Chá das divorciadas

“There’s always free cheddar in a mousetrap, baby” – Tom Waits

Se acreditam na felicidade conjugal vêm cá um dia e isso passa-vos num instante. Quando quiserem, é melhor não terem pressa, a gente deve acreditar nas coisas enquanto pode. A esta hora chegam as ex-mulheres dos jogadores de futebol, entretanto trocadas por uma modelo de pernas compridas e 15 anos a menos, as empresárias que saem do escritório ao início da tarde para uma reunião e já não regressam, as reformadas, as amantes. Olham de alto a baixo umas para as outras mas por hábito, já sem espírito competitivo. Folheiam revistas para arranjar ideias para o próximo corte de cabelo ou para a próxima cor de verniz – “olha, esta é gira, tenho um vestido desta cor”.

A esta hora, com o sol em declínio a pousar-lhes no tom acobreado do cabelo, as unhas cor-de-rosa e a blusa de renda negra, tanto podem ser contabilistas como donas de um bordel. Mas o que impressiona, de verdade, é a descrença nos homens.

Nenhum se salva, elas sabem, nem aqueles que elas mesmo pariram, nenhum há-de deixar este mundo sem o seu rasto de engano e traição, sem envenenar o coração de uma rapariga ingénua e esperançosa. E o que mais impressiona é que, entre elas, já nem falam neles, nos ex, não trocam confidências nem queixumes, já estão muito para lá disso, as suas preocupações agora são outras. Um pêlo menopausico a despontar no queixo, um novo creme para as rugas, umas férias na República Dominicana, a namorada do filho, um outlet novo, as putas das mamas que já nem se seguram sozinhas. Tudo menos homens, já não há pachorra, já basta ter de viver com eles ou com os sinais da sua ausência.

A novata senta-se à mesa da Alzira, técnica oficial de contas, cabelo ruivo, cara de sessentona, um trejeito de desdém que, de tanto usado, já se lhe colou à cara. Divorciada há 20 anos.

– Pois é, acreditaste, foste a correr casar, vestidinha de noiva, toda iludida. Acenou-te com o amor eterno, com dinheiro eterno, fosse o que fosse seria sempre teu, não é? Mas acaba, querida, um dia acaba, tudo acaba. A tua mãezinha lia-te histórias da Branca de Neve e da Cinderela, não era? Estavas à espera do Príncipe e olha o que te saiu.

Antes que a outra, já a morder o lábio, irrompa num pranto inoportuno, a Alzira tira um folheto da carteira.

– Deixa lá, querida, que tudo se resolve. Olha para isto: novo ginásio, aqui ao lado, mensalidade de 39,99, tudo incluído. Olha-me para estes instrutores de fitness, uma perdição. Só para ver, querida, com estes meninos é como com as bolas de Berlim: não toca!

A outra ainda não está livre do pranto e o coração da Alzira também se comove.

– Pronto, rapariga, um dia não são dias. Vou mandar vir dois éclaires.

Comments

  1. xico says:

    “sem envenenar o coração de uma rapariga ingénua e esperançosa”
    Em que século foi escrita esta prosa?


  2. Cara Carla, quadros vivos pintados a palavras é o que são os seus contos!

    Mais uma vez, parabéns!

  3. leopardo says:

    Fazer de vitimas é a especialidade das mulheres, mas 2/3 dos divórcios são pedidos por elas e destes apenas uma minoria é por causa de infidelidade.


    • Caro Leopardo, aconselhava-o a ter cuidado com as generalizações, porque apesar de a grande maioria das mulheres terem miolos de galinha, há no entanto uma parte que tem cérebro!


  4. Que bem representado o desengano, o desencanto, a resistência ao duro peso da realidade. Gostei muito, Carla.

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