Mozart luta contra a servidão nas suas óperas

 

Mozart na sua infância

 

Escrever sobre Mozart, é apenas um pretexto para referir um precursor da defesa dos, hoje em dia, denominados defensores dos direitos humanos. Durante a sua época de vida, existiam abusos de poder contra os trabalhadores da terra dos senhorios que as possuíam. Os trabalhadores eram denominados servos, palavra que vem da definição: Aquele que não dispõe da sua pessoa, nem de bens. Ou homem adstrito à gleba e dependente de um senhor. Fonte: Dicionário Priberam da língua portuguesa.

Os servos estavam sujeitos a pagar a metade do produto ao proprietário da terra, ou, as vezes, a colheita toda, reservando para si apenas uma parte para consumir e levar a vida numa de magra subsistência, como largamente refiro no meu texto de 1979  Strategies of reproduction in a Galician Parish (NW Spain), CUP, Grã-Bretanha, traduzido ao castelhano em 1988,pelo cientista da Universidade de Compostela, Ramón Maiz Suárez, como Antropología Económica de la Galicia Rural, editado pela Xunta de Galícia. Não há versão luso europeia. Remeto o leitor para as definições sobre feudalismo que aparecem neste texto.

Pode ser lido no Repositório da Biblioteca do ISCTE-IUL, em http://repositorio.iscte.pt/ ou no internacional http://www.rcaap.pt , moradas que cito para facilitar a leitura. Uma servidão que desconfio torne a repetir-se por causa da crise que atravessa a Europa, sendo os países mais afetados Portugal, Espanha e Grécia. O que Mozart fez, é um exemplo de salvação nacional baseando a sua defesa na música que ele compunha, especialmente as suas óperas.

Mozart foi um dos três compositores clássicos de Viena, como deve ser salientado desde que escrevi o texto sobre Beethoven. O primeiro era Franz Joseph Haydn, amigo de Mozart, com quem escrevera os Quartetos de Paris, dedicados a Haydn. Era um rebelde com causa. Sabia de música, ensinado pelo seu pai Leopold, também músico.

Wolfgang Amadeus Mozart,  compositor austríaco do período clássico, foi batizado em Salzburgo, no dia 27 de Janeiro de 1756, falecendo na flor da sua idade, 35 anos, em Viena no dia 5 de Dezembro de 1971, pelo cansaço de estar sempre a trabalhar, a compor. A sua obra, para os poucos anos que viveu foi prolífica e influente, um verdadeiro compósito austríaco do período clássico. (Fonte deste parágrafo e de todo o ensaio: os meus estudos de música e o livro Mozart, de Jean e Brigitte Massin, editado por  Fayard em 1970, adquirido por mim na FNAC de Monmartre.  É sempre referido que era um menino-prodígio da música. Porque esse sobrenome? Porque desde os seus três anos de idade tocava música em todos os sítios onde o seu pai Leopold o levava como objeto de exibição, para sua glória, a todas as cortes reais, o de príncipes arcebispos e outras que existiam no seu tempo.

Foi o sétimo e último filho de Leopoldo Mozart e Ana Maria Pertl. A família do pai era oriunda da região de Ausburgo, terra de músicos, fonte do saber musical do filho, tendo sido registado o nome da família paterna no mesmo sítio desde o Século XIV. Muitos dos seus membros dedicaram-se à cantaria e outros a construção, sendo todos eles artistas nas obras que produziam de música ou em tijolo. A família da mãe era da região de Salzburgo, composta em geral por burgueses de classe média, no meio de uma sociedade de aristocratas. (parágrafo retirado do Dicionário de Músicos e as suas vidas, escrito por Stanley Sadie. Este escritor recebeu a Ordem de Cavaleiro do Império Britânico pela sua obra em música. Nasceu em Wembley a 30 de Outubro de 1930, falecendo já com muita idade em Cossington, Sommerset, no dia 21 de Março de 2005. A Ordem foi-lhe concedida pela Rainha Isabel II de Windsor, quem muito gosta de Mozart e este musicólogo, crítico de música e editor britânico de partituras, dedicou muito do seu tempo a Amadeus Mozart. Editou a sexta edição do Grove Dictionary of Music and Musicians, em 1980, publicado como primeira edição do New Grove Dictionary of Music and Musicians). Dedicou muito do novo dicionário a Mozart por ter descoberto na sua investigação, essa a sua dedicação em defessa do povo servil, sem nenhuma ajuda nos tempos feudais, sem ninguém para falar pelos que não sabiam o que dizer na sua defesa dos atropelos do poder, como acontece hoje em dia em países europeus, especialmente no nosso Portugal, que tem um governo que reconhece a sua incapacidade para cumprir com os prazos e pagar juros de empréstimos em dinheiro a quem deve pagar. É como tornar ao Século da servidão, eles não podem, paga o povo. Países que, no Século XXI, sabem já contestar um poder que os mata. Diferente dos tempos feudais, que em Portugal subsistem até o dia de hoje por hábito e costume, factos retirados da minha pesquisa em terreno em várias aldeias do nosso País.

