Eugenismo, ciência de merda e nacional-liberalismo

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Há tempos vi o programa de Anderson Cooper que tratava, entre outros, o tema do eugenismo e sua história. O próprio apresentador repetia manifestações de perplexidade pelo facto de os EUA serem pioneiros do chamado “eugenismo negativo”, que consiste na selecção da espécie humana no sentido de a melhorar, através de esterilização forçada, confinamento ou pura e simples eliminação por eutanásia dos humanos considerados defeituosos e indesejáveis como procriadores. Foi neste país que se fundou o movimento e não na Alemanha nazi que, mais tarde, veio a estudar as práticas e leis americanas no sentido de as aplicarem à sua realidade, ou melhor, aquilo que eles imaginaram ser a sua realidade. O resto é história conhecida.

O termo eugenismo aparece no século XVIII, com Galton que pensava ser possível melhorar a espécie humana através de factores sociais e escolha adequada de pares reprodutores. Estava-se no inicio do fascínio pelo estudo da hereditariedade, e nunca passou pela cabeça do pobre Galton o que aconteceria a seguir, nomeadamente quando esta hipótese mergulhasse no pântano de preconceitos de algumas sociedades que aí vinham. Em muitos países esta teoria teve até aspectos positivos e, por isso, se distingue um eugenismo positivo, frequentemente focado em domínios como o da higiene social e condições de vida das populações.

Em Portugal foi isso que aconteceu, durante a I República. A civilizada Inglaterra teve ilustres entusiastas do eugenismo, mesmo de alguns dos seus aspectos mais sombrios. O próprio Churchil não disfarça a sua simpatia pelas suas teses. Mas quanto ao eugenismo negativo, a primazia dos Estados Unidos da América está fora de dúvida. E não se pense que o movimento eugenista nesse país era protagonizado por sombrios e obscuros bárbaros. Não. Ele tinha entusiastas financiadores como Rockefeller, Harriman e Carnegie bem como suporte “científico” em universidades como Yale, Harvard, Stanford e Princeton! Desde cedo, os emigrantes não anglo-germânicos, isto é, sobretudo povos do sul da Europa e judeus, foram sujeitos aos mais aviltantes maus tratos e discriminação (aos nativos americanos já se sabe o que tinha acontecido).

O mais espantoso é que o pós-guerra, perante os horrores do nazismo, veio arrefecer tais práticas por todo o mundo mas não, surpreendentemente, nos EUA, onde se continuaram a praticar esterilizações coercivas durante as décadas de 60 e 70 (!), até em casas de acolhimento de menores e hospitais públicos, sempre com o racismo, a “melhoria da espécie” e o interesse geral por suporte ideológico. E lá esteve a ideologia de ilustres académicos travestida de ciência a dar o suporte teórico à barbárie com o mesmo entusiasmo com que o Santo Ofício fundamentava com as mais generosas razões teológicas o extermínio dos melhores de nós. Valha a verdade, o valor do fundamento científico dos actos de uns e outros é equivalente.

No século XXI, com a descoberta do genoma humano e a discussão da ética ligada às ciências da vida que desmascarou tais patranhas, os patifes tiveram que encontrar outros alvos e outros modos. Em Portugal já descobriram vários. As “ciências” que agora mandam o baile são as “financeiras”, o que representa um inquietante retrocesso civilizacional, por recaída nas ciências ocultas e numa espécie de darwinismo social para idiotas. Ora, os perseguidos de agora parecem ser, em particular, os doentes, os reformados, os pensionistas e os que, tendo ultrapassado os cinquenta, insistem em procurar emprego, em trabalhar. Para bom sucesso das políticas criminosas do governo, para que o país sobreviva, para o bem comum, é preciso eliminar len-ta-men-te, essa perniciosa franja social.

