Jornal de Notícias e AO90 prejudicam alunos nos exames nacionais

wp_20150206_08_53_59_pro (1)Esta semana, o destaque do Jornal de Notícias de 6 de Fevereiro foi aquele que se pode ver na imagem.

O JN é um dos jornais que, sem que se perceba porquê, decidiram adoptar o chamado acordo ortográfico (AO90).

Ora, o acento agudo de “pára”, segundo a Base IX, 9º, é para suprimir. No 5.4.1. da Nota Explicativa, os autores do AO90 tentam explicar por que motivo se tomou essa decisão, recorrendo, em parte, ao segundo mantra do acordismo.

A manchete do JN, dotada, eventualmente, de uma vontade própria, contraria, assim, a ortografia adoptada pelo prestigiado jornal. Embora defenda, no mínimo, a suspensão imediata do AO90, percebo que isso tenha de se fazer gradualmente: hoje, a manchete; a notícia local, amanhã.

Os problemas, no entanto, estão no entretanto. Enquanto o AO90 e os seus problemas de aplicação contribuem para o aumento da poluição ortográfica, há jovens que não estão, ainda, ortograficamente maduros, até porque a maturidade, de uma maneira geral, não se atinge na juventude e a ortografia é uma área em que isso não é excepção.

O jovem ortograficamente imaturo poderá, daqui por uns meses, ser sujeito a um exame nacional. Apesar de ter sido informado das novas regras ortográficas, a memória visual que retém das palavras que são publicadas em jornais, televisões ou anúncios pode ser tão ou mais forte que a compreensão das regras.

No exame, sai-lhe um “pára”. O professor classificador será obrigado a penalizar o aluno.

Algum leitor mais despreocupado tenderá a considerar exagerada esta preocupação, porque, afinal, é só uma palavra no meio de muitas outras.

Se o problema parasse em “pára”, seria menos mau. Mas há os contatos, os fatos, os patos e muitos outros erros que, após a imposição descuidada do AO90, se juntaram a outros que já existiam.

Convém lembrar, a propósito, que, no exame de Português de 12º, é possível perder quatro valores só por causa de erros ortográficos. É só fazer as contas.

Comments


  1. Quanto ao pára admito que algo falhou no acordo ortográfico, pois não é possível, frequentemente, distinguir o pára do verbo parar do para, preposição, apenas pelo contexto.
    Mas sublinho que em termos gerais sou francamente a favor do acordo, com o qual se conseguiu, efetivamente, tornar mais homogéneo o português falado pelo mundo.

    • António Fernando Nabais says:

      Em primeiro lugar, o AO90 só está a ser aplicado no Brasil e em Portugal, pelo que não pode ter efeitos no “português falado pelo mundo”, a não ser que o Carlos queira excluir os PALOP e Timor do mundo.
      Depois, gostaria que demonstrasse que a ortografia se tornou mais uniforme. Na realidade, o AO manteve muitas diferenças e deu origem a outras (como “recepção” no Brasil e “receção” em Portugal). Para além disso, contribuiu para o aumento de duplas grafias e, portanto, da confusão ortográfica.
      Que razões haverá, então, para se ser a favor do AO?


      • Não pode ter efeitos no português falado pelo mundo? Portugal e o Brasil representam cerca de 210 milhões de falantes de português. Os restantes são “apenas” cerca de 50 milhões…
        Quanto às duplas grafias, dou-lhe um exemplo: por razões de ordem profissional e pessoal convivi e convivo muito com ourives. No entanto nunca vi nenhum deles confundido ou sequer aborrecido por ouro se poder também dizer e escrever oiro.
        De qualquer forma, opiniões são opiniões e eu respeito a sua, apesar de estar totalmente convencido de que o acordo ortográfico é irreversível, embora esteja sujeito a alterações como qualquer outra norma.

        • António Fernando Nabais says:

          Peço desculpa por demorar tanto tempo a responder-lhe.
          O facto de já haver duplas grafias não justitica o seu aumento.
          A possibilidade de o acordo ortográfico ser irreversível não o torna melhor. Realizar alterações na ortografia deve ser feito de modo ponderado e cuidadoso, o que não aconteceu.

