Da Crise Terminal dos Partidos Portugueses

Os partidos valem zero a partir do momento em que constroem meticulosamente uma vida tão própria que se impermeabiliza ao clamor das gentes. Há muito que as aspirações das pessoas [mais participação directa e consequências imediatas dos nossos debates e das nossas escolhas] e a lógica ronceira dos partidos nada têm a ver. Muito por culpa da agenda medíocre destes últimos, das lutas intestinas pela escada e a chave do Poder interno ao fraccionamento interminável das suas facções e fracções: ironicamente, o carunchoso statu quo governativo ora PS ora PSD favorece o ganha pão prosaico e funcionarizado dos demais partidos, sem excepção, representados na AR, pelo que o facto de a contestação na rua visar virulentamente um membro do sistema representa na verdade uma séria ameaça ao sistema como um todo.

Mas, ainda que inconsciente disso, o sistema dos partidos faliu. Não nos revemos nele nem nele cremos. Sinal disso o triste e melancólico diagnóstico do que é hoje o Bloco de Esquerda, rebate autojustificativo e tardio com que Daniel Oliveira explica a saída desse partido entorpecido e bizantino. Ele adequa-se à consabida escória da restante partidocracia em Portugal, pesada, estanque, um cancro: perpassados de corruptos, carreiristas medíocres, responsáveis por escolhas devastadoras, gestão danosa continuada do Estado, não nos reflectem. Nenhum nos reflecte.

Se com os partidos, tal como estão, não vamos lá, reforme-se a forma como elegemos quem e o que elegemos. Reforme-se já. Para lá de qualquer aqui-d’el-Rei aflitivo e derrotado pelo desespero, nas ruas, comecemos pela remoção desta nossa vã, vil, singela e viciada forma de votar às cegas.

Voltaremos às ruas. Vez após vez. Em massa. Com os nossos slogans desfocados, angustiados e álacres. Sem líderes. Sem alternativas. Uma mole sofredora. Para quando também com um caderno claro de reivindicações democratizadoras do sistema onde os partidos apodrecem, empurrando  com a impávida barriga um monstruoso divórcio do Povo?!

Comments

  1. Hugo says:

    Sinceramente, não entendo esta fixação pela rua. Se os partidos fossem extintos, quem é que mandava? Era a rua? A massa heterogénea de pessoas com as mais díspares reivindicações? A História mostra que quando o poder cai na rua não acontece nada de bom.

    Também não me parece legítimo que, nesta situação, uma pessoa em nome individual diga que “não nos revemos nele [sistema partidário] nem nele cremos”. Quem compõe estes “nós”? Os um ou dois milhões de pessoas na rua no passado sábado? Estas pessoas são todas contra o sistema partidário? Podem todas votar? Vamos ver, então, quantas delas votam PS nas próximas eleições e quantas votam em partidos que nunca foram poder. Creio que basta a olhar para as sondagens para perder a esperança.

    Além do mais, creio que é injusto criticar partidos que nunca foram poder (executivo ou autárquico) e incluí-los a todos no mesmo saco com PS, PSD, PCP, BE e CDS. Acho que o problema passa mais pela fraca capacidade de risco dos portugueses, que explica por que aqueles cinco partidos se perpetuem no parlamento. Os partidos que surgem ou são inexperientes ou são uma cambada de vigaristas como os outros. E então o eleitor queixa-se de que PS, PSD, CDS, PC e BE são uma data de chupistas ao mesmo tempo que coloca uma cruz num daqueles partidos. Um bom exemplo disto era o MEP, um partido de direita que me pareceu poder constituir uma lufada de ar fresco no centro-direita português e uma alternativa a PSD e CDS. Pois bem, o MEP concorreu a várias eleições e nunca conseguiu eleger um único deputado nem ir além de resultados residuais nesses sufrágios. Em consequência, foi extinto em Janeiro passado. Quem ficou? Os sociais-democratas e populares que são todos uma cambada de vigaristas…

