Arena e óculos? ― arena para os óculos?

http://bit.ly/126rPGe

Não tenho muito a acrescentar àquilo que tenho dito e escrito sobre alguns dos temas que Malaca Casteleiro apresentou anteontem em comunicação, na Assembleia da República. Poderei mais tarde (se for facultada a gravação da audição e se considerar que esta nos traz factos novos e relevantes) voltar à carga, para tecer outros comentários.

Será, contudo e porventura, pertinente recordarmos que, ao contrário daquilo que, estranha e frequentemente, se diz e se escreve, touro e toiro, cobarde e covarde, camionete e camioneta, equipe e equipa, controle e controlo não são duplas grafias, como já tive a oportunidade de escrever, como já foi debatido e como poderei esclarecer alhures, se necessário. Aliás, Malaca Casteleiro tem uma visão bastante peculiar (em latim, sui generis) deste conceito: recordemos que, no Preâmbulo do VOLP da Porto Editora, Malaca Casteleiro considera que “a questão da dupla grafia é, aliás, recorrente na história da língua portuguesa”, dando como exemplos olho /óculo, areia /arena, entregado /entregue ou imprimido /impresso (p. 11)…

No final da comunicação, Malaca Casteleiro revela que

Algumas dificuldades de percurso prendem-se mais com o facto de terem aparecido vocabulários ortográficos diferentes com divergências em relação à aplicação do Acordo.

Assim, de repente, o primeiro exemplo que me ocorre é o de ‘co-herdeiro’. De facto, o AO90, negociado por Malaca Casteleiro, estipula na base Base XVI, 1.º, a), que «nas formações com prefixos (como, por exemplo: […] co-, […] só se emprega o hífen nos seguintes casos: Nas formações em que o segundo elemento começa por h: […] co-herdeiro»; contudo, no VOLP, com orientação científica de Malaca Casteleiro, aparece-nos uma insólita e imprevista dupla grafia ‘coerdeiro’ (p. 156) e ‘co-herdeiro’ (p. 157). Em vez de “vocabulários ortográficos” em abstracto, Malaca Casteleiro poderia ter dito

Algumas dificuldades de percurso prendem-se mais com o facto de ter aparecido o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Porto Editora, com orientação científica da minha responsabilidade, em que aparecem divergências em relação à aplicação do Acordo, de que sou responsável e no qual participei, como ainda há pouco recordei

e ficavam os senhores deputados (mais) esclarecidos.

Post scriptumConfesso que fiquei perplexo com este comentário de Malaca Casteleiro: “Estou convencido, aliás, de que a tendência para a supressão das consoantes mudas nestes casos de dupla grafia [sector/setor e telespectador/telespetador], ainda persistentes na norma culta, será acentuada com o tempo, segundo a lei do menor esforço, tão presente na oralidade do português lusitano”. Persistentes? Lei do menor esforço? Como disse, confesso que fiquei perplexo.

Comments

  1. Iggypop51 says:

    Não pode comparar touro /toiro por ambas correctas, com equipe/equipa sendo k só equipa é Português.


    • Touro e toiro, ambos formas correctas não são exemplo de duplas grafias, mas de história da língua portuguesa, como ensina o Prof. António Emiliano. Têm sons diferentes e, por isso, grafias diferentes.
      De dupla grafia será exemplo sector/”setor” – a mesma palavras, com o mesmo som.

  2. palavrossavrvs says:

    É uma dor de alma ter de levar com o Velhaca Pasteleiro. Pobre Portugal! Temos almas peregrinas a ‘reformar’ perverter o que se deveria deixar ficar quieto para não estragar. Quem dera o Velhaca se dedicasse exclusivamente ao cultivo de tonescos e à caça de gambuzinos!

    • vou ali fazer uma natada e já volto... says:

      é verdade é berdade

      Pedro F22/04/13, 09:58

      Ola,
      Vou pegar em 2 pontos que não são o essencial da sua argumentação mas que me parecem importantes.

