O Moussem de Imilchil


O Lago Tislit. autor desconhecido

“Eu sei que este lago será a nossa morada para a eternidade.

Tu verás,
nós vamos viver na morte, já que fomos obrigados a morrer na vida… “

(FLOPSO, 2009, página electrónica citada)

No final de cada Verão tem lugar um acontecimento extraordinário no Planalto dos Lagos, no vale de Assif Melloul, no Alto Atlas marroquino, que reúne as populações da tribo dos Ait Hadiddou numa festa ou “moussem” conhecido como o “Moussem dos Noivados”. Organizado sob a égide de uma antiga lenda tribal, o festival tem uma grande relevância política, económica, social e religiosa para as populações locais.

Política, porque reforça os laços de amizade e de boa vizinhança entre os dois ramos da tribo Ait Hadiddou e entre esta e as várias tribos que consigo constituem a confederação Ait Yafelman. Económica, porque constitui um importante evento ligado à comercialização dos produtos agrícolas, de artesanato e de gado. Social, porque preserva a tradição dos casamentos em grupo, que asseguram a continuidade da linhagem tribal, permitem o casamento das muitas viúvas e divorciadas, asseguram a permanência na região dos elementos mais jovens da sociedade e evitam a consanguinidade num território em que as aldeias se encontram isoladas a maior parte do ano por motivo dos fortes nevões e difíceis acessos. Religiosa, porque dá continuidade à prática do Islão popular, adaptado ao modo de vida das populações berberes semi-nómadas, liberta dos fortes códigos sociais da sociedade Árabe tradicional.

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Mulheres da tribo Ait Hadiddou. autor desconhecido

A Lenda de Imilchil conta a história de um amor impossível entre dois jovens da tribo dos Ait Hadiddou, pertencentes às duas fracções rivais que a compõem, os Ait Brahim e os Ait Ya’za, que mantinham uma guerra fratricida por disputas territoriais. O jovem da fracção Ait Brahim chamava-se Isli, “o noivo”, e a jovem da fracção Ait Ya’za chamava-se Tislit, “a noiva”. Encontravam-se às escondidas, mas o seu amor foi descoberto. Proibidos de se encontrarem, estes “Romeu e Julieta do Alto Atlas” teriam como destino a morte.

Contam-se três versões do final trágico deste amor. Na primeira, Isli e Tislit morreram de amor, formando com as suas lágrimas os dois lagos que tomaram os seus nomes. Na segunda versão, Isli e Tislit não aceitaram a sua separação e suicidaram-se, tendo os lagos sido formados pelas lágrimas dos seus parentes. Na terceira, Isli e Tislit atiraram-se cada um ao seu lago, morreram afogados todas as noites saem dos lagos para se amarem. A conclusão é comum para as três versões da lenda _ as suas famílias decidiram que daí em diante não seriam mais proibidas uniões entre duas pessoas que se amem.

E assim, uma vez por ano, os jovens da tribo Ait Hadiddou podem escolher livremente com quem se querem casar, durante o moussem de Setembro, no morabito de Sidi Ahmed Oulmghenni.

“É nas margens desses lagos que, na ocasião do ‘Moussem dos noivados de Imilchil’, os jovens berberes se descobrem, se observam, participam em concursos poéticos, com o espírito de aí descobrir, seduzir e desposar o ser amado”. (FLOPSO, 2009, página electrónica citada)

Tislit Fouderg

O Lago Tislit. foto Fouderg

A Lenda de Isli e Tislit vem na tradição da poesia popular Amazigh, expressada sobretudo nos Ahidous, em que é cantada e dançada.

Diz Tislit:

“Chorarei, choro, façamos como os pássaros

Ó meu bem-amado chama Yaakub e que eu o chame.”

Isli responde-lhe:

“Juro-te que me separaste da minha cabeça

E que as pessoas passam sem que eu as reconheça.”

Tislit:

“Digo-te e volto a dizer:

O teu amor é como se eu comesse uma espiga de cevada

O meu coração nunca se satisfaz.”

Isli:

“Eu como e assim que penso em ti não tenho mais apetite

A tua ausência é um obstáculo entre mim e os alimentos.”

