O ensino profissional como desistência e retrocesso

Penso que ninguém põe em causa as virtudes do ensino profissional, desde que encarado, sobretudo, como uma escolha consciente dos alunos e não como um reduto para quem tenha revelado dificuldades de aprendizagem.

Ana Maria Bettencourt, presidente do Conselho Nacional de Educação, e Luís Capucha, antigo director das Associação Nacional para a Qualificação (responsável pelas Novas Oportunidades) criticaram o recentemente encantamento de Nuno Crato com o sistema dual alemão, tendo em conta que obriga dos alunos a escolher um percurso profissionalizante numa fase precoce da vida. Para além disso, como lembra bem Luís Capucha, Portugal “não tem um tecido empresarial suficientemente forte e consolidado para assumir a formação profissional”.

Ana Maria Bettencourt, e bem, “defende que aos primeiros sinais de dificuldade de aprendizagem os alunos devem ser apoiados e não desviados para outras vias”.

É bom, de qualquer modo, não esquecer que estes dois críticos já defenderam posições que serviam, na prática, para disfarçar problemas educativos e não para os resolver: Bettencourt esperava que a Escola fizesse tudo sozinha e Capucha defendeu o facilitismo.

O sistema educativo, em Portugal, é frequentemente utilizado como meio de disfarçar problemas sociais, quando deveria servir para os combater, para criar equilíbrios. Isso implica investimento, palavra muitas vezes associada, de modo redutor, a questões financeiras.

Se, por exemplo, um aluno revelar problemas de aprendizagem no Primeiro Ciclo (correspondente à antiga Escola Primária), o sistema deve estar preparado para tentar resgatá-lo de uma situação que o coloca em desvantagem relativamente aos seus colegas. Esses problemas podem ter origens sociais e/ou psicológicas e a sua resolução implica a existência de recursos (humanos e não só), para além de uma série de condições que Nuno Crato continua a retirar às escolas e que se prendem, entre muitos outros aspectos, com o número de alunos por turma ou com a organização e a gestão das escolas.

Ao contrário do que propagandeiam alguns ignorantes de vários quadrantes políticos, com destaque para uma certa direita descontraída e marialva, não se trata de querer que todos sejam iguais à força, trata-se de ter um sistema educativo que possa equilibrar, o mais possível, as diferenças entre os alunos de diferentes estatutos sociais, económicos e/ou culturais.

Neste contexto, o ensino profissional tem sido implantado como um percurso alternativo para aqueles alunos que a sociedade, efectivamente, abandonou à sua sorte, ao não investir verdadeiramente na Educação: é um acto de desistência. Por outro lado, parece ser uma maneira de legitimar o regresso a tempos em que o trabalho infantil era legal: aqui está o retrocesso.

Comments

  1. joao says:

    Convém reforçar ainda a ideia que as antigas escolas técnicas e industriais tinham, apesar de tudo, oficinas, carpintarias e mestres de várias profissões.

    Hoje, este ensino profissional consegue vir a ser pior quer a nível ideológico e político, quer a nível de infraestruturas e saídas profissionais.

    Um grande barrete, mais um.

  2. Pisca says:

    Sem querer ser estudioso da questão, apenas fui um “utente” do Ensino Profissional Antigo, e era simples, as tão cantadas Escolas, tinham um Ciclo Preparatório, e um Curso de Formação, aos 12 anos, numa carreira “sem chumbos”, escolhia-se uma carreira, Comércio ou Industria, para os rapazes em especial, para as meninas ainda havia um célebre Curso de Formação Feminina, uma espécie de curso de Boa Dona de Casa

    As propinas eram muito mais baratas que o Liceu (caminho para Dr.) e foram implantadas a partir do inicio dos anos 60, quando o operariado pretendia algo mais para os filhos do que ir para aprendiz num oficio à mão.

    Em muitos casos a miragem era o filho ser empregado de escritório, passava para o baronato do trabalho

    Grande parte dos “falantes” das virtudes não sabe nem sonha o que eram cursos de formação de 3 anos e com 15 ou 16 anos estavam prontos para o mercado


  3. Depois de 20 anos de Alemanha, eu estou convencida de que um dos pilares da forte economia alemã é o ensino profissional. As profissões técnicas, as relacionadas com a construção e, até, com a jardinagem, por exemplo, têm muito prestígio e fomentam de uma maneira avassaladora a iniciativa privada.