Era o problema de Mozart: ele lutava com a sua inteligência, mas nem todos os servos queriam essa defesa, temiam perder o seu trabalho ou as terras que trabalhavam para a aristocracia, como vários no dia de hoje. Este facto do Século XVIII, motivou ao compositor retirar as suas óperas do teatro imperial e apresenta-las no do povo, onde foi bem acolhido e a sua música, especialmente a Flauta Encantada que dera ideias às pessoas que sofriam o martírio da fome e do frio, como acontece em pleno Século XXI no nosso país, dando aço a uma revolução popular que acabou por ser a Revolução Francesa, pouco anos mais tarde da sua morte.

O que interessa era a sua aptidão para combater os governantes que usavam o seu poder com o abuso e a aceitação do povo as vezes, para não carecer de terras onde pudessem trabalhar se fossem despedidos. Começa logo a bater-se contra eles, pela liberdade do povo escravo do feudalismo ou servos feudatários de um senhor de bens que os governava. Na sua primeira ópera, escrita com 11 anos de idade, Apollo e Hiacintos, a pedido da Universidade Latina de Salzburgo, estreada em 1767 na Universidade Beneditina, ópera que começa com o diálogo cantado sobre a corrupção no ensino. Ópera que devia ser ouvida pelo governo que gere a ciência e a educação no nosso Portugal. Foi escrita para frades que também se batiam contra o feudalismo, como as greves de hoje se batem contra a dificuldade de aceso à educação, a ter um futuro na sua base sem ter que emigrar fora da sua pátria.

Outro biógrafo de Mozart é Julian Rushton, Oxford University Press, 2006, texto que pode-se ler em linha na página web:

http://books.google.pt/books?id=_yiDth8VYuAC&pg=PA3&redir_esc=y#v=onepage&q&f=false

É por causa de tantos biógrafos, é que sabemos que Mozart era mação e dedicava o seu tempo a essas atividades, bem como aderiu aos princípios da Revolução Francesa. Foi compositor do Imperador de Áustria Francisco José II de Ausburgo, filho da Imperatriz Maria Teresa e irmão de Maria Antonieta, Rainha da França, fácil de enganar por causa da sua falta de inteligência. Assim foi que ele compôs a sua ópera As bodas de Fígaro  (1786), baseada no livro do revolucionário Beaumarchais, que o Imperador tinha proibido ler e ser usado, por ser um livro que denunciava, como a ópera também o faz, da subjugação do povo, aos proprietários de terra, normalmente aristocratas que usavam o que se denominava Direito a Pernada: se uma mulher rústica casava, devia passar a noite de bodas com o Conde patrão para receber a bênção da divindade para a sua reprodução, como acreditavam os servos. Ideias que Mozart filho não partilhava, como muitos servos também não. Denunciou esse direito na ópera referida. Os proprietários tinham outro direito: o de ter amantes entre as mulheres plebeias, casadas ou solteiras e usavam-nas para o seu pessoal prazer, denunciado por Mozart na sua Ópera Don Giovanni  (1787) bem como Cossi Fan Tutti  (1790) e na sua primeira ópera de jovem adulto: O Rapto do Serralho  (1761) em que critica as invasões dos príncipes e cabeças coroadas da Europa que invadiam terras estrangeiras, como os austríacos com a Turquia, como hoje Alemanha à Portugal. A sua afamada Flauta Encantada  (1791), denominada também Mágica, é a sua manifestação da sua adesão à maçonaria por estar baseada a sua letra cantada nos princípios maçónicos e nas provas que se devem passar para ser membro maçónico. Como os nossos Presidentes da República, que conseguem proteção de outros membros em igualdade de posição na vida social. Na sua ópera A Clemenza Di Tito  (1790) chama a atenção dos príncipes sobre a bondade e o risco que correm se são inclementes. Tito é a metáfora à bondade de Francisco José, que faleceu nesse ano. E outras, como Idomeneu  (1790), uma rescrita da Clemenza Di Tito. Óperas para serem ouvidas pelos que nos governam neste século XXI e o não conseguem.

