A felicidade também faz um jornal

Hoje, Miguel Esteves Cardoso (Público) sacia-nos com estas palavras, poesia perdida (?), poesia que não é um engano nos dias que correm, poesia que é a nossa maior necessidade. As suas palavras – intencionalmente encaixadas entre notícias de austeridade, troika, dívidas, TSU, pobreza, desaparecimento da classe média, etc.- que, com amor se casam uma às outras, como MEC e Maria João, falam do que verdadeiramente interessa na vida, ofuscado pela miséria que nos aparece mais visível:

O futuro contém a nossa morte e, depois dela, o infinito de nadas, chato como o ferro do cosmos, que antecedeu os nossos nascimentos.

A felicidade, se calhar, é desejar que as coisas não piorem muito, de dia para dia, para não se notarem tanto.

O presenteaquilo que ainda se tem, a começar por estar vivo e lembrarmo-nos de termos estado pior — é a felicidade maior, somada às memórias de felicidades que continuam vivas e que nos fazem sorrir, pertencer e desejar bem aos outros que ainda não as tiveram. Se não nos lembrarmos de termos estado pior ou não tivermos a esperança de ficarmos melhor, já não conta como felicidade; já não conta como presente. Não é só dizer “eu ainda consigo”: é preciso também haver a consciência de ter prazer, não em conseguir, mas nas coisas que se fazem.

Todos sabemos o que nos espera. Interessa apenas decidir não tanto o que fazer enquanto esperamos como descobrir as formas que ainda nos restam de nos distrairmos. A distracção é a forma mais exaltante da vida. Quem se pode distrair — amando, lendo, pintando, trabalhando, coleccionando, politicando — não pode ser inteiramente triste, não por não estar apenas simplesmente não-morto e vivo, mas por ter encontrado a maneira de fazer pouco do presente, em atenção ao passado ou ao futuro lembrado ou desejado, como momento e movimento em direcção a eles.

Restam as consolações.

Quando é ser momento ou movimento a única coisa, para se ser feliz, que se quer.

A Escola Pública vai fechar?

Uma reflexão para ler sobre a Escola Pública, por José Carlos Cidade:

“Ironicamente é num momento de recessão, de grandes dificuldades para as famílias que o governo diminui a capacidade de resposta da Escola Pública, tornando ainda mais complicada a saída da crise. A Escola Pública é uma conquista da República e, em especial, da Democracia que não pode ser maltratada e reduzida a nada por um qualquer preconceito ideológico ou por um qualquer pretexto económico. Fechar a Escola Pública seria fechar o futuro do país.”

Resposta a “Esquerda – destinada a perder?”

Por LuisF

Comentário ao post Esquerda – destinada a perder?.

O século XX assistiu ao apogeu e declínio da esquerda. Esta, conquistou poder e falhou na sua execução, perdendo aí parte do referencial de humanismo progressista que lhe estava (e está) na base. Com a queda do modelo económico e de organização social caiu também a pujança ideológica mais radical, vermelha e comunista. As variantes social democratas não passam de subterfúgios menos ambiciosos duma sociedade baseada no “homem bom” capaz de se organizar em prol da comunidade. Esse “homem bom” revelou-se como é: individualista, interessado no melhor para si, e para os seus. A esquerda não o previu, não o incluiu nem criou formas de o “auditar”…

Apesar desta “dura” realidade para as almas generosas (e talvez a mais bela matriz da esquerda esteja precisamente no sentido humanista de protecção dos fracos e tolerância à diferença), a verdade é que o mundo precisa da “esquerda” como nunca.

Não obstante, a esquerda está ainda na ressaca dos seus próprios “falhanços” históricos e continua a ignorar as alterações profundas que o mundo experimentou nos últimos trinta anos.
Em Portugal, a esquerda “parlamentarizou-se”, sentou-se do conforto dos telejornais, na maciez amorfa do sistema e desistiu das lutas verdadeiras, optando em muitos casos pelas causas perdidas ou até levianas.

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Esquerda – destinada a perder?

No Público de hoje, Maria de Fátima Bonifácio assina um texto, a Impotência da Esquerda Radical, que longe de ser integralmente subscrito por mim, levanta uma questão essencial: se nós, eleitores de esquerda, defendemos uma sociedade que é mais justa, mais solidária, mais equilibrada, etc, etc, etc, como é que estamos sempre a perder? Porque é que os eleitores não votam à esquerda?

Serão, como diz MFB, as propostas de igualdade algo que o eleitor não quer? Será que cada um dos potenciais decisores, no momento do voto, prefere o seu IPAD ao sistema nacional de saúde para todos? Será que o LCD é, na urna, mais valioso que o sistema educativo para todos?

Será que podemos também ganhar?

Ou será que vamos perder sempre?

Para que servem os professores? Para o presente do país!

Andei uns dias com a pergunta na cabeça: “Para que servem os professores?

Fui pensando que, de facto, os Professores, enquanto classe são algo muito diverso que, na sua maioria, levam a sua prática profissional centrada em dois eixos:

– o trabalho com os alunos, na maioria dos casos, excelente, de grande empenho e de muita entrega;

– uma visão individualista da profissão, quer enquanto agente diário de mudança social, quer enquanto autor permanente de mudanças para o futuro.