    • palavrossavrvs says:

      O meu post apela à regeneração democrática dos partidos, não propriamente à sua extinção. Quando eu puder eleger directamente os melhores e mais carismáticos líderes, os melhores e mais competentes deputados, e puder decidir directamente medidas cruciais para mim e para milhões da minha comunidade, aí a morte-dos-partidos-tal-como-são terá aberto caminho para o nascimento dos partidos tal como devem ser, instrumentos ao serviço da comunidade e não de si mesmos a cada ciclo de poder.

      O problema é esse exclusivismo pateta, opaco, dos partidos, que se justifica a si mesmo como se tudo estivesse bem e nos tivesse dado o progresso, a estabilidade, a riqueza. O meu caro faz-me lembrar todos quantos raciocinam dentro do sistema e não o pensam a partir de fora.

      A república dos partidos deixados à sua sorte e nós à sua mercê deu-nos um feixe de problemas sérios e uma seara de cogumelos corruptos infrequentáveis, que saltitaram dos partidos à Banca e da Banca aos partidos. Ei-los que nos escarram e escarnecem de recurso em recurso, passando ao largo da prisão, no mínimo.

      Tenho, portanto, o direito, como milhões, de exercer o meu escrutínio directo sobre matérias fechadas à gula dos partidos-tal-como-estão. Tenho o direito de escolher pessoas e não de caucionar listas pré-fabricados pela lealdade grunha de um qualquer dirigente local, um entre os milhares de relvas que fazem seu, muito seu, este mesmo sistema em que o meu caro Hugo não quer mexer.

  2. Fernando says:

    Concordo palavrossavrvs!

    Para mim acabava-se com os partidos e lidávamos uns com os outros sem intermediários, como isto ainda é utopia é preciso controlar a canalhice seja de direita, seja de esquerda!

    Para mim, o melhor mecanismo anti-corrupção dos políticos é a descentralização do poder, seja ele económico ou político. O poder é como o anel do senhor do anéis: todos o desejam e depois o anel a todos corrompe!


  3. Esta conversa anti-partidos é a conversa que levou à ascensão eleitoral do mentiroso oportunista italiano, Beppe Grillo. Normalmente esta conversa é arregimentada por um chico esperto que se serve dela e surfa a onda para ganhar tacho (e enriquece à custa disso) mas também pode ser – e é – aproveitada por fascistas.

    Fora da teoria anarquista que, legitimamente, defende o derrube do capitalismo por sindicatos revolucionários, a conversa anti-partidos é uma máquina de fazer fascistas.

    E quanto ao protesto e luta na rua nem os anrquistas podem negar que alguns partidos de esquerda, nomeadamente o PCP que é o único partido de massas à esquerda, são verdadeiros motores da luta de rua, essenciais para prosseguimento e aceleração/radicalização da luta popular contra a burguesia e os seus governos.

  4. maria says:

    Concordo, Joaquim!

  5. eduardo soares says:

    UMA IDEIA FEITA: todos os partidos são iguais.
    Uma ideia feita por quem e que beneficia quem? Quem pensa que BE e PCP são iguais a ps/ppd/cds tem bases concretas para o afirmar ? Digo concretas: legislação, propostas legislativas, trabalho parlamentar, coerência, verdade, ausência de cinismo, afastamento e combate à corrupção, in/dependência face ao poder económico e financeiro. Concretamente alguém refere ou escreve sobre essa suposta igualdade, tim-tim por tim-tim ? Nunca vi nem ouvi.
    A “ideia feita” sim, porque é uma ideia feita pela e para a direita, a justificação para essa hipocrisia que é a “alternância”, o partido único dividido em dois. A “democracia” de ir ao WC de 4 em 4 anos supondo que o voto é livre e resulta…
    AINDA NÃO SE APRENDEU ???

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