Postal de Pamplona (Iruña) #2

o dia em que beijei Hemingway

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Há quase 20 anos que não vinha a Pamplona, acho que já vos tinha dito por aí. Viemos em 1996, de carro, dpercorrendo toda a costa norte de Espanha, da Galiza à costa Basca, provavelmente a costa mais bonita do mundo (pelo que recordo, mas posso estar enganada, afinal já passaram muitos anos). Muitas cidades nessa viagem, de Renault 4, até Estrasburgo, atravessando toda a França duas vezes e parando muitas vezes pelo caminho, um mês inteirinho na estrada. Tenho saudades desse tipo de viagens mas, principalmente, terei sempre saudades da pessoa com quem as fiz.
Uma dessas cidades, mesmo antes de entrarmos em França, foi Pamplona. Perdão, Iruña. Lembrava-me de pouca coisa da cidade. Tinha melhor memória de termos, depois, atravessado os pirinéus. Ainda as estradas não eram tão boas como agora, mas assim mesmo, sempre, incomparavelmente melhor que as que tínhamos em Portugal. A diferença agora – nas estradas – não é tão grande.
Pamplona ainda não sei como está, verdadeiramente. Apenas estivemos umas horas, ao fim da tarde e à noite. Amanhã vos saberei dizer melhor o que mudou, o que me lembrar que tenha mudado. Mas hoje o dia começou cedo. O destino são as aldeias dos pirinéus, algumas delas, entre o Vale Roncal e o Vale Salazar. Acho um bocadinho mal que levem uma portuguesa a um vale chamado Salazar, claro e proclamo que, se fosse em Portugal, já lhe teríamos mudado o nome, para Vale 25 de Abril. Ninguém vai mudar o nome a este Vale ou ao rio que lhe dá o nome, claro está. E vamos, em três carros. Eu vou num com as outras mulheres, nos outros dois seguem os homens. Gosto desta especialização, às vezes. Mais que colegas de trabalho, algumas, ou quase todas, destas pessoas são amigas. Daqueles amigos que vemos só de vez em quando, é verdade, mas isso tem pouca importância, quero dizer, as vezes que nos vemos.
As aldeias dos pirinéus são abandonadas como as nossas, mas as aldeias dos pirinéus não são tão abandonadas como as nossas. Não sei se me entendem. A população diminuiu, continua a diminuir, sobram os velhos, não há crianças, mas tudo está limpo, organizado, recuperado, bonito. A maior parte destas aldeias sobrevive porque está nos pirinéus, exatamente. Onde a neve no inverno atrai os amantes do esqui. No verão as pessoas vêm ver as paisagens. E acreditem que vale a pena. Tal como me lembrava, vale a pena vir de propósito ver estas aldeias, serpentear pelas estradas cheias de curvas, para ficar sem respiração, diante dos grandes montes, dos abruptos vales, dos restos de neve que ainda há nos cumes mais altos. Grandes serras paradas, estas, que eu e os meus colegas espanhois perturbamos um pouco, com as nossas gargalhadas e as nossas vozes altas, num atropelo que geralmente têm aqueles que só se vêem de vez em quando. Paramos em Burgui, depois em Ochagavia. São aldeias que fazem parte do projeto. Umas delas. As de Navarra. Também temos territórios de estudo em Sevilha e em Aveiro. Palpita-me que será difícil, num e noutro sítio (e num deles tenho a certeza) competir com esta paisagem.
No carro, com as mulheres, fico a saber – porque pergunto a uma delas, basca – o que já sabia de Espanha. Pergunto-lhe se Pamplona, se esta região, é também o país basco. Sim, sei que é navarra, mas a língua é a mesma em algumas placas, entre outras coisas. Ela explica-me que administrativamente, já o sabia eu, não são o mesmo território, mas culturalmente sim… quer dizer… quase que sim. Espanha é um mundo muito grande, também já o sabemos. Tenho a dizer que não me importava que fizessemos parte dele… mas também isso já se sabe.
Quando chegamos a Pamplona já são sete horas da tarde. As ruas estão cheias de gente. Está bom tempo. Os pais passeiam crianças. Os amigos passeiam amigos. Sentamo-nos todos numa esplanada na Praça del Castillo, a beber cerveja e a observar as pessoas. Afinal somos quase todos sociólogos. Isso é o que fazemos. Observar as pessoas. Eu toda a vida gostei de me sentar em esplanadas a ver as pessoas, a ouvir as conversas, a imaginar para onde vão, o que pensam, o que querem. Foi assim que me tornei socióloga. Ou que quis tornar-me socióloga. às vezes tenho dúvidas que seja mais que isto. Sentar-me em grandes esplanadas ao fim da tarde, observar as pessoas. Mas depois lembro-me dos ‘pueblos’, das aldeias dos pirinéus e de outros lugares, onde persistem os velhos, onde chegam os turistas, e onde observar já não suficiente, e penso que a sociologia é bem mais do que aquilo que disse ali.
A seguir às cervejas vamos jantar. Tenho a sensação que comi e bebi mais hoje que na última semana inteira. Mas ainda assim vamos comer mais. Vamos ao café Iruña, onde aparentemente vinha o Ernest Hemingway. Há uma estátua dele, em pé encostado ao balcão. Não resisto a abraçar a estátua e a beijar os seus lábios frios. Hemingway há-de ter sido, juntamente com Steinbeck, o meu escritor preferido aos 15 anos. Ainda gosto muito, apesar de já não ter nada mais que ler do Hemingway… aos 15 anos esgotei tudo. Uns anos depois voltei a reler ‘o Jardim do Paraíso’. Continuei a gostar. A estátua não se mexe, claro. Mas eu estou contente e anuncio aos colegas que vou escrever imediatamente um post no Facebook, com a fotografia do beijo e com título de romance: ‘el día en que besé a Hemingway’.
Comemos entre o barulho. Demasiado barulho. Mas estamos em Espanha, não é? Os espanhóis conseguem fazer mais barulho que os italianos, acreditem em mim. O resto da noite, até muito tarde, passamo-la a deambular pelas ruas estreitas da parte velha de Pamplona, entrando em alguns bares ‘rojos’, porque eu ‘soy roja’ e, bom, sou a única estrangeira do grupo e, sabemos, temos que ser simpáticos para com quem nos visita. Não tenho razão de queixa, levam-me à rua mais ‘roja’ de Pamplona e a dois ou três bares ‘rojos’. Quando saímos o lixo cresceu nas ruas. Há bêbados. Há ainda muita gente que conversa demasiado alto. Há música alta que vem dos bares ainda abertos. Ainda não estamos no San Fírmin, mas Hemingway tinha razão, digo sempre o mesmo que ele, afinal somos almas gêmeas… ‘não nasci em Espanha, mas a culpa não é minha’.