    • António Fernando Nabais says:

      Cristina, o meu texto é contra muita coisa: o facilitismo socrático, a desresponsabilização da família, uma visão “bettencourtiana” da escola como única responsável pela educação dos jovens e a ideia de que o ensino profissional deve ser, sobretudo, uma alternativa de segunda, para os desgraçados que a Sociedade, o Estado e a Escola abandonaram e que, portanto, ficaram privados de capacidades de aprendizagem. O meu texto não é contra o ensino profissional.


      • Sim, eu também fiquei com essa impressão, mas quis reforçar o exemplo alemão.
        Infelizmente, em Portugal, as profissões, digamos, manuais, são muito mal vistas. O artesananto ainda é admirado, mas o resto é só mesmo uma alternativa de segunda. Penso que esta maneira de pensar, que muito prejudica a economia, foi criada na Idade Média, pois “empurravam-se” esses ofícios para os mouros vencidos, que ficaram a viver entre os cristãos, nas mourarias, que mais não eram do que “ghettos”. Será daí que vem a expressão “trabalha que nem um mouro”. A tradição alemã (ou da Europa Central) é diferente, pois as chamadas profissões (carpinteiros, serralheiros, construtores, etc., até limpa-chaminés) eram vistas com prestígio e só podia exercê-las quem absolvesse uma exigente aprendizagem. Esses profissionais organizavam-se em coletividades (falta-me agora a palavra certa portuguesa, em alemão são as “Zünfte”), muito cientes dos seus pergaminhos. Ainda hoje, na Alemanha, se olha com respeito para um carpinteiro que fez o seu “Meister”, ou exame de “Mestre”, usando-se ainda a palavra medieval.
        É um aspeto pouco desenvolvido, na História, eu própria ainda não pesquisei convenientemente, mas, pelo que tenho lido, parece-me que essa cultura medieval do “mouro de trabalho” influenciou muito a nossa maneira de pensar sobre este assunto.


        • P.S. Lembrei-me agora da palavra certa: são as “confrarias”. É coisa que ainda não aprofundei, pois só começaram a surgir já no fim da época medieval (já depois de D. Dinis). De qualquer maneira, em Portugal, não tiveram a importância de que em território alemão gozavam.


  4. Boa noite,

    Custa-me muito compreender que se tomem decisões sem ter em conta a opinião daqueles que todos os dias trabalham na escola.
    Depois estão a decidir algo para o futuro da educação mas ainda não ouvi ninguém falar sobre qual será o futuro da sociedade, para se perceber que futuro poderemos criar para a escola. Parece-me ser mais do mesmo, continuam a olhar sempre pro passado, aquele passado que nunca mais se repetirá, tendo um futuro completamente diferente. O futuro assenta em três princípios basilares: transitoriedade, diversidade e novidade. Se a escola não estiver preparada para levar alunos ao futuro, dificilmente conseguiremos sucesso.

    Os melhores cumprimentos,

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  1. […] A opção do ensino profissionalizante como meio de resolver os problemas de aproveitamento é um reflexo condicionado e não propriamente uma reflexão. Então o abandono escolar resolve-se criando vias profissionalizantes? Se o abandono escolar for consequência de problemas sociais, familiares ou psicológicos tantas vezes interligados, o que resolverá o ensino profissionalizante? A integração num ensino profissionalizante resolve os problemas de aproveitamento? Não estaremos diante de mais um sinal de que vivemos numa sociedade que desiste de educar a maior parte dos seus jovens? […]


  2. […] e os críticos não passam de carpideiras. Debaixo deste aparente marialvismo, é, na realidade, um defensor da desistência. Acrescente-se, ainda, sem prejuízo de reflexão e debate posterior, pode equacionar-se a […]


  3. […] chamada ensino vocacional. Para além disso, Martim parece não estar informado sobre o modo como o ensino profissionalizante está a ser pervertido e transformado em fornecimento de mão-de-obra […]

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