Urgência$

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O governo anunciou, de surpresa, que vai começar a drenar doentes das urgências públicas para os hospitais privados. Estou espantado, já que o que costuma acontecer é exactamente o contrário: sempre que um doente precisa de intervenção urgente e diferenciada, se está num hospital privado é, geralmente, despachado para os serviços públicos. Até o conspícuo Osório dos privados ficou espantado com o brinde, declarando que ninguém do governo lhe tinha dito nada. Pois é, perante a pressão mediática o governo, como é costume, atira lérias para o ar. E tanta vontade tem de servir os amos que nem repara que estes não têm meios de aproveitar a prenda.

Gestão da água entregue a privados por 50 anos

Município de Braga está prestes a fechar um negócio que pode render 6 milhões anuais.

Ranking das Escolas

Eles aí estão: Expresso, Público, JN.

Ainda sem muito tempo para analisar, mas palpita-me que os colégios privados vão aparecer no topo das listas e à frente no alinhamento dos telejornais. Agora, com o cheque – ensino na mão o pessoal da Fonte da Moura ou do Viso vai todo a correr para o Luso-francês, ou não!

Apetece-me deixar uma pergunta sobre esta brincadeira, bem séria dos rankings: o que ganhou a Escola Pública e os seus alunos com estas divulgações?

A lógica do Henrique Raposo é tendencialmente insustentável

A descoberta do dia do menino Henrique é esta: o SNS é tendencialmente insustentável. Porquê? porque lhe apetece, é claro, e porque a subida da despesa em saúde tem sido muitíssimo superior à criação de riqueza. 

Arranja uns números, sem fonte, umas projecções (já não há pachorra para a demografia de tarot), e alucina com esta brilhante conclusão:

Pouca gente sabe que o SNS português é a negação do sistema de saúde da Alemanha, Holanda, Áustria, França, etc

Que horror, ora vamos à OCDE, e vejamos como se anda de gastos, custos, coisas insustentáveis, nestes países, e já agora também nos EUA: [Read more…]

E o parvo sou eu?

Eu explico de-va-ga-ri-nho: comparar salários entre função pública e privado terá sempre de se basear em números oficiais. E os números oficiais dos salários no privado não correspondem à realidade: ele é cartões, telefones, carros, prémios não declarados, toda a gente sabe que uma empresa privada pode pagar na prática bem mais o que o salário declarado. Em muitos casos só ganha com isso, e o assalariado agradece quando paga menos IRS.

Bastou que o esbulho chegasse ao privado para vir ao de cima esta realidade: Nuno Branco enumera uma série de hipóteses de as empresas ultrapassarem a situação, pagando por fora:

A primeira medida seria pedir uma redução do vencimento base bruto à entidade empregadora, como contra-partida negociar vencimentos variaveis atribuídos em ajudas de deslocação ou despesas de representação (we’re all salesmen now!). Apesar de estes rendimentos estarem sujeitos a pagamento de IRS estão isentos de SS e portanto passam ao lado das medidas ontem anunciadas. Poderá ser possível em alguns casos até levar mais para casa líquidos do que anteriormente.

Se anda frequentemente de carro em alternativa ao mencionado acima poderá tentar negociar um cartão GALP Frota ou similar. Mais uma vez pagamentos neste cartão estarão isentos de SS.

Outro subterfugio que muitos portugueses já conhecem é o cartão À la card. Este permite que a entidade empregadora aumente a quantia relacionada com os subsídios de almoço com um menor agravamento fiscal. Tem o inconveniente que o cartão só pode ser usado em restaurantes e supermercados.

Ele chama-lhe desobediência civil. Eu digo que essa desobediência existe, sempre existiu, e provavelmente aumentará para o ano. Claro que tem outro nome, que desobediência civil é coisa nobre, chama-se enganar o estado fugindo aos impostos. É legal, mas é criminoso, por estas e por outras depois dizem que não há dinheiro. É o pão nosso de cada dia.

Mas o parvo sou eu. E pensando bem no assunto até sou, por ser funcionário público, é claro.

A arte de bem privatizar a saúde

As leis são para cumprir, mas não por todos.

Programa do PSD para a saúde, privatiza filho, privatiza

Lá tenho de repôr aqui o vídeo onde com grande frontalidade esta senhora do BES explica em 25 segundos porque passa pela cabeça de um orangotango entregar a gestão dos centros de saúde a privados.

Curiosamente o FMI no memorando diz exactamente o contrário, no que toca aos hospitais:

Melhorar os critérios de selecção e adoptar medidas para garantir uma selecção mais transparente dos presidentes e membros dos conselhos executivos dos hospitais. Os membros serão obrigados por lei a ser pessoas de reconhecida competência na gestão da saúde e administração em saúde.

Quando li isto lembrei-me da inimputável Leonor Beleza, que transformou a gestão profissionalizada da saúde numa coutada para filiados. Recordo-me de um senhor que passou de merceeiro a gestor de um pequeno hospital, que assim se apoia o comércio local.

Com este programa o PSD consegue que Sócrates vire Lázaro, levanta-te e anda, e pelas sondagens acima ele caminha. Não há pachorra.