(FLOPSO, 2009, página electrónica citada)

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O Vale de Assif Melloul, situado a 2.200 metros de altitude. autor desconhecido

A lenda de Isli e Tislit faz referência a uma outra lenda antiquíssima da cultura Amazigh, a lenda de Yaakub e Ishaak, os pássaros do Médio Atlas. Nessa lenda também está presente a fatalidade do amor impossível:

“Há muito tempo dois apaixonados chamados Yaakub e Ishaak, desafiaram a realidade com o seu amor idílico. Mas o Deus do Amor, indignado com alguma quebra das regras que terão provocado, transformou-os em pássaros e decidiu que viveriam os dois na mesma floresta sem se poderem ver. Assim que caía a noite, ouviam-se os gritos dos dois apaixonados: “Yaakub!” e logo “Ishaak!” Com o passar do tempo os dois pássaros foram-se aproximando um do outro, guiados pelo som, até que ocuparam a mesma árvore. Nessa altura, com medo de gritarem em simultâneo e não se ouvirem, calaram-se. Um silêncio pesado envolveu então toda a floresta. Os pássaros apaixonados esperaram em vão ver-se um ao outro. Em desespero, voaram cada um para seu lado, e recomeçaram a gritar “Yaakub!” “Ishaak”. E todas as noites a história repete-se.” (FLOPSO, 2009, página electrónica citada)

IMILCHIL

As unidades étnico-linguísticas Amazigh de Marrocos

Existem três grandes unidades étnico-linguísticas berberes em Marrocos _ o Tarifit, nas montanhas do Rif, o Tamazight ou Tamazight do Médio Atlas, no Médio Atlas e Alto Atlas Oriental e o Tachelhit ou Chleuh, no Alto Atlas Ocidental, no Anti-Atlas, Suss e no Sahara. Dentro destas unidades étnico-linguísticas existe uma variedade enorme de tribos que falam dialectos tão diferentes uns dos outros que, mesmo no seio de cada uma delas a comunicação é muito difícil, como o sanhadji do Suss, o ghomari do Rif ou o berbère de Figuig. (WIKIPEDIA, 2016, página electrónica citada)

As tribos agrupam-se frequentemente em confederações, com o objectivo de melhor se defenderem e afirmarem os seus territórios. Esta necessidade advém em grande parte da autonomia política que os Amazigh detinham até há muito pouco tempo, quando o território marroquino se dividia em duas realidades _ o Bled El-Makhzen, ou País da Lei, governado pelo poder centralizado do sultão, e o Bled As-Siba, ou País do Caos, governado autonomamente pelas tribos.

A escassez de terra fértil, e consequente importância das regiões de solo arável e irrigáveis, foi motivo para a progressiva expulsão das tribos para as regiões de montanha, onde passaram a praticar o semi-nomadismo. Foi assim na invasão Árabe do século VII, durante as invasões dos Beduínos do século XI, concretamente dos Banu Maaqil, que afectaram particularmente a região do Sul de Marrocos, durante a chegada dos Andaluses expulsos da Península nos séculos XIII, XV e XVII e durante o próprio período colonial, altura em que os franceses utilizam políticas de manipulação das tribos para melhor as dominarem, apoiando os chamados “Senhores do Atlas”.

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A Confederação Ait Yafelman e sua distribuição geográfica no Alto Atlas Oriental

Os Ait Yafelman ou “aqueles que encontraram a paz” são uma confederação de tribos Amazigh Sanhaja, que falam o Tamazight do Médio Atlas. Agrupa como tribos principais, os Ait Hadiddou, Ait Morrhad, Ait Ayache, Ait Ouafella, Ait Izdeg e Ait Yahya. Chegaram ao Alto Atlas Oriental vindos de Sul, dos vales do Todra, Dadès, Rheris e Ziz, após uma guerra prolongada com a Confederação Ait Atta. O acordo que instituiu a Confederação Ait Yafelman foi assinado em 1645 na Zauia Assoul e consagrou a tribo Ait Izdeg como chefe de fila da Confederação.