    • Lara Liz says:

      A grafia do Português (mesmo falando só de Portugal e Brasil) tem agora mais diferenças do que tinha antes, pois embora se tivessem anulado algumas (que podem interferir com a fonética), acrescentaram-se várias outras e ainda a confusão incrível das “facultatividades”. Portanto, a “homogeneidade” acima referida por Carlos Dias é pura falácia.


      • Não é duvidar do que diz mas muito gostaria que me apresentasse os dados em que se baseia para fazer essa afirmação…

        • Lara Liz says:

          Carlos Dias: Já vi vários documentos que vão no sentido do que disse no meu comentário, mas como seria demorado e difícil procurá-los todos, copio aqui um comentário que vi há dias numa página FB, onde indica o link de um vídeo que poderá consultar (no minuto indicado, para não perder tempo a ver tudo):

          “Acrescento mais um esclarecimento numérico ao assunto da divergência vs. unificação: segundo as contas de um outro desacordista (Artur Magalhães Mateus), deve haver mais cerca de 660 vocábulos diferentes pelo AO que sem ele. Ver o vídeo a seguir (aos 18’ 10’’) com uma intervenção do Professor António Emiliano que, citando Maria Virgínia Rocha, recenseou as palavras que eram diferentes, entre Portugal e Brasil, antes e depois do AO : https://www.youtube.com/watch?v=iWM5czt_9cU&feature=youtu.be “.

          Espero que isto já ajude alguma coisa, mesmo que não indique (nem podia) todos os vocábulos que foram alterados pelo AO90.
          P.S.: Os cerca de 660 vocábulos a mais diferentes devido ao AO são resultado de contas feitas pelo autor do comentário, a partir dos dados fornecidos no vídeo.

    • António Lourenço de Almeida Paiva says:

      Concordo plenamente

  2. Lara Liz says:

    Resposta a Carlos Dias, já que não há possibilidade de resposta a seguir ao seu último comentário:

    Compreendo a sua sensibilidade, embora a minha seja diferente. Não sei se foi publicado o estudo referido no vídeo. Apenas tenho lido opiniões que vão no mesmo sentido, bem como exemplos de casos esporádicos. Mas pode ir à mesma fonte citada no vídeo.
    Parece-me contudo que há uma certa contradição entre dois objectivos do AO: por um lado, aproximar ou mesmo unificar o Português escrito, por outro torná-lo mais fonético. Ora, é precisamente na fonética que existem as maiores diferenças, logo, torná-lo mais fonético equivale a aumentar as diferenças gráficas e não o contrário. Por exemplo, muitas das nossas consoantes mudas (tiradas pelo AO) são pronunciadas no Brasil, logo, são escritas lá (em concepção, excepção, recepção, espectadores (C facultativo em Portugal pelo AO) e em muitas outras, os brasileiros pronunciam e escrevem o P ou o C).
    O facto de nos terem dito que o AO visava unificar a escrita faz também que muitos portugueses (não apenas os incultos) escrevam “à brasileira”: já vi cópias de jornais ou mesmo do jornal oficial com erros como “fato” em vez de “facto”, “contato” em vez de “contacto” e vários outros em que o C ou o P se pronunciam; às vezes, é tal a febre de tirar CC e PP que até escrevem por exemplo “pato” em vez de “pacto” (nem no Brasil é assim), “seção” por “secção” e por aí fora (em palavras em que o C não é mudo).
    Diferenças na fonética e na escrita da mesma Língua existem também no Inglês (americano, variantes dentro do Reino Unido…), no Francês, etc, e eles convivem com isso sem necessidade de acordos e sem deixarem de ser Línguas internacionais.
    Muito mais incongruências há neste “acordo”, mas não é possível abordá-las todas num simples comentário (além de eu ser uma simples aprendiz, que no início até simpatizei com a propalada “unificação”).


    • Sem qualquer ironia, termino os meus comentários sobre este texto dizendo uma coisa óbvia: o futuro irá fazer sobressair quer os defeitos, quer as virtudes do AO e com certeza que ele terá uns e outros. Aguardemos, pois.
      Entretanto, enquanto ele não for alterado ou revogado, continuarei a tentar escrever segundo as suas regras, com alguns erros ainda porque isto de mudar de escrita na meia idade não é tarefa fácil…

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