A obra de Mozart é inesquecível, por dois motivos: pela harmonia e tonalidade da sua música e porque, de forma direta, denunciava os abusos dos governos com poder de ser maioria e das suas armas. Mozart era, como Beethoven depois, um músico revolucionário que colaborou com as partituras que escrevia a libertação do povo subjugados pelas casas reais e os seus favoritos. Era um homem sem fé, a sua crença estava na maçonaria e nos direitos do povo. Era um Zeca Afonso de dois séculos revolucionários diferentes. Do trio de clássicos de Viena, o único que não usou sua arte em ideias de revolta, foi Haydn. Mozart e Beethoven não conseguiam não acusar os abusadores do poder, como o seu anterior patrão o Conde-Arcebispo de Salzburgo, Colloredo, a quem dedicou um dos seus mais afamados DivertimentoColloredo K 251, e a Serenata Colloredo K 205. A música com as suas notas descreve o humor mudável do Conde-Arcebispo e o seu nepotismo. Como Afonso e a sua Grândola, vila morena, música que mal foi ouvida pelos soldados do 24 de Abril, sabiam que a Revolução dos cravos começava e havia que empunhar um fuzil para tornar à Democracia. Como Mozart e a sua Flauta Encantada e o seu Réquiem k 626. A voz da batalha.

Parece-me que poucos imaginam como, com as notas musicais, os compositores definem ideais que apenas quem saiba de música, pode entender. Ou quem esteja dentro do segredo do complot para derrubar ditaduras. O povo vienês sabia da música, era a capital da musicologia e dos compositores rebeldes. Como Portugal, fartos das guerras de ultramar para matar africanos. Ou, como na Itália Renascentista tinha sido Vivaldi, no Século XVIII cheio de raiva contra o seu bispo que lhe proíbe de celebrar missas, dedica-lhe o seu Estro Harmónico op.3. Ou um Wagner alemão, insurreto na sua juventude, que queimava os teatros da aristocracia, um Beethoven quem escrevia sobre amor e acreditava na libertação dos opressores pelas atividades de Napoleão Bonaparte, que o irritou na sua passagem de nacionalista a aristocrata, e Gustav Mahler que descreve os sentimentos sobre a morte dos seus filhos nas suas sinfonias, antes de ficar doente no seu pensar racional, na sua psicologia, todos eles no Século XIX. Todos eles se alçam pela falta de cumprimento dos direitos revolucionários pelos que Mozart se batia: liberdade, igualdade, fraternidade. O abuso do poder escraviza e Mozart, como Beethoven, como os soldados portugueses na guerra sem fim na África colonizada, batem-se como intelectuais sem dar trégua aos (des) governantes que, apoiados na sua maioria, roubam o povo com trabalho não pago, despedimentos coletivos não anunciados, recorte na sua justa remuneração, professores não contratados ou pagos com recibos verdes, que não permitem um tratamento social da saúde, como acontecia com os servos da gleba na época mozartiana, injustiças todas denunciadas nas suas óperas. Como o Zeca em Portugal, como Vítor Jara no Chile de Allende. Os que têm todo, querem ainda mais: que as suas dívidas sejam pagas pelo povo adoecido que não sabe do seu futuro, servos do desgoverno, uma perspetiva que os génios como Mozart entendem e abatem na sua genialidade de criação de obras-primas. Se Mozart e Beethoven fossem vivos hoje em dia, o que não escreveriam contra a alemã Merkel que têm a ousadia de pedir aos hoje servos europeus, mais cinco anos de austeridade para tornar à denominada normalidade. Quer Mozart ou Beethoven, eram alemães e entendiam o povo e as suas misérias, especialmente os servos feudais ameaçados eternamente no seu trabalho, ideias e pessoas por ideologias de maioria entre aristocratas. Como no Portugal de hoje governado pela troika e a Merkel.