Os Ait Hadiddou ocuparam o vale do Assif Melloul durante o século XVII, onde começaram a instalar as várias aldeias que povoam o seu território, a primeira das quais foi Akdim. Os Ait Hadiddou são uma tribo semi-nómada, que pratica uma agricultura de subsistência e a transumância, deslocando o seu gado entre as pastagens de Verão na montanha e as pastagens de Inverno no vale. Integram duas fracções distintas, os Ait Ya’za e os Ait Brahim, que mantiveram uma disputa territorial acesa por vários anos. (BERLANGA ADELL, 2004, pág.27)

O Moussem dos Noivados realiza-se na aldeia de Ait Amar, a uma vintena de quilómetros de Imilchil, junto ao morabito de Sidi Ahmed Oulmghenni. Segundo Mohammed Berriane, citado por Berlanga Adell, a palavra moussem tem origem no árabe maoussim, que significa “estação do ano” e refere-se a “uma peregrinação colectiva que se pratica periodicamente em determinada época do ano em redor dum túmulo de um santo” (BERLANGA ADELL, 2004, pág.31), existindo em Marrocos cerca de setencentos moussem, quase todos celebrados em Agosto e Setembro, já que são eventos ligados ao ciclo das colheitas.

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Localização do Moussem de Imilchil

O Santo (Sidi) Ahmed Oulmghenni chegou a este local no século XVII. Era originário da região de Oujda e nascido numa família pertencente à dinastia Idrissida. Conta-se que os pastores lhe pediam a sua Baraka, ou bênção, nos períodos de seca, e o gado que passava a noite junto ao local do actual moussem encontrava sempre erva fresca de manhã para se alimentar. Após a sua morte as pessoas verificaram que saía luz do seu túmulo, o qual foi aberto e encontrado o seu corpo intacto. Nesse local foi construído o morabito deste Santo, que passou a ser objecto de peregrinação anual. Há quem defenda que Sidi Ahmed Oulmghenni é originário da região de Taroudant e chegou a este local ferido, após ter combatido os portugueses na costa Atlântica de Marrocos.

O Moussem de Imilchil marca anualmente o final da época estival e o início da época dos nevões. As colheitas terminaram e o gado volta das pastagens de montanha. A sua importância comercial, religiosa e social para a tribo Ait Hadiddou fica desde logo patente nas suas diversas designações _ Souk ‘Aame, ou mercado anual, Agdoud n’Oulmghenni, ou concentração de Oulmghenni. O próprio topónimo Imilchil significa em Tamazight “a porta do aprovisionamento”, o que demonstra a importância deste evento na preparação do período de Inverno. Vendem-se cereais, forragens para o gado, animais, roupas, utensílios de uso doméstico, artesanato.

Durante os três dias de festa os Ait Hadiddou exibem os seus Ahidous, danças tradicionais, nas quais as mulheres viúvas e divorciadas participam ao lado dos homens, ombro a ombro, em rodas ou semicírculos ondulantes. As danças são acompanhadas de cantos, os “izlan”, ritmados pelo “bendir”, tamborim ou por palmas.

Abdallah

No Moussem de Imilchil. foto Abdallah Bouhamidi

Maria Jesus Berlanga Adell, cita Francisco Morilla Aguilar, que descreve desta forma o Moussem dos Noivados:

“Homens e mulheres de todas as idades e situação social: virgens, solteiras, viúvas e divorciadas, participam neste mercado do amor em busca de parceiro sem mostrar o menor escrúpulo nesta união sentimental que representará para elas um rumo diferente na vida. Em oposição a uma crença geral sobre o seu carácter de leilões de mulheres ao melhor licitador, como se se tratasse de um mercado de escravas de um filme, é, simplesmente, um encontro amoroso ou de conveniência para encontrar companheira”. (BERLANGA ADELL, 2004, pág.33-34)

Os casamentos colectivos são uma tradição dos Ait Hadiddou que permitiu solucionar alguns problemas que a organização social e o isolamento da tribo provocavam, garantindo a continuidade da linhagem tribal, evitando os perigos da consanguinidade, mantendo os mais jovens perto dos seus ascendentes, e permitindo, através de um processo de conhecimento mútuo simples e expedito, celebrar as uniões de forma rápida e socialmente estabelecida. Para além de unir os jovens, este tipo de casamentos permite também voltar a casar as viúvas e divorciadas. As cerimónias incorporam nos actos as práticas sociais da tribo, mantendo-os afastados dos códigos islâmicos tradicionais. Refira-se que este moussem não celebra apenas casamentos, mas também divórcios, consumados com igual celeridade e facilidade.

