Resposta a “Esquerda – destinada a perder?”

Por LuisF

Comentário ao post Esquerda – destinada a perder?.

O século XX assistiu ao apogeu e declínio da esquerda. Esta, conquistou poder e falhou na sua execução, perdendo aí parte do referencial de humanismo progressista que lhe estava (e está) na base. Com a queda do modelo económico e de organização social caiu também a pujança ideológica mais radical, vermelha e comunista. As variantes social democratas não passam de subterfúgios menos ambiciosos duma sociedade baseada no “homem bom” capaz de se organizar em prol da comunidade. Esse “homem bom” revelou-se como é: individualista, interessado no melhor para si, e para os seus. A esquerda não o previu, não o incluiu nem criou formas de o “auditar”…

Apesar desta “dura” realidade para as almas generosas (e talvez a mais bela matriz da esquerda esteja precisamente no sentido humanista de protecção dos fracos e tolerância à diferença), a verdade é que o mundo precisa da “esquerda” como nunca.

Não obstante, a esquerda está ainda na ressaca dos seus próprios “falhanços” históricos e continua a ignorar as alterações profundas que o mundo experimentou nos últimos trinta anos.
Em Portugal, a esquerda “parlamentarizou-se”, sentou-se do conforto dos telejornais, na maciez amorfa do sistema e desistiu das lutas verdadeiras, optando em muitos casos pelas causas perdidas ou até levianas.


 

Num País tão socialmente assimétrico, onde o discurso político dominante se dá ao luxo de afirmar que “que vivemos acima das nossas possibilidades” (quem? os reformados? os “mal pagos” do salário mínimo, a multidão de precários), as “esquerdas” ocupam-se nas lutas (não interessa aqui se são justas ou não…), dos sindicatos “corporatizados” da função pública e das empresas para-estatais de transportes, etc. ignorando onde está realmente a dor e a miséria mais gritante.
A esquerda perdeu a força reivindicativa e progressista. Trocou estes atributos de alma pela ortodoxia frouxa e cristalizou-se em torno do poder em vez de sair para o seu terreno natural: a luta pujante e viril contra a opressão, a injustiça, as desigualdades (e acrescentaria mesmo; contra a “burrice”!).

Um dos aspectos mais visíveis da natureza desta esquerda vive-se nas lutas sindicais. Hoje em dia qual é o valor dos sindicatos? Para que servem e a quem servem? Que respeito lhes dedica a sociedade? – A resposta cínica (talvez apressada) é que não servem para nada; ignoram o que é, ou deveria ser, a empresa moderna (feita de compromissos partilhados entre accionistas e empregados), estão ao serviço de ninguém e aparecem sempre publicamente a defender interesses corporativos indefensáveis perante qualquer lógica de racionalidade e desenvolvimento.

Veiculam uma ideia de “Estado” distribuidor de postos de trabalho e regalias “automáticas” à margem de critérios de avaliação individual, responsabilidade e mérito. A sociedade devota-lhes o respeito nulo que atribui a forças inúteis que estão sempre a “puxar para trás”…
O mal da esquerda é ter-se tornado conservadora em muitos dos seus mitos, não ter criado alternativas (credíveis) de governação (no mundo actual, o que existe de facto…). Perdeu o sentido da realidade e ignora tudo aquilo que outrora a motivou. Ainda que, por incrível paradoxo da História, a “injustiça” exista e o domínio capitalista esteja hoje mais agressivo do que antes.

O desenvolvimento humano precisa da esquerda, mas é preciso que esta se levante para a realidade. Começam a definir-se no horizonte, desafios novos, pensamentos, e acção para uma nova esquerda. Veja-se a agenda reivindicativa e “estilo” de movimentos como o “Occupy”, denunciando o “novo capitalismo” das corporações, a tomada do mainstream da comunicação-intoxicação por parte desses mesmos poderes, a corrupção entre poder político e económico, etc.