      1) Quanto ao pagamento aos médicos não ser uma consequência da oferta e procura, como seria se o mercado fosse envadido por médicos? Isto podia ocorrer por aumento das vagas nas faculdades já existentes ou abertura de novas. Afinal de contas ouvimos diversas vezes que temos falta de médicos, embora a respectiva ordem se preocupe cada vez mais com um possivel desemprego no sector. Com descidas de preços no sector privado (onde paga de 50€ a 60€ por uma consulta de 10′ com um médico que só está a usar o seu tempo e conhecimento e nenhum instrumento de trabalho por mais barato ou caro que seja), o sector público continuaria a pagar os mesmos salários?

      2) Devo dizer que não sei se compreendi tudo o que queria dizer quando se centra na (im)possibilidade de se despedir funcionários públicos.
      O que entendi foi que essa impossibilidade serve para que não se possa despedir pessoas competentes para colocar no seu lugar o primo/amigo de alguém.
      Primeiro devo dizer que isso também impossibilita que se despeça alguém incompetente para colocar no seu lugar uma pessoa mais apta. Depois podemos dar o exemplo dos professores. Vamos já assumir que a competência é medida em anos de serviço. Assim nos concursos de professores quem entra são estes mais ‘competentes’. Mas anualmente não temos apenas o concurso nacional de professores, temos também as ofertas de escola, onde os directores dessa escola são livres de escolher outras ‘competências’ que podem ter efeito eliminativo. Há assim várias possibilidades de consguir dar emprego a um amigo/conhecido

  3. Pedro says:

    Qual é a diferença entre touro / toiro, camionete / camioneta e coisas como setor / sector, espetador / espectador? Nenhuma.

    • Iggypop51 says:

      Touro e toiro é igual. Camionete ou equipe como substantivo ñ é Português. É camioneta.

  4. Carmen de Carvalho says:

    A diferença é umas palavras são português, digamos, clássico, pois evoluíram das línguas que formaram a língua portuguesa e outras são estrangeirismos introduzidos recentemente e adaptados. Touro e toiro pertencem à primeira categoria, camionete/camioneta, equipe/equipa, etc., são estrangeirismos, adaptados devido à adopção generalizada que as levaram a ser incluídas na língua.

    • Iggypop51 says:

      Equipe e camionete não é português. Sendo adaptados, ñ mais existe o original estrangeiro.

  5. anon says:

    parabéns pelos seus posts e continue assim.
    eu gosto muito.


  6. Valadas, portanto, a respeito de “grafias duplas”, os filólogos estão todos errados mas vc está certo. Nos filólogos inclui-se, obviamente, a senhora que cita assim como o meu desacordista preferido, António Emiliano, que diz que com o AO introduziu quase tantas “duplas grafias” como palavras.

    E por falar em mundos ao contrário, é interessante a sua perplexidade face à seguinte referência do professor Malaca Casteleiro: “a tendência para a supressão das consoantes mudas […] será acentuada com o tempo, segundo a lei do menor esforço, tão presente na oralidade do português lusitano”. E a partir daqui, aproveito e adapto algo que não é da minha autoria e que está por publicar:

    Entre as caraterísticas fundacionais e evolutivas da LP estão precisamente a hiatização e a eliminação das sequências consonânticas herdadas do Latim. Exemplificando:
    contractus>contra’to
    adquisitio > a’quisição
    consonante >conso’ante
    somnus > so’no
    septem > se’te
    actualis>a’tual (este que nos chega com cem anos de atraso)
    e várias centenas de outros.

    Por vezes, a “lei do menor esforço” (a que o professor Malaca Casteleiro se refere e que o Valadas não percebe) foi ao ponto de o Português ter eliminado silabas inteiras do étimo latino original, como, por exemplo, em digito>de’’do, septimana > se’’’mana, palatio>pa’’ço.

