Democracia

O Público de hoje traz depoimentos de 55 personalidades sobre aquilo que melhorariam na democracia portuguesa. Muitas das declarações não passam de colagens de banalidades românticas, ingénuas e tardo-adolescentes. Outras, pelo contrário, são estruturadas e fazem uma leitura política de um tema naturalmente político.

Serve esta introdução para dizer que, se houve depoimentos mais importantes e lúcidos do que outros, aquele que mais me tocou e melhor põe o dedo na(s) ferida(s) pertence a Gonçalo M. Tavares, e não é “político”, nem “programático”, nem sequer “objectivo”, muito pelo contrário: é metafórico, artístico e literário, na melhor acepção dos termos. No entanto, estas parábolas ilustram na perfeição a situação de “captura democrática” em que vivemos

1 –“O cantor”

Um pássaro foi atingido com um tiro na asa direita e passou por isso a voar na diagonal.

Mais tarde foi atingido na asa esquerda e viu-se obrigado a deixar de voar, utilizando apenas as duas patas para andar no chão.

Mais tarde foi atingido por uma bala na pata esquerda e passou por isso a andar na diagonal.

Uma outra bala atingiu-o, semanas depois, na pata direita, e o pássaro deixou de poder andar. A partir desse momento dedicou-se às canções.”

Muitas pessoas estão a transformar-se em cantores — mas não por vontade própria. E isto é a primeira parte de uma tragédia.

2. Em 2013, nada tira mais liberdade do que o desemprego. A História mostrou, infelizmente vezes de mais, como a taxa de desemprego e a democracia estão ligadas.

“O desempregado com filhos”

“Disseram-lhe: só te oferecemos emprego se te cortarmos a mão.

Ele estava desempregado há muito tempo; tinha filhos, aceitou.

Mais tarde foi despedido e de novo procurou emprego.

Disseram-lhe: só te oferecemos emprego se te cortarmos a mão que te resta.

Ele estava desempregado há muito tempo; tinha filhos, aceitou.

Mais tarde foi despedido e de novo procurou emprego.

Disseram-lhe: só te oferecemos emprego se te cortarmos a cabeça.

Ele estava desempregado há muito tempo; tinha filhos, aceitou.”

(de “O Senhor Brecht”)

É para isto, para descobrir as perguntas e as metáforas certas, que servem artistas, intelectuais e a gente da cultura. Ignorar, desprezar ou menosprezar a sua importância é a primeira perversão de uma democracia e é isso que fazem os poderes que nos governam, tal como as populações acarneiradas que os seguem.

Comments

  1. adelinoferreira says:

    O sr Brecht tambem disse:
    Ouvimos dizer que és um homem bom!
    Que não te deixas comprar,mas o raio que
    inceideia a casa tambem não pode ser comprado.
    És honesto dás a tua opinião,mas que opinião?
    És sábio, mas para quem?
    Não tens em conta os teus interesses pessoais.
    Que interesses pessoais defendes então?
    És um bom amigo,mas serás que és amigo da
    gente boa?
    Agora escuta,sabemos que és nosso inimigo e
    por isso vamos-te encostar a um paredão.
    Mas tendo em conta as tuas qualidades pessoais.vamos encostar-te a um bom paredão e matar-te com uma boa bala,numa
    boa espingarda e enterrar-te com uma boa pá
    numa boa terra!!

    oh Palavrosaureo,hoje já te dediquei 2 poemas, não mereces mais!!!

    siais.
    Que interesses defendes então?
    És amigo! mas serás que és amigo da gente boa?
    Agora escuta,sabemos que és nosso

  2. adelinoferreira, deve haver por aí uma confusão no palavreado e no destinatário

    • adelinoferreira says:

      A.Pedro, peço desculpa, não sei porquê o
      poema (do homem bom,de Bertol Brecht)
      não foi todo publicado e tinha um destinatario cujo nome era Palavrosauro.

  3. https://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=AmN207z0Jjw

    Não percebo como é que ainda apregoam que vivemos em Democracia.

  4. Não creio que vivamos uma Democracia , muito menos uma socie-
    dade justa , isso para mim é utopia .
    Julgo que vivemos numa Ditadura , mais cruel que antes do 25 de
    Abril , que nos explora cada vez mais , porque o Povo Português é
    cobarde , só tem força na língua , só é capaz de criticar , dizer e desejar mal ao próximo .

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