Como aconteceu noutras causas que tais, urge que se erga um movimento suficientemente bronco e entusiasta que agite a causa, já que os mais alfabetizados têm alguma repugnância em ser vanguarda de tal coisa. Já existe. Dirige a JSD e declarou uma guerra geracional aos velhos (“peste cinzenta”, chamam-lhes eles), cujo papel, segundo parece, tendo vivido o suficiente, é o de morrer a bem das contas públicas. Como todos os cobardolas, o puto remelento que os tem liderado, propõe formas legais de extermínio, já que os alvos não parecem dispostos a voluntariar-se. E, já que não vale a pena esterilizá-los ( se alguns deles o tivessem feito de livre vontade a tempo, talvez alguns destes palermas não tivessem nascido…), esganam-se devagar ( roubo de rendimentos, falta de apoios sociais, médicos… ) esperando que alguns deles, com o desgosto, partam por livre vontade.

Alguns vos farão – ou já fizeram – a vontade, microcéfalos camisas-laranjas. Mas a generalidade dos velhos irão olhar-vos com um misto de asco, piedade e culpa – porque deles vindes. E não estarão dispostos a comprar a luta de gerações pela qual que os vossos mandantes querem substituir o verdadeiro conflito social. Não porque tenham medo de vós, mas porque a maioria já comeu o pão que o amassou – e, em grande parte, fê-lo por vós! – e sabem ser muito duros para os vossos dentes. E por compaixão. Para com todos, já que este tipo de insanidade é a ultima coisa de que a nossa gente precisa.

Comments

  1. MAGRIÇO says:

    Um retrato fiel da “América” que muitos continuam a idolatrar.
    Robert Louis Stevenson interpretou correctamente o resultado deste projecto de saneamento antropológico na sua obra “Dr Jekyll and Mr Hyde”


  2. O novo argumentário, o argumentário do sec. XXI é “Os recursos naturais e o excesso de população”, não chega para todos dizem!
    Baseados no conceito de que a existência humana transita entre 2 estados, o de produção e o de consumo, ou seja o Homem quando não está a produzir está obrigatóriamente a consumir.
    E logo na era da abundancia e do hiper-desperdicio.
    Não chega para todos com este paradigma, mas preferem reduzir a população a mudar o sistema.

  3. Fernando says:

    As elites não odeiam apenas os mais escuros, ou os menos loiros, eles odeiam todos, se nós vermos a história mundial desde egípcios, a Roma, aos impérios coloniais, ao império soviético, e agora ao chamados neoliberais há sempre adjacente à propaganda o ódio (+- disfarçado) a um ou mais grupos da população, e isto é enquanto o ódio a um ou mais grupos minoritários funciona como ferramenta de manutenção do status quo, quando deixa de funcionar, eles entram em modo de auto destruição, vejam o final da Alemanha Nazi onde os facínoras até mandavam as crianças e velhos combater, os Nazis (soviéticos, etc) sempre odiaram o seu povo, sempre!!

    Nós estamos a assistir à auto-destruição deliberada, não me farto de repetir, a destruição da economia É DELIBERADA mas desta vez pelas mãos dos chamados “neoliberais”.
    E também não me farto de repetir, os “neoliberais” NÃO são LIBERAIS, eles não odeiam o estado (como querem fazer crer), eles amam o estado e o usam para destruir DELIBERADAMENTE a economia e concentrar o poder nas mãos dos oligarcas.
    No fundo os neoliberais são apenas mais uns a juntar ao lote de genocidas…

    A única forma de combatermos os extremismos das elites (de direita, ou de esquerda) é educar a população consoante os valores da liberdade, e compreender como funcionam as estruturas de poder. Enquanto houver uma espécie de glorificação da ignorância (nos media acontece constantemente) vamos continuar a ser abusados pelas elites…

  4. adelinoferreira says:

    O mais importante está dito!
    Hoje valeu a pena andar por aqui!

  5. nightwishpt says:

    “Rockefeller, (…) e Carnegie”
    Estou estupefacto, em que é que essas duas pessoas não foram bestas autênticas?

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