Dívidas de gratidão

Roubo este texto ao Álvaro Vieira, perdido que ia ficar no Público edição Porto. Novidades destas são para toda a nação, direi mesmo mais, para todo o mundo:

A notícia já tem quase 15 dias e, lamentavelmente, continua a passar despercebida às secções de economia dos órgãos de comunicação social, apesar de significar a alvorada de uma nova era, muito mais feliz.
Tem a ver com o vereador do CDS na Câmara do Porto, que em 2009 se candidatou em situação de inelegibilidade, por ter sido declarado falido, e que suspendeu o mandato enquanto luta pela reabilitação.
A questão de saber como pode alguém manter um mandato que estava impedido de disputar é interessante. A discussão sobre a validade das deliberações em que participou também. A acção para perda de mandato que o Ministério Público lhe moveu há-de ser. Mas verdadeiramente empolgante é a notícia de que o vereador já viu o BES, que se dizia credor de mais de 78,3 mil euros, declarar ao tribunal que os 20 mil que recebeu de um amigo do autarca chegam para considerar este último “desonerado”. Também a Unicre, que pelos vistos gere os cartões de crédito com notável filantropia, declarou que “prescinde do seu crédito” avaliado em 7419 euros. Outros 102 mil euros da dívida do vereador já foram pagos por terceiros. Não ver o alcance disto é passar ao lado da felicidade.
Como somos todos iguais em direitos, de futuro só teremos dívidas de gratidão. Nunca mais haverá gente com contas congeladas por causa de dívidas insignificantes à banca. Nunca mais haverá famílias obrigadas a devolver a casa por falta de pagamento da prestação.
Nunca mais o país terá que se preocupar com os juros a que se financia, porque a dívida há-de ser perdoada ou paga por terceiros. E já nem se percebe por que anda a troika por aí.

Comments

  1. maria celeste ramos says:

    Tão amigos que eles são

  2. palavrossavrvs says:

    Estou prá minha vida.

  3. Isto dava uma boa trama para um romance ou telenovela de Moita Flores. Com final feliz e tudo.

  4. Pisca says:

    O tal Jacinto Leite não pode ver um amigo em dificuldades, vai logo a correr, desce do seu sobreiro e aí vai ele …..

  5. Para isto o pgr não monta equipas de investigação especiais, nem o Noronha diz nada.

  6. Lucino Preza says:

    JJC: Nunca ouviu dizer que uma mão tapa a outra?….Pois bem, caro amigo: o CDS tem muita gente rica no seu partido e todos conectados com bancos porque estes, precisam do apoio daqueles que, sacrificando o seu lucro, deitam a mão. Isto é um markting valorado pelo BEs e pela Unicre. Tenho uma amiga que sempre me diz: deixo de pagar a uma operadora de telemóveis porque, ameaçando-me, além de perder uma boa cliente, perdem muito dinheiro comigo por ser telemoveldependente. Além do mais, saio duma e entro logo noutra. Conversa amena lhe disse: Olha: eles entram em contacto com as outras operadoras e, nunca mais te aceitarão… Mulher de 81 anos , mas muito esperta e muito lúcida, me responde: devo dinheiro a Unicre e muito, mas se apertam comigo, ficam sem este que lhes devo e sem uma cliente que, ao fim do ano, lhes paga mais do que aqueles que, com medo, lhes pagam no final dos mesmos.E quanto às operadoras: com a crise tudo precisa de dinheiro… Jogar, é próprio de quem aventura muito sabendo, que tanto pode ganhar como perder, mas ganho sempre. Sabe-se lá o quanto o Bes como a Unicre ganharam com a manuntenção do vereador, mesmo suspenso da suas actividades?… Eles estão conectados uns com os outros por isso, a dívida está e estará sempre saldada. Mas se fosse com alguém com pouco dinheiro, já lhes tinham penhorado todos os seus bens.

  7. Tito Lívio Santos Mota says:

    Caro Lucino Preza, tenha cuidado porque essa de associar altos dirigentes do CDS com capitalistas… ainda acaba com gente a dizer que faz generalidades 🙂
    O pessoal do CDS não é católico mas milita num partido católico, percebeu?
    Da mesma maneira não está ligado à alta finança, só milita num partido que defende a alta finança e foi fundado com dinheiro da família Mello, entre outras.
    Nós não percebemos nada do CDS, o CDS é que a sabe toda, viu?
    LOL

  8. Tito Lívio Santos Mota says:

    Sobre este caso, o melhor é eu não dizer nada, porque se não ainda me vão dizer que eu venho lá das “estranjas” a armar ao pingarelho…
    Mas não me vou coibir de mandar isto aos compadres cá da terra.
    Uma risota nunca faz mal a ninguém.

    A propósito, ou quase : já viram a última do governo?
    “Quem trouxer mais de um milhão de euros para Portugal, fica logo com a situação regularizada”.
    Isto faz lembrar aquela do Jô Soares doutros tempos, e fica mais ou menos assim :
    Macaco – e pedem algum justificativo sobre a origem do dinheiro?
    Governo – Não !
    Macaco – E quem vier para trabalhar, pagar os seus impostos, descontar para o SNS… também tem as mesmas regalias?
    Governo – Não !
    Macaco – E se o gajo que traz o milhão viver à sombra da bananeira, sem pagar SNS nem descontos nem nada, quando for ao SNS também tem os mesmos direitos?
    Governo – Tem!
    Macaco – E paga os mesmos impostos?
    Governo – Não !
    Macaco – E se um indocumentado se puser a traficar em droga, a especular contra a dívida soberana, ou outra coisa que dê para ganhar um milhão, também fica legalizado?
    Governo – Se se for a Tui e voltar com o milhão, pode!

    Macaco – obrigado, irmão, desculpe a ignorância do Macaco !

  9. Afonso Jorge says:

    Tenho uma pequena lembrança de um tal Sá Carneiro ter tido um caso parecido.

    • Tito Lívio Santos Mota says:

      o Caso Sá Carneiro, que foi com ele para a cova (não da Iria mas parecida com essa), era coisa corriqueira nos idos do Marcelismo, quando o PSD e o CDS ainda faziam parte da ANP.

      Ia-se a um banco (eram todos, como agora, propriedade dos amigos) e pedia-se um empréstimo sobre fundos fornecidos pelo governo à conta dos Planos de Fumento.
      Dava-se uma identidade ligeiramente modificada (por exemplo o Sr. Francisco Sá Carneiro, assinava Francisco Sá ou Francisco Carneiro), pegava-se no dinheiro e não se pagava nem os juros nem o empréstimo.
      Se se levantasse auto ou demanda, bem podiam procurar a sociedade ecrã do Sr. Francisco Sá ou Francisco Carneiro, porque não existia tal pessoa.

      A AD e outras coligações por que passaram o PSD e o CDS, nunca foram mais que reedições da ANP marcelista, sobre tudo no que respeita a este tipo de práticas.

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  1. […] Mas porque a net é fonte inesgotável de esperança e aprendizagem, bora daí ao Aventar ler o Dívidas de Gratidão de João José Cardoso, e aprender pelo exemplo um processo de eleição. Gostar disto:GostoBe the first to like this . […]

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