Pode-se pensar que apenas os Velázquez, os Goya, uma Frida Kahlo contra Diego Ribera, as peças de teatro de Lope de Vega, Tirso de Molina e outros escritores, podem definir situações e sentimentos, com Van Gogh que exprime o seu mal-estar psicológico, como tantos outros, nas suas pinturas …. Ou um Paul Rodin, que recebeu os ataques da sua amante Camille Claudel a quem roubava-lhe ideias até ela ficar doente por causa do poder usado com abuso dos homens de séculos passados, ou pelos homens que fazem do Século XXI, virar as pessoas para esse passado que parecia ter acabado, até aparecerem os coelhos que tudo comem, roem e matam ideias e personalidades. Mozart foi o rei da metáfora em música para lutar contra os opressores do povo. A minha obra preferida é A flauta encantada que define os sentimentos e as suas ideias, escrita já à beira da morte… mas dá ideias para o povo aprender a defender-se dos opressores. Obra que perdura até o dia de hoje. Como as do Zeca Afonso. As de Vítor Jara, tendo os três uma morte ma por causa das suas obras nunca datadas e que hostilizavam o poder.

Raul Iturra, português que marcha com o povo pelos seus direitos e a sua soberania

14 de Novembro de 2012.

Comments

  1. xico says:

    Raul Iturra
    Não vou fazer grandes comentários sobre as suas comparações entre as óperas de Mozart e a luta de classes. Sem dúvida que a ária de Fígaro nas Bodas é um monumento magnífico a essa luta: “Se queres bailar senhor condezito, com a minha guitarra tocarei a música…” Mas meter uma crítica de costumes como o D. Giovanni nessa luta parece-me um pouco exagerado. D. Giovanni corria tudo a eito, desde fidalgas a camponesas. Não fazia distinções de classe. É nesse sentido absolutamente democrático, ao passo que Dona Ana é uma falsa púdica. O que D. Giovanni não tolera é a hipocrisia, por isso recusa o arrependimento.
    Não devia deixar que o seu fervor revolucionário e a sua anglofilia o cegassem ao ponto de distorcer os factos históricos. Dizer que a Flauta Mágica deu ideias ao povo que acabaram a fazer a revolução francesa é um disparate sem nome. A Flauta Mágica foi estreada em 1791, dois anos após a revolução francesa, logo seria impossível a sua influência, mesmo que o seu tema fosse a luta de classes o que duvido. Porque razão Mozart propõe Pamino, um fidalgo, como sucessor da hierarquia estabelecida e mantém o pobre Papageno feliz e contente como passarinheiro, assumindo nitidamente a diferença entre castas sociais?
    Depois onde se baseia para afirmar que Maria Antonieta era estúpida?
    Mas o melhor, ou pior, foi afirmar que o Rapto do Serralho pretende criticar as invasões dos príncipes europeus que invadiam terras estrangeiras, como os austríacos com a Turquia. Esta assunção é um completo disparate: O rapto do Serralho descreve o aprisionamento de senhoras europeias por piratas que as vendem como escravas aos turcos.
    Se olhar para um mapa do império Otomano da época constatará que todo o Norte de África, Médio Oriente, Balcãs até ao Mar Negro e Hungria, pertencem aos Turcos que chegaram às portas de Viena, ameaçando tomá-la. Não foi a Áustria quem invadiu os turcos, mas o contrário. Os turcos invadiram a Áustria, a Hungria, a Bulgária, a Roménia, a Sérvia, a Grécia, etc, etc.
    Já agora, porque falamos de luta de classes e de alemães, deixa-me lembrar-lhe Frederico II da Prússia, um alemão portanto, que se preocupou com o bem estar do povo e recebeu o perseguido e revolucionário Voltaire. Mais ou menos nesta época do Mozart.

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