Um PS dos mais frágeis de sempre, desenhado à vontade de Soares

De Seguro a Passos Coelho, há alguma distância ideológica. Todavia, é insuficiente para garantir alternativa séria, corporizada em modelo e objectivos de governação de que o País carece – de resto, em acto de uma espécie de mimetismo dos masoquistas islandeses, o povo português, tudo indica, permanecerá, por teimosia e culpa, enredado no círculo dos partidos do ‘arco do poder’.

Há dias, vi a reportagem do almoço do 40.º aniversário do PS, na sede do Rato, apenas entre Soares e Seguro. O tom laudatório do patriarca socialista a louvar Seguro foi elucidativo do empenho proteccional ao reeleito secretário-geral do PS. Há afirmações pueris, apenas no aspecto: No fundo, trata-se de juízos intencionais e de uma modalidade de autoritarismo suave na aparência, mas plasmado na determinação do objectivo, semelhante à finalidade do ataque do pérfido felino a dominar a presa. E Seguro é, de facto, presa fácil.

Soares, desde sempre, nunca abdicou da prerrogativa de comandar o Partido Socialista, mesmo quando deslocado para funções incompatíveis com a militância – Presidência da República é um dos casos. Os vergonhosos afastamentos de Vasco da Gama Fernandes e Salgado Zenha são dois actos de ‘vendetta’ soarista que jamais a História deixará esquecer.

Seguro, ‘jota’, pardo ministro de Guterres e sem qualificações para chefiar a governação do País na complexa encruzilhada em que vivemos, é a réplica de um Passos Coelho para quem Mário Soares se chamou Ângelo Correia.

O Congresso do PS tornou límpido o interesseiro entusiasmo de António Costa unido a Seguro, assim como o apego de Francisco Assis ao ex-adversário. Todavia, tudo isto pretende ecoar a melodia de uma nota só, soando, contudo, a falsa. O primeiro ambiciona a candidatura a Belém. Assis contentar-se-á em ser ministro da presidência do CM ou coisa do género.

Integro o número daqueles que desconfiam das capacidades de Seguro, materializadas na mescla errática de social-democracia e neoliberalismo. Afasta-se do perfil de estadista de que Portugal precisa. Está ao nível de Sócrates que, fora outras contas, teve iniciativas de liberalização da legislação laboral que facilitou ao actual governo continuar o agravamento legislativo do Código do Trabalho, bem como das políticas de despedimentos sem justa causa e do trabalho precário – o deputado Pedro Nuno Santos, da ala esquerda do PS, censurou em Santa Maria da Feira este erro do governo de Sócrates.

O problema com que Portugal se confronta tem uma dimensão europeia, é certo. Todavia, tenho enormes dúvidas se será com políticos de fraco perfil e curriculum, como Seguro, que tenhamos voz e estofo para conceber uma estratégia concertada a Sul com vista ao relançamento do nosso depauperado tecido económico. Aqui, como em Espanha ou na Grécia, os diversos “gaspares” condenam milhões de cidadãos ao desemprego, à pobreza ou mesmo à miséria.

É urgente mudar de paradigma e essa transformação apenas se consegue com o PS alinhado à esquerda, respondendo, de forma eficaz, às efectivas e sinistras alianças da direita, como a coligação actualmente no poder.

Eu, no lugar de Seguro, teria pateado Cavaco Silva na sessão comemorativa do 25 de Abril na AR. O opaco secretário-geral do PS, querendo ser PM a qualquer preço, aplaudiu sentado, mas aplaudiu. Como diz a máxima popular: “O gesto é tudo” – o que lhe terá dito o patriarca Soares? … Mistério.

Comments

  1. João martins says:

    Concordo com a comparação de Sócrates com Seguro excepto num ponto: Sócrates tinha e tem carisma, arrebatava as massas….(e lá para o futuro, mais ou menos distante, regressará de fato Armani, discurso medido, ambicionando o cargo de PR). Seguro arrebata…arrebata…..não arrebata. Zero…aquelas palmas no Congresso eram de ocasião, para agradar ao líder. Seguro não convence… parece um actor de uma novela mexicana.É um líder transitório que deveria rapidamente transitar para um outro território bem distante. Pessoalmenta aconselhava umas termas no Burkina Fasso.

    • Carlos Fonseca says:

      A hipótese que levanta também é lógica. Todavia, creio que o António Costa se está a adiantar na maratona presidencial.

  2. Bento Norte says:

    FRASE FATAL: “Só procurarei consensos quando chegar a 1º ministro”. Com uma confissão gaiata, parola e mesmo indecente desta natureza, quem pode confiar um voto que seja a alguém com tal cegueira para se empalhar, que até lá seria capaz de deixar arder o palheiro do sonhado poiso?

    • Carlos Fonseca says:

      É o objectivo de ser PM a qualquer preço; preço, aliás, elevado e a pagar pelos portugueses, principalmente os desempregados, os do trabalho precário, os reformados e activos da fp e os pensionistas do sector privado.
      Tome-se em conta o discurso final do obscuro Seguro, no compromisso de manter a condenação da ‘fadiga de austeridade’ que foi distinguida, por si, com um “aplauso sentado” a Cavaco no 25 de Abril na AR.

  3. xico says:

    Mas em Chipre não era o partido comunista que governava e deixou que os bancos fizessem o jogo dos capitalistas?

    • Carlos Fonseca says:

      Já agora não se esqueça da China e da Coreia do Norte.
      Essa do “se não pensas como eu és comunista”, andei a levar com ela mais de duas décadas. Os adeptos dos partidos do ‘arco do poder’ que aprendam outra e deixem que a liberdade de expressão seja um direito efectivo e legítimo em democracia, sem retorquirem com a estúpida e redutora qualificação de comunista.

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