O Dia Seguinte…

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O jornalista Miguel Carvalho fez uma reportagem sobre a cidade do Porto (Como o Porto conquistou o Mundo) para a revista Visão. Já aguardava ansioso pela dita desde julho/agosto, altura em que entrevistou Melchior Moreira (Turismo do Porto e Norte de Portugal) na esplanada do Porto Cruz e no restaurante do Hotel Carris.

 

As minhas expectativas eram, confesso, elevadas. O Porto está mesmo na moda, o Miguel Carvalho conhece bem a cidade (é um tripeiro) e basta percorrer as ruas do Porto para perceber a quantidade enorme de turistas. Gostei, gostei bastante. E fiquei a saber que me falta conhecer tanto desta minha cidade. Tanto!

 

O problema será “o dia seguinte”.

Sim, o dia seguinte. Neste momento tanto o Porto como Lisboa estão na moda. O Porto demorou muitos anos para o conseguir. Se olharmos com seriedade para trás, somos obrigados a afirmar que tudo começou em 2001, com a Capital Europeia da Cultura. Sim, este Porto que hoje estamos a celebrar foi pensado para 2001. Infelizmente, nessa altura, foram mais olhos que barriga e queriam fazer em três/quatro anos algo que, forçosamente, teria de levar uma década a conseguir. Como hoje se verifica. Era preciso ter um Aeroporto em condições. Era fundamental entrar na rota das “low-cost” e era essencial existir uma geração de homens e mulheres preparados para arriscar. E tal não se faz de um dia para o outro.

 

Ora, um processo de desenvolvimento como este e nesta cidade, com estas “gentes” tão especiais, se demorou uma década, durará, pelo menos, outro tanto. Se nada se fizer para segurar esta verdadeira “galinha dos ovos de ouro”, durará apenas uma década. Se continuarem a nascer bares, restaurantes e hotéis/hostels como cogumelos, dificilmente se consegue mercado para todos. Sobretudo quando, como se verifica, estamos a viver uma crise geracional sem precedentes na nossa história mais recente.

 

Um país que não consegue absorver os seus talentos universitários. Um país que está a expulsar os seus melhores. Um país que continua a duas e três velocidades, é um país a caminho do desastre. Sobretudo, do desastre social. O mais perigoso de todos.

 

Os turistas que nos visitam, aqui no Porto, ficam encantados. Mas é preciso mais. É preciso mais diversidade territorial. É fundamental que o resto da região acompanhe esta verdadeira “revolução”. É preciso que o Douro tenha uma verdadeira centralidade. É preciso que o Minho continue a ser puxado (e bem puxado) pelas suas duas capitais (Braga e Guimarães). É preciso que o Gerês seja devidamente cuidado e melhore a sua qualidade hoteleira. É fundamental puxar por Trás-os-Montes – é uma vergonha este constante adiamento do Túnel do Marão, uma verdadeira vergonha nacional e só possível num país centralizador e castrador como o nosso. Estamos a falar de uma obra que está a mais de meio, que serve três regiões fundamentais (Douro, Trás-os-Montes e Douro Litoral) e que será essencial no desenvolvimento turístico do Interior Norte.

 

É preciso olhar para o que está a acontecer a Madrid (ver aqui) e que já aconteceu em Barcelona (a Barcelona dos anos 90 e dos primeiros anos deste século já partiu para parte incerta). Sou um optimista por natureza mas, olho para Madrid e parece que estou a ver Lisboa daqui a poucos anos. Basta continuar esta “matança” nacional de postos de trabalho. Basta continuarmos alegremente a empobrecer o país e temos o caldo entornado. É que no Porto demorou uma década e foi construído a braços e pernas do sector privado e está a ficar como um verdadeiro “vintage”. Em Lisboa, não. Foi na base de investimento público, de criação artificial de postos de trabalho no “polvo” público. É que as receitas dos impostos, fruto de políticas de verdadeiro esbulho fiscal, só duram no curto prazo. Já a partir de 2014 vamos ver, estou certo, a sua queda. É que os pobres pouco ou nada podem pagar de impostos e como Portugal está a empobrecer rapidamente…

 

É só fazer as contas.

Comments

  1. Joaquim Carlos Santos says:

    Gosto do Miguel e o seu ângulo é o meu.