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Ahidous. foto Abdallah Bouhamidi

“Durante os dias do Moussem, as mulheres casadoiras apresentam-se com as suas melhores roupas, o rosto decorado, e cobertas com uma capa de lã tradicional com riscas brancas e negras, ou negras com riscas finas de cores, chamada “ahendir”. As viúvas e divorciadas, denominadas “timdoual”, anunciam a sua condição com um toucado terminado em forma cónica, enquanto as raparigas virgens, as “tirbatine”, usam um toucado plano. Os aspirantes a noivos, por seu lado, vestem elegantes trajes imaculados, brancos ou de cores claras, e cobrem a cabeça com um turbante igualmente branco.” (CARBALLEDA, 2009, página electrónica citada)

“As mulheres solteiras passeiam-se em grupos, namoriscando de forma provocante os rapazes, sob o olhar vigilante e atento das famílias, um costume designado localmente por “taqerfiyt”. (WIKIPEDIA, 2011, página electrónica citada)

Apesar de supostamente a escolha dos noivos ser livre, a família da rapariga virgem tem sempre uma palavra final, podendo interromper o aperto de mão que assinala a sua concordância em relação ao pedido de casamento. Esta concordância familiar está a cargo das mulheres, que asseguram que o interesse do grupo predomina, enquanto elemento de união entre os vários clãs.

“Quando uma mulher aceita a proposta de casamento de um homem, ela diz “prendeste o meu fígado” ou “o meu fígado sofre por ti”. Na cultura berbere é no fígado e não no coração que se localiza o verdadeiro amor…” (WIKIPEDIA, 2011, página electrónica citada)

Aceite o noivado, o ritual do casamento passa ainda por mais três fases. A visita ao morabito de Sidi Ahmed Oumghenni, o registo oficial do acto nas “Adouls” ou notários,  instaladas nas tendas montadas para o efeito, e, no 3º dia do moussem, a visita tradicional aos lagos Isli e Tislit.

Tislit Wazzoun

O Lago Tislit. foto Wazzoun

Os divórcios têm também uma grande importância para os Ait Hadiddou, sendo em número bastante elevado. Berlanga Adell, citando Denat, escreve esta frase:

“O estatuto de divorciada era muito mais honroso para uma rapariga de 16 a 18 anos que o estatuto de virgem para uma jovem de 18 ou 20 anos.” (BERLANGA ADELL, 2004, pág.35)

A explicação de Denat baseava-se na constatação de que as mulheres Ait Hadiddou eram extremamente livres, podendo as divorciadas regressar a casa dos pais, escapando ao controlo dos maridos, onde eram tratadas de forma muito diferente das solteiras, já que se podiam maquilhar, participar em festas e voltar a casar com um estatuto diferente das virgens. O divórcio generalizava assim os casamentos de mulheres com idades mais avançadas, ficando os filhos em geral à guarda dos pais.

Na sociedade Árabe tradicional existe um dote pago pelo noivo à noiva, que é devolvido em caso de divórcio. Este facto torna a divorciada totalmente dependente dos pais, para cuja casa regressa, e posteriormente do segundo marido, que a voltará a sustentar. A não existência do dote nos casamentos Ait Hadiddou, aliada ao facto de serem as mulheres as trabalhadoras dos campos, e como tal, as detentoras da riqueza produzida na família, permite que as divorciadas tenham este estatuto de mulheres independentes.

Abdallah Bouhamidi

Mulheres Ait Hadiddou. foto Abdallah Bouhamidi

O registo dos casamentos foi iniciado durante o período colonial francês, por iniciativa do “Bureau des Affaires Indigènes”, que procurava também registar os nascimentos e óbitos. (BERLANGA ADELL, 2004, pág.36-37)

Essa prática foi seguida após a independência e manteve-se até 1979, apesar das críticas feitas pelos sectores mais conservadores da sociedade, que consideravam que o registo era uma aceitação da prática dos casamentos à margem dos códigos islâmicos, já que as regras dos Ait Hadiddou não permitem a poligamia masculina, não preveem o pagamento de dote pelo noivo e permitem o divórcio por iniciativa da mulher. Ou seja, o registo legitimava a prática Amazigh, em contradição com os códigos Islâmicos tradicionais.

