Eu casualmente conheci Pacheco…

Eu casualmente conheci Pacheco. Tenho presente, como num resumo, a sua figura e a sua vida. Pacheco não deu ao País nem uma obra, nem uma fundação, nem um livro, nem uma ideia. Pacheco era entre nós superior e ilustre ùnicamente porque «tinha um imenso talento». Todavia, meu caro sr. Mollinet, este talento, que duas gerações tão soberbamente aclamaram, nunca deu, da sua força, uma manifestação positiva, expressa, visível! O talento imenso de Pacheco ficou sempre calado, recolhido, nas profundidades de Pacheco! Constantemente ele atravessou a vida por sobre eminências sociais: deputado, director-geral, ministro, governador de bancos, conselheiro de Estado, par, presidente do Conselho –– Pacheco tudo foi, tudo teve, neste País que, de longe e a seus pés, o contemplava, assombrado do seu imenso talento. Mas nunca, nestas situações, por proveito seu ou urgência do Estado, Pacheco teve necessidade de deixar sair, para se afirmar e operar fora, aquele imenso talento que o sufocava.

Eça, A Correspondência de Fradique Mendes (Carta VIII), Lisboa, Ed. “Livros do Brasil”, 1999 (de acordo com a 1.ª Edição, 1900), pp.161-2.

Comments

  1. E dar uma memória é mais importante que abater celulose says:

    Para dar um livro que nenhum fradique nem nosso cônsul em havana lerá
    tudo o que deixei escoar-se em torrente
    de palavras no papel
    não virou semente demente
    virou simplesmente
    cinza e um cordel
    Aparício em sá d’Albergaria

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