    Há um abismo entre quem fica para trás, estagnado, como um destroço da crise, e os que se nutrem desse Porto multivisitado pelo ano fora. Estive em Guimarães e em Braga e estas cidades estão igualmente repletas de turistas. Cidades arrumadas, organizadas, encantadoras.

    Lisboa está cheia de vícios. Provavelmente “arderá” num processo de transformação inexorável. E será Fénix.


  2. O Fernando ia bem até à parte da balela ideológica e do regionalismo um tanto bacoco. O êxito do Porto deve-se obviamente ao investimento público. Sem o novo aeroporto, o Metro, a Porto 2001, a casa da Música e até o novel terminal de cruzeiros nada seria possível. Até a movida nasce nas ruas previamente reabilitadas com dinheiro público. Ainda me lembro da contestação serôdia das obras levada a cabo pela inefável dona Laura dos comerciantes. Qualquer economia avançada depende do nível de investimento público. Eu sei que custa muito aos neotontos, mas vida económica tem uma chata propensão para ser keynesiana. A diferença com Lisboa está apenas no nível de investimento, público, que foi por lá muito superior. Quanto ao resto: concordo. 😉


    • António,

      Provavelmente, admito que seja o mais certo, expliquei-me mal ou o António percebeu mal. Claro que o investimento público (daí o meu elogio à Porto 2001 CEC) foi fundamental. E, nesse caso dou a mão à palmatória, esqueci o Metro que foi e é fundamental em todo este processo (e que José Vieira de Carvalho antecipou com brilhantismo os resultados futuros). Por sua vez, o papel do novo Terminal de Cruzeiros (que já se sente de forma ligeira) vai ser fundamental na manutenção do sucesso do turismo nos próximos anos. A movida nasce em ruas reabilitadas graças à CEC, é verdade e a tal me refiro mesmo que de forma indirecta. Mas, foram os privados que apostaram, que arriscaram. Obviamente, sem a reabilitação (utilizando dinheiros públicos) não seria possível. Pelo menos em 10 anos. É preciso recordar que o quarteirão das artes (Miguel Bombarda) foi reabilitado (apenas em parte) já o movimento dos privados tinha arrancado.
      Como vê, concordo consigo e não existe aqui nenhuma defesa neo/pro/pseudo. O que sublinho e onde sinto a diferença com Lisboa é no papel preponderante dos privados no caso do Porto. Dos privados, da Universidade e de um conjunto de gerações (malta que está na casa dos 40, 30 e 20) de excelência.
      Apenas isso. Um abraço.


  3. Concordo com o texto na sua quase generalidade, mas queria deixar duas notas: 1, o Minho não se resume a entre-Ave-e-Cávado, mas também à zona entre Lima e o rio que lhe dá nome, pelo que Viana tem de ser considerada igualmente como capital regional (como bem lembrou Ricardo Rio na discurso da sua eleição); 2, o turismo e a “movida” são grandes apostas que há que manter, mas não esquecer que uma cidade é mais que uma fonte de lazer entretenimento e cultura; não esqueçamos que o Porto é essencialmente uma cidade comercial, fonte de inúmeros grupos empresariais, e que cresceu precisamente pela diversidade da sua economia.


    • João,

      Sim, não esquecer Viana. como não esquecer o turismo vindo do outro lado da fronteira, da Galiza (e esse não depende das low-cost mas sim das auto-estradas que, fruto da confusão para pagar as portagens, caso da A28, tanto galego afastou da nossa região).
      O lazer/entretenimento/cultura são, na sua medida, factores comerciais da cidade. No tocante ao sector empresarial/industrial, ele fugiu para a Maia, Matosinhos e até Gaia. Ora, se se olhar para um Porto real, temos que esses concelhos são, igualmente, Porto. Com ou sem referendo, com ou sem fusão administrativa. São, ponto final. E é neles que temos o Aeroporto (Maia), Leixões (Matosinhos) e as Caves (Gaia).


  4. Afinal não discordamos assim tanto. Lisboa está mais habituada a que seja o estado a fazer tudo, Mas também existe por lá muita iniciativa privada. E quanto a hostels, até tem os melhores do mundo. Mas facto insofismável, em qualquer dos casos, é a importância do investimento público bem pensado, direccionado a sectores com potencial e reprodutivo. No Porto, talvez pela tradicional escassez do mesmo, esse desiderato foi mais bem alcançado. 😉

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