatam dia a dia a sua perversidade, e pensam que a roubar é que são grandes e que a viver à grande e à francesa à custa da miséria e do trabalho dos outros é que estão acima do mundo e do homem comum, eu lembro que no seu estômago já não cabe mais nada e nos seus cofres o dinheiro já não passa de entulho. Ainda bem que existe a morte, o único mecanismo democrático da vida.

Comments


  1. Estimado Adão, como sabe, já há muito que admiro o seu trabalho artístico. Gosto muito do que escreve e de como escreve, e gosto da sua pintura.
    Hoje, porém, com este texto, fiquei a admirá-lo muito mais, especialmente como ser humano, e fiquei, sobretudo, a respeitá-lo ainda mais pelo que do seu interior mostrou! São sim, pelo menos para mim, esses os pilares em que deveria assentar toda a humanidade!
    Obrigada por ter reforçado a minha opinião de que, por entre a corja que povoa o mundo, coexistem verdadeiros, mas infelizmente muito poucos, seres humanos!


  2. Plenamente de acordo com o sentimento de Adão Cruz. Subscrevo.

  3. marai celeste ramos says:

    Você Adão Cruz que nunca o li senão suave e poético, tranquilo e luminoso, hoje escreveu com raiva a saltar aos pinotes nas entranhas – que texto certeiro-mcor
    Como vivo sozinha e como nem sempre me apetece fazer algo de especial, abro a TV sem som que só ponho se pensar que algo posso ver, para não estar tão parada – e percorro TODOS os canais e a raiva era tanta que até me esqueci que era domingo e que talvez fosse de ver a parvalhona cagona da TV2 canal que por sua vez foi conspurcado com publicidadae a eventos culturais (que raio de poluição cultural aos saltos) – esqueci a TV2 – Desde este governo e o demente que manda na TV quee desde este governo que já não reta NENHUM canal e nenhum e seduz – nenhum – chego a ver futebol que não percebo nem me faz falta, retiro o som e olho o movimento – pois preciso de “algo” que se agite “aqui” embora adore o silêncio mas sempre também não consigo e, música, só sou capaz de ouvir durante toda a manhã, até porque à noite é ouvida pelos vizinhos que dormem a horas diferentes das minhas – Assim, a raiva do seu texto fez tal eco na minha raiva por tudo, incluindo a TV que é insuportável e que, por caso, hoje nem aguentei e desliguei completamente – vencida – e a raiva ainda mexe e são já 11.´30H da manhã, hora mais do que levantar, mas a raiva não me permitiu hoje sequer adormecer à hora mais ou menos de o fazer – no silêncio das 3/4 da manhã – a raiva impediu-me hoje de adormecer – Creio porém que as suas “palavras” até me embalam – essa raiva que tem de sair porque DESINTOXICA – obrigada pelo “eco” – vou mesmo dormir – e hoje o céu já faz azul de céu e sol – mas sem chuva – março marçagão manhã de inverno e tarde de verão, “tarda” – mas que país que parece “filho de um Deus menor” – mas não é – nunca será, mesmo que sendo agora ninho de abutres que o invadiu e dele se apossou – vamos ver

  4. adão cruz says:

    Sensibilizado pelas vossas palavras. Um grande abraço

  5. marai celeste ramos says:

    AdãoCruz-É tempo de perversão – para o meu país e para os que, como eu e da minha idade, o construiram também – e vejo os velhos da minha rua erguidos e silenciosos e olhar e brilho do tempo que venceram e não os venceu mesmo que alquebrando, a alguns, os ossos, mas que têm coluna vertical de cristal – Tempo de perversão da europa que também ela nunca tinha ido tão longe na sua “união” – Perversão talvez dos homens do planeta pois que vi, e nem consegui continuar, o que se passou e não foi dito (ou seria mais uma versão) entre o Paquistão e Afeganistão que há tantos anos são espoliados e abatidos sem cair, e que antes dos guerreiros ocidentais, se davam bem como vizinhos e até das mesmas etnias que ocupavam sem problela os dois espaços, agora com “fronteiras” impostas e até se casavam entre elas – Mas não consegui mais ver o relator e o outro da CIA a dizer mais uma vez o oposto do oposto – Fico baralhada, mas sobretudo agoniada sem consegir vomitar – Pois é, eles comem tudo e não deixam nada e nem o céu nos dá a chuva para dar de beber a quem tem sêde nem fazer turgr as frutas que este ano estão perdidas (porque até as pouca floração que deu secou e morreu) bem como quase todas as culturas de outono – e, curiosamnete, em todos os anos os governantes são obrigados a devolver os subídios da UE que não foram usados em projectos e, eles, se já têm todos topos de gama, poderiam tê-lo feito até adeantadamente, mas aquela menina “cara de anjo” não pesca grande coisa de nada – é muito legalista e meteu a pata na poça (sem água) desde que se revelou com o TUA – Espero assim que o dia da grande greve seja memorável e ficaz embora eu não acredite pois que estão de pedra e cal e não um só indivíduo dos que decide central e regionalmente que preste – nada presta – e matar o TUA nem sequer é apenas simbólico – é mesmo matar a direito – o que estarão lá a fazer e o que pensarão ?? E até aqule senhor das florestas que conheci em 1999, que logo a seguir à posso a TV foi fazer perguntas e repondeu assim por ali e por acolá, como quem já não era o tipo que fez maravilhas em Ponte de Lima mas sim o que num só depavho permitiu arrancar 400 sobreiros para uma estradeca de betume – sobreiros que ao pensar neles pendo logo em ” A um Deus desconhecido” de steinbech – o panteiísta – Não há “ira” que nos valha e eu não quero envenenar as células do meu próprio corpo físico

  6. MAGRIÇO says:

    Bravo, Adão! Que pena esta sua visão da vida não ser partilhada – já não digo por todos, que era pedir muito – mas pela maioria! Infelizmente, como é próprio dos espíritos menos esclarecidos, a maioria tem uma visão da sociedade deturpada por conceitos e dogmas que aqueles a quem aponta o dedo no seu texto tem todo o interesse em manter. A ignorância e a ambição sem limites são o melhor campo para a cultura da mediocridade.

  7. adão cruz says:

    É isso mesmo marai celeste ramos e amigo MAGRIÇO, sem tirar nem pôr. Também eu me sinto agoniado com o mundo que estes facínoras criaram. Mais uma vez obrigado a todos pelos reconfortantes comentários.

  8. semiramis says:

    Excelente texto. Obrigada.
    E como este o complementa: http://www.opinion-maker.org/2012/03/i-fear/

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