SNS 2013

Na linha de montagem do hospital público espero que o tempo, a indiferença e a desumanidade passem, espero com filosofia, com dúvida, com esperança, tentando ver para além do medo nos olhos dos aflitos que esperam comigo. No hospital público cheira mal, está demasiado calor, demasiado desespero, demasiada solidão, demasiada morte para cada um no final da linha de montagem, demasiado sistema informático, demasiados graus de prioridades relativas, e insuficientes médicos, enfermeiras, compaixão, capacidade humana. No hospital público europeu que parece um de campanha em África mas com computadores, cheira aos miasmas do Inferno, há mulheres aterrorizadas que gemem na língua dos crentes “ai Jesus acode-me”, “Pai, onde Estás?”, e o segurança dorme sentado numa cadeira de rodas.

Comments

  1. xico says:

    Já tive que recorrer ao hospital público, para nele estar internado e depois receber tratamentos. Felizmente não é esta a imagem que me ficou do hospital público. O carinho, a amizade, a alegria, a compaixão, de todos quantos nela trabalham, deixaram-me impressionado. Quanto a cheiros: nada. O sistema de ventilação funcionava na perfeição. Viva o hospital público.

    • Amadeu says:

      Concordo com o Xico.
      A imagem que tenho do hospital público é quase o oposto da da Sarah. Médicos e enfermeiros amigos e profissionais, rapidez que uma multidão de utentes não fazia adivinhar. Profissionalismo. Infelizmente com taxas moderadoras nada moderadas para muitos.

  2. Maria dos Anjos says:

    Eis uma pequena amostra de um hospital publico!
    Convém acrescentar que o pai morreu no dia 30/01

    “Sou habitante do Barreiro, bem como toda a minha familia, onde estão incluídos os meus pais. O pai tem oitenta e dois anos trabalhou cerca de cinquenta anos e descontou durante o mesmo período de tempo, claro que está velhote e infelizmente, precisou pela primeira vez de cuidados clínicos mais intensos.

    Como é óbvio e por instrução do médico que o assistiu na passada quinta-feira dia 17 de Janeiro (onde permanecemos nos serviço de urgência das 15h até às 21h), teve ordem de internamento. Só que AZAR do pai, não havia camas. Foi preciso ficar no SO.

    Num hospital imenso (com muitos espaços mal ou pouco ou mesmo sem serem utilizados), aparece um rectângulo onde estão dispostas:

    – Sala de espera para ambulatório de cirurgia;
    – Cama de doentes em serviço de observação, espalhadas por todas as áreas úteis possiveis (isto significa não haver espaço entre as próprias camas para observação dos doentes, cama atrás das portas, camas nas áreas de recepção, camas nos corredores junto às janelas….;
    – Profissionais de saúde – médicos e enfermeiros sem capacidade de resposta, sem qualquer tipo de condição trabalho (e reparem estamos a falar sempre de pessoas uns doentes e muitos gravemente doentes e profissionais de saúde);
    – Pessoal de limpeza;
    – Seguranças (sim porque o SO parece a prisão domiciliária do hospital – entende-se que não pode nem deve haver intrusão do exterior- mas também não exageremos, os doentes não cometeram crimes – só estão doentes!);
    – Pessoas mal tratadas ou antes a aguardar para serem tratadas, porque há prioridades. Doentes sem água, comida (mesmo quando não têm restrição médica) porque não há tempo.

    Enfim….ao fim de cinco dias de espera de uma vaga no internamento, tive oportunidade de ver tudo o que jamais gostaria de ver.

    Ontem pelas dezanove horas, finalmente e estamos a falar de cinco dias depois, entrou num quarto e numa cama e num serviço.

    Certamente já devem ter reparado no aspeto de um cão vadio e esfaimado dos muitos que circulam pelas ruas. É exatamente o aspeto que o meu pai tinha……

    Esteve amarrado porque se revoltou pelas carências que sofreu, vinha sedento (não houve tempo para lhe darem um pouco de água) faminto ( não há comida no SO) sem dormir – quatro noites. Sim, porque me esqueci de acrescentar que os doentes, bem como o pessoal clinico estão constantemente a ouvir o altifalantes de todos os serviços do r/c – triagem – gabinetes médicos – enfermaria ………., as luzes intensas sempre acesas, os doentes lado a lado a queixarem-se das dores que têm, as funcionárias a falarem, a policia, os seguranças, eu sei lá……

    Eu sei que o relato já vai longo, mas é urgente que os doentes passem a ter os direitos que constam nas imensas informações espalhadas por todo o edificio.

    É urgente que os profissionais (e a grande maioria muito boa, muito atenta e muito humana) tenham condição para trabalhar. Só trabalhar!

    Quantos e quantos doentes ficarão sem a assistência necessária porque não há tempo……………….prefiro não pensar nisso, mas certamente os numeros estão lá e estão ao vosso alcance.

    Estamos num País em crise financeira, mas na saúde não pode haver crise. A vida humana não tem preço, seja qual fôr a classe social”.

    Maria Anjos Catapirra

    22/1 às 12:05

  3. José Maria Pacheco says:

    Conheçi pessoas que tinham muito dinheiro, quando tinham problemas normais, ou consultas de rotina iam ao privado, mas quando tinham problemas mais sérios iam ao público. O apoio á saúde publica vai de certeza melhorar quando todos os portugueses sem excepção tiverem os mesmos direitos,isto é, quando acabarem os subsistemas para os privilegiados.


  4. Compreendo as palavras de Sarah e de Maria dos Anjos.
    Bem gostaria de dizer o contrário, mas tocou-me recentemente uma experiência no hospital público de Guimarães, que me deixou muito má pegada. Dessas que quebram as quebradas da esperança. O drama do sofrimento humano pior que subestimado: absolutamente ausente. Foi o caso que eu vi e vivi, por estar ligado a um familiar próximo.


  5. Vale a pena raciocinar sobre os custos do SNS sem querer que alguem (painatal ? merkl? osricos?) paguem. Quando as ordens/sindicatos defendem os trabalhadores nos achamos normal. E quando defendem o SNS ? achamos normal ? mas eles existem com toda a legitimidade para defenderem os seus interesses e sao tao generosos que defendem os nossos? e achamos que deve ser assim !! e os maquinistas CP ou pilotos tambem fazem a greve para nos defenderem claro!! somos um pais de generosos. So comigo e que me parece que nao estao a ser -deve ser porque tenho uma maneira de dizer que irrita?

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