A Imprensa Regional.

Para promover os desígnios pessoais e colectivos de certos edis e edilidades existe a imprensa regional. Longe dos tempos em que servia a quezília política e ideológica, anunciava abertura de novas mercearias ou publicitava as carreiras de vapor para o Brasil ou os comboios para França, o pequeno jornalismo serve hoje de bandeja o longo rol de obras paroquiais e municipais. A mentalidade ainda é semelhante à que imperava durante essa longa noite radiofónica chamada Estado Novo: o jornalista local é uma extensão do funcionalismo , agora munido de gabinetes de comunicação que preparam as notícias. Estas não diferem muito, em teor e assuntos, do tempo da Segunda República (1926-1974), quando os senhores dos velhos municípios liberais (escudados em anacrónicos pretensos direitos medievais) se ufanavam de, com pompa e circunstância, inaugurar fontanários, caminhos rurais ou casas do povo. Hoje são rotundas, parques de merenda e auditórios, como se a cada concelho coubesse a necessidade de equipar-se segundo um pequeno país. No fundo não temos municípios mas antes 308 principados do “tipo Andorra” cada um com a sua biblioteca, o seu auditório, tribunal e complexos desportivos que poucos usam porque as muitas estradas levaram os habitantes a procurar outras paragens. No meio desta esquizofrenia urbanística estão, portanto, os jornais locais.
Ali pela minha terra, alturas de cima Douro, jornais como A Verdade, o Margem Douro, Viseumais e todos os folhetins radiofónicos que entretêm os ouvintes entre uma Romana e um Quim Barreiros, debitam notícias de teor municipalista e fitista. Numa corrida frenética presidentes e vereadores inauguram mesas de merenda, plantam árvores, distribuem vacinas sem qualquer eficácia preventiva e abrem concursos para a abertura de novas estradas, asfaltamento das anteriores e planeamento de outras mais. Toda esta engrenagem é oleada pela propaganda comunicacional dos técnicos resgatados à boca das universidades segundo as lógicas clientelistas que bem conhecemos. A este são entregues as famosas Revistas Municipais, de luxuoso papel e sofrível fotografia que tratam de fazer a publicidade interna. Ao mundo exterior são enviados press release contendo a súmula da frenética actividade do edil e companhia. Mesmo em tempo de fome, desemprego e desespero esta máquina não para. E depois vão perguntar a presidentes de câmara e de junta se concordam com a redução do número de autarquias. Estavam à espera que eles respondessem o quê? Que sim?

Não haja dúvida que, se há coisa que aproxima os jornalistas locais dos nacionais é a mediocridade.

Comments

  1. Francisco Gouveia says:

    Mas, no seu Douro, há excepções a esta paróquia jornalística. Porque não aqui referi-las, também? É que assim, não separando o trigo do joio, quem o lê e todas as semanas luta contra este estado de coisas nos jornais regionais, acha que, afinal, está numa guerra perdida. E não está.

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