A maior estrutura coletiva de professores, a FENPROF, tem, desde sempre, exigido ser um parceiro ativo nas questões educativas, mesmo que fora da  esfera profissional, mas os professores nunca se sentiram verdadeiramente envolvidos nessa dimensão. Penso, pois, que aqui está parte da resposta à questão colocada: os professores estão disponíveis (estiveram!) para sair à rua contra a sua avaliação, mas não se conseguem mobilizar para lutar por uma coisa tão “simples” como a ESCOLA PÚBLICA! [Read more…]

Sempre a crise

Que me lembre, neste país sempre se viveu com crise.
Fosse crise económica, crise financeira, crise na Justiça, crise na Saúde, crise na Educação, crise na Agricultura, crise nas Pescas, crise de valores, etc.
Não deve ter havido Governo em que não se falasse de algum tipo de crise.
A mais badalada, no entanto, foi sempre a clássica crise política, sempre de olhos postos na preciosa estabilidade política com que tudo se faz e que sem a qual nada se consegue.
Hoje vivemos mais uma dessas crises políticas, bradando-se pela mudança de Governo.
Acontece que mudar por mudar é o que se tem feito há anos e o resultado está à vista: o nosso país chegou ao ponto que chegou por causa de erros que se acumulam e se repetem, de Governo para Governo.
O problema deste país não é tão só este Governo de agora ou José Sócrates. O problema é a sucessiva repetição de erros por Governos diversos, seja por acção seja por omissão. [Read more…]

Presente e futuro da Advocacia: uma questão de República (2)

 Tal como anunciei aqui, inicio uma série de textos dedicados ao tema “Presente e futuro da Advocacia”, abarcando as matérias da Justiça que lhe estão conexas.

Mas antes de mais, cumpre desde já esclarecer – e daí a razão deste texto -, quais os motivos e as finalidades.

Esta iniciativa não se enquadra em nenhuma preocupação corporativa e muito menos sindical. Esse tipo de preocupação e de lógica corporativas e sindicais, em sede de Justiça, já fizeram estragos que cheguem para também a Advocacia seguir tal caminho.

Decidi iniciar esta série porque a matéria não se esgota na esfera dos interesses de uma classe profissional. E porque do presente e do futuro da Advocacia, bem como das questões da Justiça com que se interligam, depende grande parte do rumo e da defesa da cidadania, do regular funcionamento das instituições da República, da paz social e da garantia pelo respeito da dignidade humana.

O Advogado representa os interesses dos cidadãos através do patrocino forense, sem o qual não adianta ter Juízes e Procuradores, pois que só há verdadeira administração da Justiça quando em tribunal, estão presentes quem representa a Sociedade (Procurador), quem diz e aplica o Direito (Juíz) e quem defende o cidadão (Advogado). Pelo menos num Estado de Direito Democrático, consagrado no artº 2º da nossa Constituição.

É de recordar que mesmo durante o Estado Novo, na barbárie que foram tantos julgamentos nos tribunais plenários, em que réus (naquele tempo não havia arguidos) chegaram a ser espancados por esbirros da PIDE em plena audiência perante os olhos complacentes e cúmplices de Juízes que jamais responderam por tais actos, foram os Advogados quem sempre estiveram ao lado do cidadão contra a brutalidade e o despotismo.

Como também estiveram, lutando tenazmente em 1926 e nos anos seguintes, aquando da politização do processo movido contra Alves Reis (o famoso falsário português), em que se chegou ao cúmulo de se aprovar leis criminais com efeito retroactivo que prejudicavam a defesa dos então réus, e de arrastar para a lama gente impoluta e honrada como Arthur Cupertino de Miranda, entre outros. Também aqui os Advogados lutaram sem temores contra um Estado e uma Justiça manipulada por interesses de grandes instituições bancárias (cuja temática irei, também, abordar, ainda que de modo muito sucinto e em sede própria).

Tal como outrora, aos Advogados cumpre garantirem a defesa dos direitos, liberdades e garantias do cidadão, o respeito pela dignidade humana, seja face ao Estado seja nas relações sociais, firmando a diferença entre a barbárie e a civilização, entre a vingança e a Justiça.

O Advogado é  e deverá ser sempre, um garante civilizacional, e como tal deverá ser encarado. E, também, como tal deverá comportar-se.

O presente e o futuro da Advocacia diz, pois, respeito a todos os cidadãos, porque o Advogado é o seu procurador. Pelo que interessa ao cidadão saber, estar esclarecido, qual o estado e o rumo de quem está e deverá continuar a estar a seu lado.

No próximo texto falarei do problema da massificação crescente da profissão, das suas razões, dos seus perigos para a classe e para a sociedade, com especiais cuidados na administração da Justiça, e de possíveis rumos e soluções.

Sei que a matéria é polémica. As caixas de comentários estão disponíveis.

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O nosso futuro?

O nosso futuro?