O grande deambulador

Diz-me o dicionário que não existe a palavra “deambulador”. Nem sequer “deambulante”, embora admita o galicismo tão baudelairiano “flanador”.

Começo por esta constatação para que não me cobrem o uso, como verão frequente, de uma palavra que o dicionário não consagra. Proponho-vos que, entre o título de lá de cima e o ponto que há-de pôr fim a estas linhas, exista, só para nós, a palavra “deambulador” e exista até, enquanto conceito também muito nosso, a figura do «grande deambulador».

O deambulador é, coisa óbvia, aquele que deambula. Quer dizer, aquele que caminha pelas ruas sem rumo certo, porque o seu percurso não é apenas pelo empedrado, pelo asfalto, pelo passeio (deambular é tão citadino, não é?), mas é, sobretudo, um caminho interior, porque, em verdade vos digo, não há rua que trilhemos que não corresponda a um caminho feito também por dentro.

E assim o deambulador caminha, recua, dá voltas, detém-se, retoma esse caminho, pode entrar e sair de múltiplos estabelecimentos, pode ir visitando, conforme as ganas que tenha, as casas onde se comem as melhores bifanas ou os melhores pastéis de nata da cidade, pode evitar lugares que lhe trazem más recordações (ou é ele que as leva a esses lugares?), pode dar os bons-dias a quantas caras conhecidas encontre na sua deambulação, pode fazer tudo isto sem que pareça estar inteiramente ali, e é certo que não está porque deambular é outra coisa.

Não ter rumo certo liberta da cansativa, limitadora maçada de ter de chegar a qualquer lado. É certo que por vezes se deambula encerrado no seu próprio labirinto – como os hamsters dos meninos entediados -, cruzando as mesmas ruas, tropeçando nas mesmas pedras, mas há sempre a esperança do encontro redentor, do descaminho que conduza a algo novo.

O deambulador pode deambular a sós, e talvez seja o mais comum, mas também pode fazê-lo acompanhado. Por ruelas, pontes, jardins, estações de combóio, parques urbanos, ao sol, sob uma chuva miudinha, a deambulação conjunta pode ser frutuosa ou acabar de vez com uma amizade frouxa. Os grandes deambuladores podem encontrar na deambulação a fuga aos silêncios pesados, às grandes palavras definidoras de inícios e fins, e aí encontrar um lugar de suspensão das regras que cerceiam as relações, um amplo lugar de liberdade, afinal, ou de silêncio profundo, ou de entendimento sem palavras supérfluas.

Pode passar-se a vida inteira a deambular, coisa que acontece por distracção ou acaso, e pode até consagrar-se toda essa vida a deambular, coisa que já requer intenção e persistência. Os grandes deambuladores vão gravando os seus mapas na pele, numa cartografia minuciosa, de uma precisão que a ciência não entende, perfeitíssimos na sua inexactidão.

As cidades amam os seus deambuladores, não lhes permitem pagar caro pelos erros do percurso, desvendam-lhes segredos que estão para os outros ocultos, abrigam-nos das intempéries e salvam-nos do tédio. E em algum momento da sua deambulação, por mais longo e sinuoso que tenha sido o caminho, oferecem-lhes a graça do achamento.

Comments

  1. Lia Santos says:

    Deambulante existe no diconário. Ao estudarmos a poesia de Cesário Verde e se mergulharmos nas muitas críticas literárias sobre a sua obra, encontramos, por inúmeras vezes, a expressão “poeta deambulador” o poeta que errava pelos becos e avenidas, que absorvia essa realidade pelas sensações e que alternava com curtas deambulações ao seu interior.

    Logo, o uso do vocábulo “deambulador” é normal…e se não fosse, passaria a sê-lo. Somos nós quem renova a língua!

    Ah!….também existe o deambular pelos campos que, indubitavelmente tem mais magia do que por uma paisagem artificial: a cidade.

    🙂

  2. António Fernando Nabais says:

    Concordo. Mesmo que não existisse, bastaria que o tivesses criado. E, de certo modo, criaste-o.


    • Ora ainda bem que aceitaram a minha proposta 🙂
      De resto, “deambulador” faz muito falta, parece-me.

      • Carlos Fonseca says:

        Tanta falta como sê-lo de facto. Tenho o natural impulso do deambulador plasmado no espírito e na pele. Quantas vezes deambulo por aí, fruindo de prazeres que a ociosidade de vadiar jamais proporciona.


  3. Se calhar o nosso mal é deambular demais ou deixarmos deambular
    demasaiado . Provavelmente , em tudo , somos um Povo deambu-lante ou quiça deambulador . No fundo vai tudo dar ao mesmo .
    Estamos tramados por causa da deambulação .


  4. Gosto da palavra, Carla, claro que sim,
    Um grande deambulador, porém, usava outra palavra

    “vadiar é totalmente diferente de passear, pois vadiar encerra em si mesmo o objectivo de vadiar”

    “Toda a gente nasce poeta e uma das formas de criação e poesia é a vadiagem. Temos assim uma cultura de criação de arte, poetas à solta no seu lazer. Mas é preciso saber ser vadio. Arte, Criação, porque o homem não nasceu para trabalhar, mas para criar. É o tal poeta à solta.”

    Chamava-se Agostinho da Silva, um grande deambulador


    • “porque o homem não nasceu para trabalhar, mas para criar. É o tal poeta à solta.”
      Tenho a frase escrita numa das paredes cá de casa. Se é certo que nem sempre me lembro de lê-la, pelo menos o canto do olho adivinha-a.


    • Deambular pode ter parente vadio mas não é a mesma coisa. Esse vadio tem objectivo, um bom deambulador nem por isso, quanto muito anda à procura dele.


  5. Sem dúvida, falha dos dicionários. Viajante/viajador, deambulante/deambulador. Parabéns pela crónica de homenagem à malta que ambula e deambula. 🙂


  6. nenhum dicionário é completo, mas a palavra existe nos bons dicionários:
    http://200.241.192.6/cgi-bin/houaissnetb.dll/frame?palavra=deambulador


  7. Tanta vida, e todos os outros parágrafos, por deambular e esta gente entretida em dicionários.
    Carla, andas a precisar de ter um João (Pedro Machado) ao pé de ti.

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