Jornais

Uma das tristezas quotidianas que muitos de nós partilham é a da frustração que se segue aos momentos em que, não resistindo ao síndroma de privação adquirido desde tenra idade, que consiste na compra e leitura – cada vez mais rápida – de jornais, nos deixamos tentar pelas folhas de couve que se vendem sob essa nobre designação.

Só uma coisa é certa: seja qual for o jornal que compremos, arrependemo-nos de não ter comprado outro. Má escrita, servilismo, auto-censura, aldrabice e manipulação pura e dura é o que recebemos em troca do nosso dinheiro. Cada vez mais rareiam os bons jornalistas e mais abundam os pedantes e ignorantes.

Alguns jornais – da manhã… – gostam que os considerem rascas e pensam que ganham com isso (e, céus, não é que talvez tenham razão?); outros, designam-se a si próprios “de referência”, cada vez percebo menos porquê. Nem os raríssimos colunistas de qualidade que vão espreitando aqui e ali compensam o nojo.

Há muito que são as grandes empresas e os seus serventes políticos que, através da manipulação do mercado de publicidade e outras formas de financiamento, decidem quais os jornais que sobrevivem e quais os que se deitam abaixo – lembram-se como foi destruído o honrado Diário de Lisboa? Ainda por cima temos de aturar a sua pomposa defesa dos “critérios jornalisticos”, espécie de categoria metafísica que serve para justificar tudo.

São eles, sem dúvida, que sustentam a manutenção de colunas da autoria de candidatos às próximas eleições. Confesso que foi o olhar para a página maciçamente cheia de prosa untuosa – ainda por cima com fotografia – de um dos candidatos do centrão que motivou este desabafo. O jornal Público deve julgar-se privilegiado por ter Rangel e Assis a escrevinhar, à vez, nas suas páginas. Devem ser estes os tais “critérios”. Confesso, porém, que me assalta um sentimento surdo de vingança quando me pergunto: mas alguém lê aquelas intermináveis xaropadas? E esse sentimento não me abandona ao pensar que alguém ousou tal leitura. Só me ocorre – ao pensar nos seus efeitos tóxicos: bem feito! Mas sei também que, amanhã, qual toxicodependente alucinado, vou voltar a comprar um jornal. E arrepender-me de não ter comprado outro.

Comments

  1. Ferdinand says:

    Eu compreendo o porquê das pessoas verem a desinformação televisiva, é “grátis”, agora, gastar dinheiro em jornais para ser enganado parece-me burrice, a não ser que utilizem os jornais para outra coisa que não seja ler…

  2. Gottlieb says:

    Nem um único jornal seaproveita ? Será culpa dor jornais ?


  3. Só falhou numa coisa, centrão uma ova, extrema-direita.


  4. Nota da Direcção do PÚBLICO sobre colunistas: http://publico.pt/n1633843

  5. niko says:

    são os chamados prostitutos da comunicação

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