E o parvo sou eu?

Eu explico de-va-ga-ri-nho: comparar salários entre função pública e privado terá sempre de se basear em números oficiais. E os números oficiais dos salários no privado não correspondem à realidade: ele é cartões, telefones, carros, prémios não declarados, toda a gente sabe que uma empresa privada pode pagar na prática bem mais o que o salário declarado. Em muitos casos só ganha com isso, e o assalariado agradece quando paga menos IRS.

Bastou que o esbulho chegasse ao privado para vir ao de cima esta realidade: Nuno Branco enumera uma série de hipóteses de as empresas ultrapassarem a situação, pagando por fora:

A primeira medida seria pedir uma redução do vencimento base bruto à entidade empregadora, como contra-partida negociar vencimentos variaveis atribuídos em ajudas de deslocação ou despesas de representação (we’re all salesmen now!). Apesar de estes rendimentos estarem sujeitos a pagamento de IRS estão isentos de SS e portanto passam ao lado das medidas ontem anunciadas. Poderá ser possível em alguns casos até levar mais para casa líquidos do que anteriormente.

Se anda frequentemente de carro em alternativa ao mencionado acima poderá tentar negociar um cartão GALP Frota ou similar. Mais uma vez pagamentos neste cartão estarão isentos de SS.

Outro subterfugio que muitos portugueses já conhecem é o cartão À la card. Este permite que a entidade empregadora aumente a quantia relacionada com os subsídios de almoço com um menor agravamento fiscal. Tem o inconveniente que o cartão só pode ser usado em restaurantes e supermercados.

Ele chama-lhe desobediência civil. Eu digo que essa desobediência existe, sempre existiu, e provavelmente aumentará para o ano. Claro que tem outro nome, que desobediência civil é coisa nobre, chama-se enganar o estado fugindo aos impostos. É legal, mas é criminoso, por estas e por outras depois dizem que não há dinheiro. É o pão nosso de cada dia.

Mas o parvo sou eu. E pensando bem no assunto até sou, por ser funcionário público, é claro.

Comments


  1. é tão facil!? bem não vejo o meu patrão a fazer isso! nem a mim nem aos meus colegas, e ganham comissões etc… está tudo declaro, sei é q no final do mês vou ganhar bem menos, e se for a um dentista, oftmolgista… etc.. eu vou pagar mas o SECTOR COM AS REGALIAS QUE TEM NÃO PAGA QUASE NADA!

  2. Amadeu says:

    Pois é, fugir aos impostos é popularucho. Chamem-lhe otimização fiscal ou planeamento tributário. É muito mais fino.

  3. Amadeu says:

    Pérolas do site dos revisores oficiais de contas:

    ” No limite poderão coexistir na
    mesma empresa dois profissionais a trabalhar na
    área fiscal com focos diferenciados e nem sempre
    coincidentes: um, curando da conformidade e outro
    da optimização (…) ”

    ” A utilização de formas de evitar os impostos
    permitidas pela lei ou, no limite, não proibidas
    pelo legislador, (…) sugere a necessidade de uma
    mais clara delimitação das fronteiras por parte
    do legislador entre as opções permitidas e as
    censuradas como condição indispensável da
    segurança das relações jurídicas.”

  4. Talvez says:

    Tem piada: sempre trabalhei no privado, nunca recebi nada, nem nenhum benefício, que não fosse declarado. Devo ser a excepção, com certeza…

  5. José Silva says:

    Oh parvo ! Demite-te e vem trabalhar para o privado que vais ver como elas mordem !

  6. Abel Barreto says:

    Não generalizemos: o que diz no post aplica-se a parte da hierarquia das empresas, àqueles que mais deveriam descontar e que, em muitos casos menos contribuem para o estado. A grande maioria dos trabalhadores não tem direito a essas benesses e acaba por ser sugado pelo estado e sem hipótese de fuga (a qual não defendo, mas quando há tanta injustiça na actuação da máquina fiscal…)

  7. jorge fliscorno says:

    Há empresas onde isso de facto acontece (até em algumas empresas públicas, veja-se só) mas não me parece correcto generalizar pois grande maioria dos trabalhadores não tem acesso a essas coisas. Estas situações do pacote salarial ir além do salário propriamente dito restringem-se a quadros de maiores qualificações – é a minha percepção, pelo menos.

    Mas há outras coisas que levam a que realmente não se possam comparar salários no público e no privado:

    – semana de 35 horas no público versus 40 horas no privado
    – ADSE muito melhor do que o sistema geral (sim, é paga mas mesmo pagando quem não é funcionário público nunca lá chegará)
    – ainda não vi nenhum serviço público falir e despedir todos os trabalhadores (sim, há quem não veja os contratos renovados)

    Quanto a essa ideia do Branco, é de ver que tem o seu preço: menos subsídio de desemprego e menos reforma (se esta algum dia chegar)


    • Eu não disse que vale para todos. Mas curiosamente a vantagem para as empresas reside sobretudo nos pagamentos à Seg. Social, que assim diminuem. Para o ano haverá muito mais.

  8. Eurocéptico says:

    Então no público não há mordomias? Então não há gente com cartões à balda que até alguns parece que estarão a ser investigados? Então não há carros e até carros de luxo para muita gente dessa, especialmente dirigente e da cor? Até já houve um MNE – Freitas do Amaral – que louvou no DR o motorista que ia com a mulher às compras e levar os filhos onde era preciso? E depois os outros que estão abaixo não fazem coisas parecidas? Então nas grandes empresas públicas não há ou havias cambalachos com uns godinhos e toda a gente recebia prendas do bom e do melhor? Então e já não há disso?
    Então no privado há alguém que almoce com almoçam e jantam os senhores deputados na AR por meia dúzia de tostões? Então isto tudo não é público? Claro que estas mordomias escandalosas e vergonhosas são só para alguns já que a maior parte da malta a única coisa que goza, muitas vezes, nem sempre claro, é com uma boa vida onde nada fazem! É a única compensação comparada com as dos seus dirigentes…E os pequenos se tinham a garantia de emprego, agora nem isso.


  9. Queixa-te de barriga cheia. Quando fores ao privado vais arrepender-te.

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.