Em Portugal – atrasados como sempre – continuamos alheios a muitas dessas lutas, não entendemos a sociedade moderna, e não olhamos sequer com a atenção devida para as nossos próprios campos de luta. Num país com desemprego acima de 15% o que é que a esquerda tem feito? Quem é a voz dos que não tem voz? – Estaremos todos a dormir? Ou será que tudo o que afirmei é apenas um pequeno exercício de má interpretação da realidade?…

Comments

  1. maria celeste ramos says:

    Pois concordo plenamente – mas se eu cabei de responder ao artigo sobre “as toirdas que querem renovar até em local que não é tradicional ter” como Vila do Conde, se eu que não sou a mais burra e ignorante do mundo levei anos a perceber “o ar que respirava e como me poluía” creio que cada sociedade leva mais tempo do que o indivíduo e sendo porém verdade que há homens velinhas que nem são muitos no mundo, mas há-os, Ghandi e Mandela são assim, mas Mitt Romney é um filho da mãe e além disse um rico ladrão, ou seja, as sociedades são tão lentas como lento foi Portugal a virar o que é hoje, reduto do humanismo que se há é ainda e só aqui na Europa, mas há sempre, em cada país, como nas toiradas, aqules mandantes que querem andar para trás mas lá se irá pois até o planeta (a casa comum faz grandes alertas) pois que a onsciência global não está na alemanha nem em em Espanha mas sim em muitos homens do mundo como foi por exemplo Miguel Portas – O Tempo que o tempo precisa para que que se avance socio-culturalmente – mas com estes senhores que andam a mandar e a ludibriar-nos e mesmo roubar e humilhar e ofender, passarão – o mundo já comunica sem fronteiras e não há linguajar que não se entenda – o mundo pula e avança, podendo não ser porém no meu tempo de vida, mas eu já cresci e fiz a a minha parte que julguei competir-me, de intervenção no bem do colectivo – queremos ir mais depressa ?? pois teremos de fazer concretamento o necessário – a esquerda desaparecer – acho que nunca – jamais – a esquerda portgusa perdeu a CHAMA – alguém a acenderá de novo e curiosamente já há tanta consciência individual do valor do colectivo em cada aldeia e cidade e muitos (pensemos até nas sondagens do eurostat do lugar dos partidos) que que é como dois bois do norte a medir força com os cornos que enfiam um no outro (ou como os veados que fazem o mesmo) e assim é a nossa política e se calhar a do ocidente – Afinal Mandela que salvou a África do Sul da maior escravidão moderna desses que se dizem e acham arautos da democracia e até da liberdade (tantas vezes tão libertina e para mim as meninas Riot de Moscovo são bem intencionadas mas ainda nºao sabem os limites do valor de cada coisa e lugar) país que se chama UK, andam a massacrar mineiros só porque querem ser pagos mais justamente pelo seu trabalho escravo – Quem imita Mandela e Ghandi – e se virem os dois documentários que vi ontem o 2º dos Serviços Secretos ingleses, até para os não ainda “libertos livres e libertados) fara perder a esperança de que o mundo seja um lugar saudável e limpo – isto leva muito tempo e o processo de evolução que começou por movimentos colectivos, se calhar agora tem de ser pela transformação individual dos homens mais conscientes (como foi Mandela) e dar luz a quem a puder ver e continuar o seu processo e UM dia cada um, mais consciente, terá uma familia e um amigo a quem deu o seu consciente – aliás, como faz o AVENTAR que para mim é um blog de grande valor colectivo e de abrir cabeças (adoro o aventar e quem escreve) embora a maioria dos comentadores andem ainda em grande escuridão e tenham nascido num Bronx qualquer mental e espiritual – o importante é que Mandela existe e fica na memória colectiva como ficou Afonso Henriques ou – o Aventar existe – a esquerda existe – ainda é pouco mas depois deste romper de fronteiras físicas no mundo ocidental – não se volta nunca atrás e tal que o médio Oriente anda a querer sem se descaracterizarem, LIBERTAR o homem do jugo do homem – com guerra ?? com o que tiver que ser porque o homem não inventa os FEMÓMENOS – faz parte deles e assim será – O importante é saber historia colectiva do mundo e do país em que se vive, e história individual se cada um quizer fazer introspecção honesta – Aliás como faz o AVENTAR e como faz o BES por aqui os sarkozys e Merkeis estão passados por mais que “reinem” – O l’État c’est moi já lá vai há mais de 200 anos e afinal Passos ainda está nessa – Estamos no Fim do Império Romano do Ocidente e noutra ERA “mandélica” e havendo os que chamam nomes feiosos aos que andam à procura de “encontro consigo e a história do seu pais” que vão bardamerta e tomem um duche de água fria na alma que anda perdida no corpo mal enjorcado – sem saber pelo menos um bocadinho de história do país e do mundo, nem se perceberá tão bem, cada indivídio, mesmo com história maquilhada

  2. art.almeida says:

    De que Esquerda estão a Falar?

    • A sua questão induz a própria resposta: existirão várias esquerdas?! Havendo “várias”, terá de existir também algo que as une no seu posicionamento. O texto dirige-se exactamente a esse elo comum, ideológico, de actuação cívica e forma de “ser”.

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