Balcanização? Não, obrigado! Sim à ruptura.

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O movimento olímpico português não cedeu à tentação de se deixar balcanizar, espectro que pairou, durante algum tempo, com o discurso de intenções de pré-candidatura de dirigentes que não passaram disso: putativos pré-candidatos.

Ao não se deixar enredar nessa tentação, o olimpismo distribuiu os apoios e as intenções de sufrágio por dois candidatos: Marques da Silva, um homem do aparelho (era o secretário-geral) e delfim de Vicente de Moura, ambos ligados à marinha, e José Manuel Constantino, antigo Presidente da Confederação do Desporto (CDP) e do Instituto do Desporto (IDP) e actual Presidente do Conselho de Administração da empresa municipal Oeiras Viva EEM, responsável pela gestão do imenso e complexo parque cultural, desportivo e de lazer daquele município.

Desde logo, duas filosofias diversas: por um lado, a “evolução” na continuidade, com um toque pessoal, porventura cosmético; do outro, um manifesto e nunca escondido apelo à ruptura com o passado ( “A minha candidatura é de mudança. Tem uma nova ambição, um novo desejo e procura dar uma nova agenda ao comité. A minha candidatura não prescinde de uma leitura política da situação desportiva nacional“).

Com tantos anticorpos, a continuidade pareceu condenada, mesmo assim, num universo de 162 votos, Marques da Silva conseguiu 67. Mas a maioria, vencedora por princípio e em fim, colheu 92 votos, mais 10 do que os necessários para ser eleita. E, se José Manuel Constantino é o primeiro licenciado em desporto e educação física a liderar o COP, fica também para a história o facto não menos importante de ter votado a totalidade do colégio eleitoral. Feitas as contas, sobram 3 votos que não aproveitaram a qualquer dos candidatos, por terem sido em branco.

Quem passe pelo blogue do novo Presidente, Estados d’Alma, não pode ficar alheio à premonição da sua frase introdutória: “Quando a gente pensa que sabe todas as respostas, vem a vida e muda as perguntas”. Daí que José Manuel Constantino não se deixe levar pela euforia da vitória e proclame, simplesmente: “Este é um período complicado, com problemas mais difíceis de resolver porque os meios e recursos escasseiam. Tenho pela frente uma tarefa delicada, mas já tinha esse conhecimento antes de me candidatar e não me posso queixar agora dessa situação”, embora reconheça que é sempre bom dizer umas palavras de circunstância, que apenas caem bem, mas nada acrescentam ao bom-tom, embora traduzam um claro momento de bom-senso: “A partir deste momento sou presidente do COP e, nesse sentido, represento todas as federações. As que subscreveram a minha candidatura e votaram em mim, mas também as que optaram por dar apoio à outra candidatura. A partir deste momento sou presidente de todos”.

Como espectador atento, mas fora destes palcos há 13 anos, não deixo de ficar perplexo pela forma como Fernando Mota, o ambicioso ex-caudilho da Federação Portuguesa de Atletismo, que parecia ter escolhido o momento chave para a sua demissão da FPA com o timing (aqui tomado à letra, como coordenação e fixação do tempo adequado para uma acção ou actividade; calendarização) das eleições para o COP e mobilizou uma task-force de dezena e meia de federações, o G17 pré-eleitoral, liderado pelo seu sucessor na liderança do atletismo, Jorge Vieira (“sem metade da capacidade de trabalho e de dedicação do anterior presidente”), ficou pelo caminho. Paradigma duma gestão institucional do Presidente e várias cadeiras, em que os directores serviam para tomar conhecimento das suas decisões, aceitá-las e assinar as actas, parece-me que lhe faltou tempo para ler os sinais que, em Novembro de 2012, José Manuel Meirim publicava no seu blogue Colectividadedesportiva.blogspot.pt: (“Sempre num contexto de controlo total e manipulação de toda a estrutura, numa gestão que se pode caracterizar de absolutista, Fernando Mota contou sempre com 3 ou 4 personagens fiéis e obedientes que eram indispensáveis para que a estrutura funcionasse à sua maneira. Durante estes 30 anos, Fernando Mota ganhou três tipos de relacionamentos pessoais na estrutura: os veneradores, os calados interesseiros e os inimigos”).

Algures, nesta pequena guerra entre uns e outros destes relacionamentos, ter-se-á esfumado o velho e nunca escondido sonho a quem, no momento final, terá faltado o killer instinct para se desembaraçar dos apêndices nefastos que prejudicaram a vaga avassaladora que prometia levar tudo á frente até à vitória final.

