Quem esteja livre de pecado, lance a primeira pedra

A frase não é minha, nem a ideia. A frase foi encontrada no bordo do texto síntese que o Aventar coloca nos textos que nos edita. Frase que diz: Quem não pecou que atire a primeira pedra. E ontem alguns manifestantes fartaram-se de não pecar.

A frase não é também de quem fez a síntese no bordo do meu texto. É o que acontece todos os dias em frente do parlamento português, no fim de una manifestação contra o orçamento de Estado que, de certeza, deve acontecer até o 27 de Novembro, como está convocada pela CGTP.

Se aprofundamos ainda mais, é uma frase retirada do Evangelho de João Apóstolo, capítulo 8, versículo 7. Bem sabem que não sou um homem de fé, mas a minha especialidade em Etnopsicologia da Infância, levou-me a estudar Direito Canónico, Patrística, Religião, como manifesto no livro coletivo editado por Donizete Rodrigues em 1974, Em nome de Deus. A religião na sociedade contemporânea, Afrontamento, 1974. Defino no capítulo 1: a religião é a lógica da cultura, pp 9-33. Como em todos os meus livros em formato de papel sobre religião, todos os escritos em português, editados pela Fim de Século, Lisboa e com segundas edições, ou pela Afrontamento, Porto. Quem visite o motor de pesquisa Google e escreva Raul Iturra, verá os livros de religião que tenho escrito em Portugal e os da Cambridge University Press.

É uma verdade que não pode ser desmentir, que a religião é a lógica da cultura. A frase está retirada da história mítica de Jesus e a sua vida. Quando alguns fariseus e escribas repletos de ódio e despeito acusaram a mulher adúltera exigindo seu apedrejamento, o Mestre ergue-se e diz: “O que está puro entre vós atire a primeira pedra”(Jo 8:7). Com essa postura devolve a eles o julgamento da mulher adúltera. A lei de Moisés previa o apedrejamento da mulher flagrada em adultério. Passagem conhecida pela religiosidade de povo de Portugal. Apenas que, como especialista em Direito Canónico e Patrística, eu diria que quem está em pecado não é quem atira a pedra, bem como os causantes do apedrejamento da Assembleia que elaboraram um orçamento de estado para 2013, que não há português capaz de pagar. Apenas os 1500 jovens contratados para servir o PM e o seu governo, que receberam altos salários, subsídio de férias e de natal, o que é negado ao povo do nosso país. O nosso povo tem não apenas que pecar, é o seu dever apedrejar um parlamento que tem uma maioria católica romana que apenas eleva os impostos, antes do orçamento ser lei, faz de conta que o favorece ao diminuir o IRS de 4% a 3.5% e distribuir os subsídios de férias e de natal em duodécimos ao longo do ano, o que é, de facto, não pagar o que a lei manda. Servem apenas para confrontar essa alça nos impostos, que ainda deve mudar porque Passos Coelho tem a mania de dizer uma coisa um dia e, no dia a seguir, diz o contrário. Aliás, a própria coligação que da maioria a partidos católicos, está apenas unida por um fio que, nem sabemos o dia que o fio vai-se cortar. Ainda ontem, no fim de Conferência Ibero-americana da Cádis, quer o PR e o seu amigos os PM, do mesmo partidos os dois, tentavam adoçar a amarga pílula do orçamento, anunciado Passos Coelhos essa diminuição do IRS, de imediato comentado por Jerónimo de Sousa e pelo porta-voz de vez do PS, dizendo que essa divisão não era nem pão nem lebre, a minha frase, mas sim um calmante para o povo não pago de Portugal, frase deles.

Hoje em dia, João Apóstolo, apenas existe nos sentimentos de fé do religioso povo português. Os fariseus que tentam evitar apedrejamentos, a atividade de arruaceiros, estão dentro do parlamento a criar leis semelhantes as que castigam com apedrejamento às adúlteras, como o Paulo Portas faz, adúltero da sua promessa de nem criar nem aumentar impostos. Será ele quem vai ser o fariseu retirado para não ser arruado ou apedrejado, como merece por não cumprir a palavra dada, raro em Portas.

Pecado seria não apedrejar a polícia nem as escadarias do Parlamento. Os que não se defendem, perdem sempre. A 27 de Novembro, o dia será ainda pior, porque já a treino entre os que eu pensava ser rapazes e raparigas pagos pela direita, para desviar o olhar da greve para outro sítio. Enganado estava eu. Façam como o Mestre: quem não tenha pecado, atire a primeira pedra. Todos devemos atirar essa pedra ou o encarecimento da vida não vai permitir comer para o ano, se o orçamento passa e é declarado constitucional pelo tribunal que hoje o examina.

Toca pecar, paciência. A religião é a lógica da cultura que manda vestir o nu, alimentar quem tem fome, acolher o triste e todas as outra palavra que o Sermão do Monte em sete alinhas, manda. Não queremos ver os nossos filhos emigrar, nem queremos não ter futuro. Nos jornais de hoje o sindicato da polícia argumentava que o seu vencimento foi rebaixado e não permite futuro à família.