Desde essa data que os casamentos colectivos foram desaparecendo pouco a pouco, sendo substituídos por uniões celebradas individualmente, organizadas pelo Estado, em grande parte por razões de caracter económico e social, das quais a emigração para as cidades e para o estrangeiro é a maior. O Moussem de Imilchil perdeu também a sua originalidade e deixou de se realizar no final das colheitas, em data variável, passando a ter data fixa, no último fim de semana de Agosto, “de acordo com os interesses turísticos”. (BERLANGA ADELL, 2004, pág.32)

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Casamento no Moussem de Imilchil. autor desconhecido

Desde o ano de 2003 que o moussem se organiza como festival musical, tendo sido alterado o seu nome para “Festival de Música dos Cumes”, atraindo visitantes nacionais e estrangeiros, que atingiram nessa edição mais de 30.000 pessoas. O contributo para a melhoria das condições de vida da população é inegável, beneficiando do dinheiro gasto pelos turistas em alojamento, refeições e compras, que aumenta os seus rendimentos em média umas quatro vezes, segundo o Centro Tarik Ibn Ziad, entidade organizadora. Os responsáveis pelo festival pretendem desenvolver um turismo de montanha que não só dê resposta às necessidades de alojamento durante o moussem, como principalmente contribua para o desenvolvimento desta região extremamente pobre e isolada. Mas será que a abertura do moussem permitirá beneficiar as populações sem adulterar o carácter genuíno e a sua identidade, preservada ao longo de séculos pelo isolamento?

Berlanga Adell referia que já em 2003 existiam sinais de alguma perda de autenticidade do festival, devido a “um processo que poderíamos chamar de ‘usurpação’ da festa aos Ait Hadiddou, seus legítimos donos e protagonistas, por motivo de uma exploração turística do evento, com o risco de provocar uma reacção de desapego por parte dos seus protagonistas tradicionais e, em consequência, esvaziá-lo de conteúdo.” (BERLANGA ADELL, 2004, pág.40)

Nos últimos anos existe inclusivamente uma tendência por parte dos “organizadores” do Moussem em massificar o evento e aculturar os Ait Hadiddou, “arabizando” as sua características, e tornando-o numa manifestação de índole nacional, em detrimento da sua autenticidade milenar. Nesta perspectiva, os mais críticos consideram que que o próprio turismo nacional marroquino é mais prejudicial a Imilchil que o turismo estrangeiro.

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Ahidou no Moussem de Imilchil. autor desconhecido

“Imilchil converteu-se num grande cenário (…) para satisfazer o gosto dos turistas. Alguns proprietários de albergues, cafés ou estabelecimentos comerciais passeiam-se pelas ruas disfarçados de ‘tuareg’ para atrair os turistas, usando roupagens e turbantes dos míticos ‘homens azuis’ (…) Apareceram enormes tendas de campanha dos nómadas berberes (…) junto a modernos igloos de plástico”. (BERLANGA ADELL, 2004, pág.38)

Imilchil é um exemplo extremo do paradigma com o qual se confrontam as sociedades actuais, no sentido de promoverem o desenvolvimento e o bem estar das populações, aliado à preservação do seu Património e Cultura. O turismo massificado é uma ameaça real a esse equilíbrio, sem o qual a identidade local, enquanto factor diferenciador e mais valia da própria oferta turística, estará irremediavelmente condenada. Se é verdade que não é possível perpetuar os modos de vida milenares, numa luta inglória e injusta contra o progresso, também é verdade que só a preservação das tradições e de todas as actividades a elas ligadas, poderá desenvolver um turismo sustentável e de qualidade.

Dependerá sobretudo das autoridades oficiais evitar que o Moussem de Imilchil se transforme a curto prazo num simples festival de folclore igual a tantos outros.

Bibliografia:

BERLANGA ADELL, María Jesus. “Turismo y poder. Las transformaciones de una fiesta popular en Marruecos”. Departamento de Sociologia y Antropologia Social . Universidad de Valencia, 2004

BERTRAND, André . “Tribus Berbères du Haut Atlas”. Edita S.A, 1977

CARBALLEDA, Pablo Muñoz. “Moussem de Imilchil”. Blog Viajar por Marruecos. Página electrónica. 2009

LAMRANI, Farida. “Festival d’Imilchil ou le Moussem des Fiançailles”. In “Yabiladi.com

LE BLOG DE FLOPSO. “Eloignement 3: Légende de Isli et Tislit, les 2 amoureux berbères (Maroc)”. Página electrónica. 15 de Janeiro de 2009

WIKIPEDIA. “Imilchil”. http://pt.wikipedia.org/wiki/Imilchil. Actualização em 2011

WIKIPEDIA. “Langues Berberes”. https://fr.wikipedia.org/wiki/Langues_berb%C3%A8res. Actualização em 2016

Comments

  1. Amadeu says:

    Muito, muito bonito.
    Adorei com todo o meu fígado.
    Obrigado Frederico.

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