Mais sobre o caso da criança, do almoço a da directora Conceição Bernardes que o suspendeu

A directora do Agrupamento Dr.ª Laura Ayres emitiu um esclarecimento, desmentindo a notícia aqui referida. Compete a um jornalista, perante uma acusação, ouvir o acusado. Aparentemente foi isso que foi feito. Como o Aventar não é um órgão de comunicação social mas aqui divulgamos opinião a partir dela, aqui fica o texto, dirigido aos pais. Aguardamos uma resposta do jornalista. Mas devo dizer que acho inadmissível que para cobrar uma dívida aos pais, ao invés de participar à Comissão Municipal de Protecção de Menores e/ou às autoridades competentes, um estabelecimento de ensino público adopte qualquer procedimento que altere o seu relacionamento com uma criança e as suas rotinas. Nem que tenha ido comer lagosta para a sala ao lado. Não faz parte do que aprendi ser uma escola pública, nunca tal vi ou de tal ouvi falar desde que as frequento, ou seja, desde que me conheço.

Exº Senhor Pai / Mãe / Encarregado(a) de Educação
Em função da notícia vinda a público, hoje, na comunicação social, sinto-me na obrigação de partilhar convosco os esclarecimentos necessários para repor a verdade do que realmente aconteceu.
Esta missiva dirige-se especialmente a si, pai /mãe e faço-o pelo respeito que me merece.
Passemos aos factos:
1. A escola identificada na notícia está errada. A situação aconteceu na EB1/Jardim de Infância da Abelheira.
2. “Nada justifica uma criança a passar fome. Não é justo castigá-la a ela” – são supostas declarações da mãe da criança. Não poderia estar mais de acordo com esta afirmação, e tanto assim é, que a criança comeu na sala onde ficou, durante a hora de almoço, acompanhada de uma educadora.
3. É, portanto, completamente falso que esta criança tenha sido colocada no refeitório, “sentada ao lado dos colegas, enquanto estes almoçavam”; a acontecer, seria absolutamente desumano e nisso estamos todos de
acordo.
4. “Uma das funcionárias foi impedida pela direção da escola de pagar a refeição da menina do seu próprio bolso” – gostaria muito (e peço a quem identificou esta situação que me informe) quem foi a funcionária que
prestou estas declarações uma vez que nenhuma funcionária me contactou sobre este assunto nem a nenhum elemento da direção. Assim, ou a comunicação social ou os supostos pais que querem manter o
anonimato ou a suposta funcionária estará a mentir.
5. No dia 4 de setembro foi divulgada uma comunicação escola família onde este assunto foi abordado.
Relembro: Existem, neste momento, dívidas de refeições para com o Agrupamento, no valor de 20.000 €, aproximadamente. Como compreenderá, esta situação é insustentável, até porque põe em risco o
fornecimento de refeições a todos os alunos. Estou disponível para procurar uma solução com todos os que mantêm esta situação, como, aliás, tem acontecido. Para isso, os pais /encarregados de educação que têm
este problema terão que vir ter connosco, conversar e assumir os compromissos possíveis, dentro das várias possibilidades que temos para lhes propor. A partir do dia 9 de outubro, nenhuma criança poderá
almoçar na escola sem o respetivo pagamento e sem dívidas anteriores saldadas /negociadas. Foi uma decisão difícil de tomar mas absolutamente necessária, como compreenderá.
6. Esta medida foi, depois, debatida com Associação de Pais e Encarregados de Educação do Agrupamento que, não só a apoiaram como a consideraram absolutamente necessária para normalizar a situação, uma vez que,
só assim, poderemos disponibilizar ajuda suplementar aos alunos que dela efetivamente necessitam.
7. Em todas as receções aos pais e encarregados de educação das escolas do agrupamento foram os mesmos informados, por mim, sobre a decisão tomada e, relembro também, que recebi o apoio e a concordância dos
mesmos, tendo eu, na altura, informado que nenhuma criança ficaria sem comer ou passaria fome – apenas não almoçaria.
8. Das situações de dívida, a situação presente é a seguinte: 4.696,29€ nunca serão recuperados porque os alunos regressaram ao país de origem, foram transferidos para outras escolas ou estão em situação de fuga
à escolaridade; das dívidas negociadas no último ano, muitas já se encontram totalmente pagas havendo, neste momento, 14 famílias a efetuar o pagamento em prestações, de acordo com as suas possibilidades –
este montante tem o valor 2.372,72€; 31 famílias continuam sem cumprir as suas obrigações nem contactaram a escola para resolver a situação (6.530,85€), havendo famílias com dívidas superiores aos
400€. A diferença para o montante indicado no ponto 5 representa dívida que já foi perdoada e ou /regularizada.
9. A frontalidade com que sempre me relacionei consigo permite-me dizer-lhe que, efetivamente, há comportamentos de negligência grave que têm que ser denunciados e combatidos, a bem da saúde e da
educação das nossas crianças. Mas com a mesma frontalidade, e sem querer fazer juízos de valor, pergunto-lhe: era capaz de deixar o/a seu/sua filho(a) na escola, depois de ser informado que, ao mesma não seria
dado almoço no refeitório e de lhe ter sido indicado, repetidas vezes, como resolver esta situação, inclusivamente no próprio dia e não fazer nada? Muito sinceramente, eu nunca seria capaz de o fazer.
Expostos os factos, quero informá-lo que acredito na sabedoria popular e, “como quem não se sente não é filho de boa gente”, reservo-me o direito de agir, nos termos da lei, contra aqueles que, deliberadamente, fizeram
declarações difamatórias da minha ética profissional e do bom nome da escola e dos profissionais que nela trabalham diariamente, incluindo o jornal que publicou a notícia da forma como o fez. Esclareço-o que foram
transmitidas ao senhor jornalista todas as informações necessárias para o esclarecimento cabal, tendo sido enviada, por e-mail, a comunicação escola-família que atrás referida.
Aos muitos cidadãos e cidadãs responsáveis que se voluntariaram para pagar as refeições desta menina informo que a Associação de Pais e Encarregados de Educação do Agrupamento de Escolas Drª Laura Ayres receberá,
de bom grado, o contributo da vossa generosidade, não para esta criança em particular, uma vez que não precisa, mas para as muitas outras que necessitam de ajuda (associacaodepais.quarteira@gmail.com).
Termino enviando-lhe, novamente, uma palavra de apreço e reconhecimento, em tempos tão difíceis para todos, lembrando-lhe que, por muito grandes que sejam as dificuldades e os obstáculos, pode contar sempre comigo
e com a equipa que comigo trabalha.
16 de outubro de 2012
A Diretora

