Saudades do futuro

Francisco José Viegas, talvez deslumbrado com o facto de ser entrevistado pelo Le Monde, aproveitou a oportunidade para tentar ser profundo e acabou por ser involuntariamente lúcido.

Servindo-se de psicologia barata e usando frases de literatura comercial, explica que Portugal não consegue ser feliz com a Europa porque “uma parte essencial das nossas raízes continua em África e no Brasil…”. No fundo, Viegas tenta justificar, aqui, o seu velho entusiasmo pela lusofonia, essa espécie de conceito que serve, sobretudo, para que políticos e universitários garantam uns tachos e o direito a molhar o pé nas águas tropicais, quando devia servir para que livros e ideias circulassem.

Esperar-se-ia que, sendo nós infelizes porque incompletos sem essa “parte essencial”, quiséssemos, por isso, regressar às raízes africanas e brasileiras. Na verdade, é o próprio Viegas que reconhece que “muitos regressaram para lá” por causa da crise. Por outras palavras, não é o desejo de nos reencontrarmos que nos leva a viajar para lusofonia, é a miséria, o verdadeiro significado da palavra “crise”. A nossa relação infeliz com a Europa tem, portanto, causas muito mais prosaicas do que aquilo que dá a entender o pretensiosismo de um secretário do estado que tem a obsessão de parecer interessante, tornando-se, apenas, ridículo.

Para prosseguir a sua exibição de uma aparente profundidade, consegue, num momento de lucidez involuntária, reconhecer que perdemos “a nossa agricultura, a nossa pesca e a nossa indústria já pouco conta.” O resumo da entrevista não nos permite saber se fez, a propósito, alguma referência a Cavaco Silva, o coveiro, exactamente, da agricultura e das pescas.

Restam-nos, diz Viegas, a “cultura e o mar como oferta turística”. O tom conformista desta espécie de governante não destoa de alguém que aceita o acordo ortográfico e a barragem do Tua porque sim. Por outro lado, não condiz com um governo cuja única preocupação é contabilística e que só serve para acabar de vez com a cultura e com a educação.

Termina, reconhecendo, ainda, que perdemos a capacidade de sonhar e que temos medo do futuro. Francisco José Viegas não se devia preocupar com isso: faz parte de um governo que, no seguimento dos anteriores, nos roubou o futuro. Medo de quê?

Comments

  1. jorge fliscorno says:

    Medo da sombra que eles mesmo projectam, quem sabe.

    «O resumo da entrevista não nos permite saber se fez, a propósito, alguma referência a Cavaco Silva, o coveiro, exactamente, da agricultura e das pescas.»

    Duvido que tenha feito. Mas Cavaco, O Coveiro, não esteve só. Que se saiba ninguém recusou os subsídios que lhes entraram na conta. E se houve subsídios. Entre 80 e 90 não me custa acreditar que não exista um português que, de uma forma ou de outra, não tenha recebido uns subsídios.


  2. Houve portugueses que nunca receberam um tostão dos ditos subsídios e há também muito português sem esperança no futuro, saben perfeitamente que a classe política dominante (que passou pelos governos) se encheu, acautelou o seu futuro, satisfez clientelas (secretário de Estado incluido), sem pensar no futuro do país e dos portugueses.
    Abraço do Zé que nunca neles votou e que está em minoria.

  3. palavrossavrvs says:

    Estava à espera de outro Viegas, engajado com a verdade, e não no reduto pedantóide da petulância, da conversa barata, do registo banal. Era esperar de mais, eu sei. O Poder muda uns e confirma outros na insensibilidade de sempre.


    • Engajado?Este tipo? Anda há nos a tratar da vidinha. Encostou-se a Cavaco lambeu tudo o que podia, ai não que não….em todos os sentidos do verbo entendeu?Onde se meteu,levou á falência, e sempre andou a dar uma de “liberal”, á moda antiga ,como o cavalheiro gosta de afirmar….
      Quem não o conheceu que o compre.
      Como diz, e muito bem, o autor do poste; “espécie de governante”…

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