Com uma gestão semelhante e presidencialista, de permanente guerrilha com o Estado, Vicente de Moura sai da Presidência do COP, aparentemente, sem glória. Mas sai, diga-se, sem ter de apertar a mão a um sucessor que sempre foi seu ódio de estimação, que sempre fez lobby contra a direcção do COP, exactamente Fernando Mota. E não terá de apertar a mão a um sucessor, daqueles que ficaram pelo caminho como putativos, com quem teve de terçar armas (exemplarmente Manuel Brito, ex-director do IND e antigo secretário de estado da juventude e desportos de Laurentino Dias). Estranhamente, o mesmo Manuel Brito aparece como próximo de Marques da Silva e fazendo parte da sua lista, numa aparente ideia de unidade do olimpismo à volta do sistema, onde também marca presença outro putativo pré-candidato, Carlos Cardoso, presidente da Confederação do Desporto de Portugal, e meu camarada de armas, em Mafra.

Criou-se, mesmo, uma onda de triunfalismo para a lógica da continuidade de Marques da Silva, e “A Bola”, em 23 de Janeiro, admitia a derrota estrondosa da lista liderada por José Manuel Constantino.

Mas, mais do que tudo o que fica dito, parece-me que estas eleições serão o último estertor dum certo dirigismo, exemplarmente interpretado por um dos seus mais antigos e românticos guerrilheiros, Luís Santos, que não conseguiu manter-se neutro como lhe exigia o cargo de Presidente da Fundação do Desporto, ressuscitada por Passos Coelho e Miguel Relvas em Novembro de 2012 (“A Fundação do Desporto é agora revitalizada pelo Governo, cabendo-lhe a gestão central e financiamento dos Centros de Alto Rendimento e iniciativas de captação de fundos privados para o desporto, maximizando o mecenato e os benefícios fiscais em geral aplicáveis ao desporto, assim tentando diversificar as fontes de financiamento no desporto, designadamente por via de patrocínios. Nessa lógica contribuirá também, já no curto prazo, na dinamização do Plano Nacional de Ética no Desporto”, como foi proclamado adrede).

Confesso que assisti a grandes momentos de intriga em que Luís Santos e Castel-Branco dominavam os jogos de bastidores do edifício desportivo. Mas colocar Luís Santos como paladino da dinamização do “Plano Nacional de Ética no Desporto” nem ao diabo lembrava, só mesmo a Miguel Relvas e, por dever de seguidismo, a Passos Coelho.

Os tempos passam, mas, neste jogo de interesses, há dirigentes que conseguem adaptar-se a todos os ventos, como é o caso de Artur Lopes, o jurássico ex-presidente da Federação de Ciclismo, eleito vice-presidente na lista de ruptura, vencedora. Esses são os inteligentes, perigosos por maioria de razões.

mário santosContudo, e com tudo, emerge também uma nova vaga de dirigentes, ambiciosos e preparados, para quem, não duvidem, este ciclo olímpico é tão só de transição, de mudança de paradigma. O futuro escreve-se, há quem adiante, com Mário Santos, o novo jongleur (malabarista? prestidigitador?) do movimento olímpico para as medalhas. E, segundo dizem, sem as hesitações de Fernando Mota, mas com a astúcia política de um príncipe da renascença, sonhado por Maquiavel. Chefe de missão em Londres 2012, há quem garanta já que será chefe de missão no Rio de Janeiro 2016. Querem melhor?

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PS. A Federação de hóquei em campo fez parte do núcleo duro que, a par das federações de canoagem (tida, a priori, como afecta a Fernando Mota, eventualidade que sempre considerei aberrante), ténis de mesa, ciclismo e voleibol, lançou a candidatura vencedora. Garante, assim, um pódio importante na administração olímpica, a da presidência do Conselho Fiscal, que escrutinará o uso dos dinheiros públicos e privados por parte do COP. Afirmo aqui que a parte dos meus impostos a ser aposta ao desporto se sente segura nas mãos de João Paulo Brito da Silva, antigo vice-presidente da Federação de Hóquei e actual vice-presidente do Sport Clube do Porto. Homem íntegro, profissional competente, adepto que segue o hóquei, faça chuva ou faça sol, idóneo e vertical, com experiência do que é gerir dinheiro que aparentemente não chega para as necessidades, mas há que inovar porque o desporto amador não pode parar, tenho a certeza de que deixará a sua marca neste ciclo olímpico.

Comments


  1. Escrevi: “O futuro escreve-se, há quem adiante, com Mário Santos, o novo jongleur (malabarista? prestidigitador?) do movimento olímpico para as medalhas. E, segundo dizem, sem as hesitações de Fernando Mota, mas com a astúcia política de um príncipe da renascença, sonhado por Maquiavel. Chefe de missão em Londres 2012, há quem garanta já que será chefe de missão no Rio de Janeiro 2016. Querem melhor?”
    A resposta:
    http://www.noticiasaominuto.com/desporto/61757/m%C3%A1rio-santos-chefe-da-miss%C3%A3o-portuguesa-nas-ol%C3%ADmpiadas-do-rio#.UWaKfKI07Yc

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