O Jornalismo e o sensacionalismo – 2

A discussão é interessante e o diagnóstico não se esgota nas visões representadas por estes dois artigos. Nem pode, talvez, ser desligada da discussão sobre o declínio de outros “campos” próximos do jornalismo, como sejam a política tal como é hoje praticada. Diria que jornalismo e política, outrora pilares essenciais da democracia, estão hoje em crise e com eles  também a democracia  está em criseEstrela Serrano

Obviamente, a discussão não se esgota nestas duas premissas apresentadas tanto por mim como pelo Nuno Ramos de Almeida. Aproveitando para agradecer a Estrela Serrano tanto a citação como o contributo para a análise do tema.

Eu não afirmo, taxativamente, que o declínio do jornalismo deriva da força da internet. Considero, isso sim, que uma parte dos seus consumidores se limitou a migrar de plataforma, se assim se pode dizer. E concordo, quando Estrela Serrano coloca mais um problema em cima da mesa: o declínio do jornalismo não pode ser analisado esquecendo o declínio de campos “conexos” e exemplificado pela autora com a política. Eu diria, perdoem-me o atrevimento, que existe mesmo uma relação directa.

O jornalismo é hoje, como tudo o resto, um produto do e para o mercado, sujeitando-se, enquanto tal, às regras que ele dita. A procura e a oferta. Ora, o jornalismo está com problemas no campo da procura. Vamos ao caso da chamada imprensa escrita em versão papel (e volto a ser atrevido).

Quando o consumidor passou a abster-se de pagar por este produto na forma e formato ditos tradicionais (encontrando produtos potencial e aparentemente similares no digital) o declínio nas vendas levou, numa primeira fase, a uma concentração (a meu ver excessiva) ditando um problema na oferta. No caso português, como ainda ontem referia um velho amigo, a imprensa escrita ficou na mão de menos de meia dúzia de empresas e o mesmo se diga na distribuição e na impressão. Ou seja, o mercado livre, verdadeiramente livre, passou a ser algo virtual. Simultaneamente, os consumidores (salvo raras excepções) dividiram-se em dois grandes grupos: os que procuram a informação de forma instantânea, multiplataforma e gratuita no digital; e aqueles que continuaram a adquirir em formato papel. Nestes últimos, ficaram dois grupos ( e estou a simplificar e a ser, quiçá, exageradamente simplista): aqueles que mesmo tendo acesso ao digital continuam a preferir o papel ou, pelo menos, não o dispensam (uma espécie de “mercado da saudade”); e aqueles que são consumidores do chamado sensacionalismo.

Ora, a minha discordância com o NRA está precisamente no facto de eu não considerar que a “culpa” seja do sensacionalismo. Não foi ele que afastou os consumidores. Foram estes que se afastaram do jornalismo “não sensacionalista” em formato papel e rumaram ao digital. É por isso que o Correio da Manhã não perdeu leitores e se olharmos para os números dos últimos anos (se neles se pode confiar é outra história que não é chamada ao caso) até continuam a aumentar enquanto o Público e o DN os perdem de uma forma…eu diria…agressiva.

Obviamente, eu não ignoro que a Visão, a Sábado e o Expresso, seja em separado ou em conjunto, representam números bastante positivos de vendas. Porém, apenas me estou a referir aos diários. Tenho para mim, e vale o que vale, que será muito complicado, para não dizer praticamente impossível, manter como diários em papel jornais que pretendam praticar um jornalismo que se afaste do chamado “sensacionalismo”.

Quando Estrela Serrano aponta o declínio do jornalismo como gémeo do declínio da política, e volto a sublinhar a minha concordância com esta visão, não posso deixar de considerar, mesmo aceitando que possa estar errado, que a política está a adaptar-se mais rapidamente ao potencial do digital. Direi que despertou mais tarde porém, adaptou-se primeiro. O seu lado camaleónico ajudou.

Comments


  1. Muito obrigada, Fernando Moreira de Sá pela sua interessante reflexão sobre o meu post.. Acrescentei mais algumas “dicas” à discussão aqui: http://vaievem.wordpress.com/2013/08/23/visoes-sobre-a-crise-do-jornalismo-2/
    Cumprimentos
    Estrela Serrano

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