Se não fosse 8 de Março

Se não fosse 8 de Março, eu saberia escrever sobre ti. Quem?

Tu, a que partiu? A que ficou? A que sorri? A que sofre? A forte, que nada parece afectar? A frágil, que mesmo assim é o meu castelo? A que é a minha vida? As que foram? A que me deixou? A mãe, as mães que tive? As madrinhas dos meus sonhos? Tu, o sol das minhas noites, o luar dos meus dias? Tu, a de uma noite, de muitos dias, de sempre? Tu, a recordação de outro tempo? Tu, a perene, o exemplo, a genica e o ânimo?

Se não fosse 8 de Março, eu saberia escrever sobre ti. Não importa quem.

Amiga, mãe, amante, mulher, madrinha, companheira ou simplesmente paisagem de vertigem, engano ou pecado, certeza e amor, paixão ou alma, tu serás sempre Aquela.

Se não fosse 8 de Março, eu saberia escrever sobre ti.

Mas, porque hoje é dia 8 de Março de 2013, uma das cinco sextas-feiras do mês, nublada nesta cidade, mas resplandecente do sol dos teus olhos, reais ou fantasia dos meus afectos, e eu não saberia escrever sobre ti, apenas fico aqui, ao teu lado, enquanto te aninhas no meu peito, e leio-te com esta voz rouca de cigarrilha:

UMA PEQUENINA LUZ
Imagem
Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla… em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indeflectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha.

(JORGE DE SENA, FIDELIDADE (1958); in ANTOLOGIA POÉTICA (Guimarães Ed., 2010))

Comments

  1. Ze Maria says:

    – Em nome da estética e do bom gosto deixa te de textos pirosos a armar ao pingarelho em dias aprazados pelo comércio “amaricano”.

    – (Pela tua saúde, deixa de fumar).

    NB – A maioria das mulheres dispensa os salamaleques nestes dias “marcados” pelo consumismo “filho da puta”.
    As mulheres NÃO precisam -dizem me muitas ….ui tantas – de bom-bons nem de florzinhas mas de……RESPEITO. TODOS OS DIAS.


    • Vai por mim, Zé Maria: flores e guloseimas são apenas pormenores, não mais do que isso; mas até o Jorge Jesus sabe que os pormenores fazem a diferença!
      Obrigado pelo conselho, foi um bom conselho!

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