Apedrejar não é pecado. Pecado é não se saber defender. Os fariseus devem ser denunciados, como lei de vida, especialmente quando o PM declara que não pode pagar o vencimento da troika este mês, nem a Merkel, que começa a levar o seu país pelas vias de Portugal, Espanha, Grécia, Irlanda, provavelmente França

Ou nos defendemos, ou os jutos da rua vão sofrer o que a maioria de fariseus parlamentar entenda por bem fazer. Contra as palavras do Mestre em quem acreditam, até eu, como homem bom..

Raul Iturra

18 de Novembro de 2012.

lautaro@netcabo.pt

Comments

  1. maria celeste d'oliveira ramos says:

    nÃO É BONITO ANDAR À PEDRADA – MAS EU PASSAREI A MANDAR “SAPATOS” COMO ALGUÉM MANDOU A BUSH NUMA CONFª QUALQUER
    O QUE PREFERE~

    lINDOS E MANSOS OS BOIZINHOA TÃO MANSOS COM CORAÇÕES DE PASSARINHOS OU UMA TASER JÁ QUE ELES DIZEM QUE NÃO FAZ MAL NENHUM

    • Raul Iturra says:

      Querida Maria Celeste, tem razão, andar à pedrada não é bom nos tempos que correm, mas é a metáfora dos que têm fé e a lei de Moisés. Ultrapassado isso, tem razão, é melhor lançar sapatos velhos. Se o orçamento passar, estamos perdidos! Mande-me um dia o seu e-mail, para consultas. Este texto foi escrito em hora e meia, porque estou revoltado!
      Com carinho agradecido
      RI
      lautaro@netcabo.pt

  2. jorge fliscorno says:

    Esses polícias que merecem as pedras da calçada são pessoas também. E nem são sequer as que decretaram o aumento de impostos. Que texto mais infeliz, Raul.

    • Raul Iturra says:

      Caro Jorge, obrigado pela sua paciência de ler o meu texto. Mas leu mal. Estou a comparar o Sermão do Monte com os fariseus do Parlamento, não com a policia e animo a não apedrejar. Há que entender a lógica da cultura, como escrevo no texto. Não animo a atirar pedras, apenas o povo defender os seus direitos. Leia os outros comentários e o texto sem o analisar antes do ler! Com todo, obrigado pela sua paciência. Vivemos uma crise e eu animo a não punir, como Moisés, a polícia, que é povo e se manifestou ontem por lhe terem tirado membros para poupar! Centenas de polícias foram retirado das fileiras e o sindicato marchou ontem! Obrigado pelo seu comentário
      Abraço
      RI

    • Raul Iturra says:

      Os polícias, como a mulher do Evangelho, não merecem as pedras, eis o elo do texto! Não é bonito andar à pedrada, eis o meu objetivo, Caro Jorge, bem ao contrário. Tem que ler a fonte do meu texto! Mas o povo tem que se defender, como a adúltera é defendida pela história mítica. Os polícias não são adúlteros, esses são os jovens que apedrejam, apesar da minha defesa dos arruaceiros….

    • Raul Iturra says:

      Lamento que una pessoa da minha estima, bom colaborador dos meus textos, não tenha lido bem os dois derradeiros parágrafos do mesmo.. Digo toca pecar… contra os fariseus que fazem as leis! É preciso ler o Sermão do Monte….


  3. Excelente POST, os meus parabéns. É importante que o POVO entenda a gravidade da situação actual e que se proteja do presente governo que nada mais é que mandatário da TROIKA!

    • Raul Iturra says:

      Caro Zé Povinho, o seu comentário da-me a esperança de ter sido bem entendido, especialmente em matérias delicadas: os fariseus fazem a lei, mandam a polícia a defende-la, e tiram mais de mil membros do corpo de segurança.. para poupar. Ontem o sindicato de polícias marchou em protesto contra a maioria parlamentar. Para marchar e escrever, é preciso ter muito cuidado, especialmente se se defendem os direitos dos cidadãos como todos nós, que fere até as FFAA! Obrigado pela sua paciência de ler o meu texto com cuidado e te-lo entendido! Não foi fácil escreve-lo. Maria Celeste comenta uma realidade coko um senhora sabe fazer!
      Abraço
      RI

  4. jorge fliscorno says:

    Ler mal é sempre uma possibilidade e procurei evitá-la relendo e reflectindo no que estava escrito. Uma frase «Pecado seria não apedrejar a polícia nem as escadarias do Parlamento.» levou no entanto a minha leitura para outro lado. Tanta coisa poderia ter sido escrito como “Pecado seria ficar calado”, “Pecar seria não reagir”, “Pecado seria aceitar”, tanta coisa. Mas a concretização escolhida, em particular, apela a um tipo de actuação, a violência sobre a polícia, o que me parece incorrecto.

    Mas, tal como comecei por escrever, ler mal é sempre uma possibilidade. E exprimir-se mal é outra.

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