    Esta caminhada pacífica do Português através da eliminação das sequências consonânticas foi contrariada por eruditismo e presunção ortográficos entre os séculos 16 e 19, o que fez com que palavras que se escreviam e pronunciam sem sequência consonântica retrocedessem para usos com sequência consonântica; exemplos: receição>recepção; aspeito>aspecto.

    Como a grande maioria das pessoas percebe, é isto que o professor Malaca Casteleiro muito acertadamente, como sempre, se referem e este é um assunto pacífico entre os estudiosos da evolução do Latim ao Português.


    • Parece vossemecê cheio de razão mas falha o alvo.
      O caso das consoantes que o tal Malaca procura a todo o transe decepar do Português é o das que têm valor diacrítico. A sua prolação ou emudecimento em si mesmas não são tidos em conta porque o fito é a tábua rasa, mesmo que haja gente que as pronuncie, como no caso de ‘secção’, p.ex.; que lógica terá grafar ‘seção’ quando inúmera gente pronuncia invariavelmente ‘secção’?
      Foi este absurdo que o Acordo de 45 sabiamente evitou e que, afinal, trouxe o cê de aspecto de volta a Portugal porque pronunciado no Brasil, sem qualquer problema.
      Ora a tenção do tal Malaca é de realmente varrer tudo o que seja consoante que no mínimo oscile na pronúncia, provavelmente dum fezada que tem em que um dia se deixarão todas de elas de dizer. Descura entretanto que o génio da língua não é o mesmo em todos os países e que as variáveis que fazem o idioma correr no tempo e no espaço são uma lotaria, mas, não obstante, insiste em estender além do limite a supressão dos grupos consonânticos todos do Português. Que espera ele? Que elas caiam todas, cá e no Brasil, e o Portugues se unifique pela engenharia linguística que ele leva a cabo inspirado no seu modelo científico da “lei do menor esforço”?!
      Ora, quanto já foi feito há mais de cem anos por Gonçalves Vianna em relação aos grupos consonânticos, é quanto se podia fazer; foi com isso que escrevemos já ‘vitória’ e não ‘victória’ ou ‘fruto’ e não ‘fructo’.
      Para justificar a sua criminosa inconsciência estribava-se até aqui o tal Malaca no argumento da unificação ortográfica, mas deve ter dado conta entretanto que do seu labor foram mais mais os casos de divergência gráfica que recebeu nas ventas do que as unificações que embolsou. Há-de ter sido da sua própria índole preguiçosa que ele se agora, pois, lembrou da lei do menor esforço. Mas nem essa sabe usar como argumento.
      A lei do menor esforço nota-se no Português, sim, mas antes de mais na metafonia, esse fenómeno de elevação do timbre das vogais (fecha-se mais a boca ao falar) quando a tónica se adianta na flexão lexical (cása / câsar; pórta / purtão). E nota-se na tendência de elidir vogais finais que choquem com a vogal inicial da palavra seguinte.
      É isto por demais conhecido dos estudiosos do idioma há séculos. Pois por assim ser e se saber é que se mantiveram estas consoantes etimológicas em 1911 e em 1945, apenas e só nos casos em que influíssem no timbre da vogal precedente e, por extensão, em palavras da mesma família, com uma lógica simples de manter o sistema ortográfico coerente. É toda uma lição dos melhores mestres que o tal Malaca estupidamente despreza. De procurar (sabe-se lá porquê) levar a cabo a razia completa dos grupos consonânticos é que bolçou já aí aberrações como ‘tato’ emparelhando com ‘intacto’, ’epilético’ com ’epilepsia’ e por aí em diante. Que lógica há num sistema ortográfico assim? Que ideia formaremos da inteligência que o concebe?
      Deve ser da lei do menor esforço do tal Malaca que tiramos a resposta. A corroborá-lo aí tivemos o dicionário da Academia…
      Enfim!…

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