O sexo é bom, más são as religiões

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Disse Jorge Bergoglio uma evidência, quem não tem dinheiro não pode fazer filhos à desgarrada, e soltou-se a mais mentecapta e doentia visão do mundo que ainda caracteriza muito catolicismo, falo da contracepção dita natural e do culto da castidade no próprio matrimónio. Como Anselmo Borges explicou aos idiotas, tudo o que advém do conhecimento humano já tem a sua artificialidade, ou trocando por miúdos: se sabemos do ciclo menstrual e do período fértil, e só se truca-truca no infértil, há artifício.

Tenho um fetiche pela História da sexualidade, e delicie-me (ok, foi um orgasmo) com o raciocínio que levou os historiadores a concluírem ter a contracepção passado a prática corrente nos séc. XVII/XVIII, por via dos manuais para os confessores que a partir dessa altura instigam a padralhada a inquirir bastas e agressivas vezes com a senhoras se pecaram truca-trucando com ardis pelo meio que evitassem a reprodução da espécie. Faz-me isto lembrar as tolices actuais sobre a crise da natalidade, mas esse é outro assunto.

Ora é aqui que entra o absurdo: uma religião que prega a obrigatoriedade de o supremo prazer da vida servir apenas para imitar coelhos, não é uma religião, é coisa de tarados a quem o prazer está proibido e, vingativos, não querem invejar os outros. Eunucam-se, e depois querem eunucados os outros. Curiosamente o islamismo sempre teve a atitude oposta, é ler o Jardim Perfumado, sendo obviamente a burca uma clara paranóia de corno em dúvida para com os seus próprios dotes na cama.

É certo que actualmente a ICAR já não vai tão longe, mas o princípio mantêm-se neste absurdo de aceitar a naturalidade que não o é, insistindo no vade retro artificialidade, como se a mecânica ou a farmácia fossem coisa do demo. E mais certo que isto nem é cristianismo histórico, faz parte das aberrações que se seguem à imposição forçada desta religião aos povos, obra e graça do filhodaputa do Teodósio.

Agora, que ainda existam alimárias devotas e praticantes desta aberração, castos ou praticantes apenas no período infértil, por regras ferozes fundamentalistas anti-aborto, ultrapassa a minha capacidade de compreensão do humano. E poderei dizer que é lá com eles, e é, desde que não o preguem às pessoas normais.

Manuel Bernardes, o nosso grande escritor do séc. XVII, clássico dos clássicos hoje perdido em estantes raríssimas, tem um delicioso texto onde tenta demonstrar que o amor supremo é o da casal que acasala mas não se toca, se ama mas não faz amor, tudo por devoção ao altíssimo, um texto belo como só ele soube escrever. O problema é que no intervalo de tanto primor com a pena e vertigem com a palavra, Manuel Bernardes não passava de um padre que todos sabiam doido varrido. Não acabou encerrado numa cela por menos.

 

Comments


  1. E apesar de tudo temos uma freira, Hildegard de Bingen, que escreveu coisas maravilhosas como esta, numa má tradução do latim: Ó cheia de beleza e doçura, Quão forte em ti se deleitou Deus, quando num amplexo quente te envolveu, para que o Filho Seu no teu peito se alimentasse! (peço desculpa pelo mau latim)


    • Portanto, para Hildegard, na longíqua idade média, Deus fez um filho com prazer, pois deleitou-se num caloroso abraço a Maria. É Hildegard, doutora da Igreja, quem o diz!


  2. Sem pesar mais nada, não fora a Teresa de Ahumada ter sido feliz na sua Avila, Bernini não teria feito este orgasmo em Roma.

  3. Rui Esteves says:

    Gostei da definição de Burka – “uma clara paranóia de corno em dúvida para com os seus próprios dotes na cama.”
    E também sou dessa opinião: o tratamento dado às mulheres pelos seguidores de Maomé, mostra uma grande insegurança e desconfiança na fidelidade das senhoras.
    Daí aquela repressão toda.
    Ignoram eles que não adianta fecha-las no armário – se elas quiserem, até com o cabide podem cornear o “dono”.

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