Comments


  1. Pelas explicações dadas e também aqui publicadas o caso é por um lado menos grave por outro ainda pior porque aparentemente a associação de pais terá concordado com esta decisão. Como é que é possível? Como é que é possível? será que não conseguem encontrar os pais das crianças? Será que é necessário que para se partir para uma outra situação que envolva a segurança social ou o apoio social é preciso os pais fazerem penitência e as crianças serem publicamente diferenciadas? Ou não seria melhor discretamente resolver o problema?

  2. Armindo de Vasconcelos says:

    Continuo a lamentar a situação, há muita coisa que deve ser cabalmente esclarecida, parece-me que as explicações não colhem.

    Aliás, se a direcção da escola tiver o mesmo cuidado com as crianças que tem com a revisão de um documento que compromete publicamente o estabelecimento de ensino, estamos esclarecidos. Desde frases incompletas, por falta de verbos, até concordâncias mal feitas e pontuação peregrina… Deus meu!

  3. fernando Carvalho says:

    Assunto está encerrado? Diretora exerceu os seus direitos legais como afirmou?
    Apesar de se terem que respeitar as estruturas escolares e os seus responsáveis os mesmos não deveriam a bem da educação e do bem estar social exercer a sua atividade como se se tratassem de pequenos feudos com tratamento régio ou mesmo de cacique.
    Por vezes esquecem-se que somos nós contribuintes e pais de alunos que lhes pagamos os ordenados.
    A humildade e o saber ouvir evitam muitos problemas
    Deixo o conselho neste caso a bem do ensino

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  1. […] Alguém, por caridade, me traduz o que possa significar não almoçar mas não ficar sem comer? Tudo bem, portanto, dado que o “lanche da tarde devia ser reforçado para esta criança”. Facebook Filed Under: educação Tagged With: Agrupamento Dr.ª Laura Ayres, almoço, Conceição Bernardes « 1367 […]

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