Comments

  1. Na adolescência li “the old man and the sea”. Depois descobri algo mais sobre este aficcionado por touradas em Pamplona, quando visitei Cuba, na 1ª vez ainda fumava e saboreei um “puro” na bodeguita del medio. Na 2ª vez que visitei Havana, fiquei-me pelo mojito…

  2. maria celeste ramos says:

    Os alcaides de Espanha têm mais orgulho nos seus lugares incluindo limpeza dos espaços públicos e conservação da arquitectura em geral, do que os autarcas de Portugal – o pais tornou-se do mais porco da europa – hoje constatei isso mais uma vez em Oeiras e na praia e, pior, na esplanada da praia e nem falo na casa de banho E como se não bastasse fazem campanhas de limpeza dos espaços de praias e mata e floresta para os meninos de Escola limpar – e LIMPAM Mas no dia seguinte os adultos e pais dos meninos deitam para o chão limpo por eles, não importa o quê – até garrafas e pontas de cigarro e latas de coca-cola – etc

  3. Tomás says:

    Bom dia. Gostei do seu relatório da minha cidade, Pamplona. Eu sou pamplonica e é assim como chama a minha cidade, Pamplona, embora ela tenha um duplo nome devido as leis linguisticas, se calhar dum modo romântico posso a chamar “A vieja Iruña” a velha Iruña, mas casi ninguém se rifere a ella no meu entorno como Iruña e quando os estrangeiros a chamam assim, tenho uma impressão estranha e não auténtica. Gosteri de fazer uma precissão. Navarra é uma provincia, ou Comunidad Foral muito diversa e rica cultualmente. Só um dez por cento da população fala basco ( sendo tudos bilingues) e sim, partilhamos a cultura basca uns, e outros não. No sud se calhar as pessoas são mais pertas dos riojanos ou dos aragoneses… Atenção a cair no perigo de achar que somos bascos, não o somos. Isso que partilhamos tudos é o facto de ser navarros, duma parte ou de outra, falemos basco ou não o falemos. Como você gosto de observar as pesoas nas explanadas e nas ruas portuguesas. Agora estou em Portela a espera do meu vôo para Pamplona. Tenho saudades de Pamplona. A cidade sim, tem um clima dificil, é dura, fria, somos também duros é frios, mas isso não quer dizer mãu educados. Tenho saudades dos dias de inverno, com o ceu azul e as montanhas no roedor da cidade. A cidade é verde, é provinciana, cinzenta, burguesa, cartesiana, aburrida, clásica, mas também tem o seu encanto que é preciso descubrir. Estou a ver aos portugueses, tão clásicos, tão afastados não primeira impresão, tão formais. As vezes estou perdido, não sei se eles me teem simpatía ou me odeiam. Há alguns que não deixam oportunidade para me dizer que nós somos tão barulhentos e mãu educados e sim, se calhar eles podem ter as suas rações, se não fosse porque vejo em eles, as vezes, comportamentos bem estranhos e… mãu educados… Convidarte as suas casas a jantar e apenas fazer casa a televisão ou convidarte a suas casas para te deixar no living, entanto eles estão a trabalhar no jardim…. Meu Deus, mas que estranhos são as vezes! Outras, sinto me um estrangeiro em casa, porque eles, são também barulhentos ( o barulho pode ser também um problema em Espanha) e as suas festas e a sua vida não é em realidade tão diversa. Portugal, um pais que mora nas costas de Espanha e Pamplona uma cidade não tão distinta do sentir poruguês. Bom, não quisera perder o vôo. Com os melhores cumprimentos, Tomás

    • Olá Tomás. Obrigada pelo comentário e pelo esforço, bem sucedido, em escrever em português! Eu conheço talvez só bascos de Pamplona, por isso… já se sabe que as histórias, as cidades e as pessoas são sempre descritas a partir do ‘lugar’ onde nos encontramos não é? Mas é bom perceber os outros ‘lugares’ e… agradeço-lhe. De resto, aqui entre nós e tal como escrevi no postal, não me importaria nada de ser pamplónica 🙂 … gosto muito de espanha e dos espanhóis e gosto menos de portugal e dos portugueses… Mas, na verdade, tal como diz, somos muito parecidos em imensas coisas. Espero que tenha feito uma boa viagem até Pamplona.

  4. Tomás says:

    Cara Elisabete, eu cheguei a Pamplona sano e salvo e agora tenho saudades de Lisboa e do sotaque melódico português. Gosto muito da língua portuguesa e sinto muita simpatia pelo povo luso. Lembrarei-me de você sempre quando eu estiver no café Iruña. Abraços e boa continuação, Tomás

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