Postal de Sevilla #1

(com fotografia de Madrid)
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Um avião chamado Pardal…

Um comboio. Um táxi. Um avião. Um comboio. Outro comboio. Sevilha finalmente, 10 horas depois de ter saído de casa. Não me canso de dizer que é sempre tudo tão complicado, chegar de Aveiro a qualquer parte, que não entendo por que raio hei-de viver eu ali ou (mais frequentemente) por que raio não foi ainda inventado o teletransporte. 10 horas é imenso tempo. E mal aproveitado, neste caso, sempre entre meios de transporte. Sem sossego.

Agora mesmo devia estar a dormir. Daqui a 4 horas e pouco tenho de me levantar. Mas nada. Nem ponta de sono. Cheguei a Sevilha era meia noite e dez. Exatamente à hora prevista. 12 anos sobre a primeira -e até hoje, única – vez. Há 12 anos era Agosto. Sevilha estava um forno insuportável. Viemos de carro, depois de Ronda e da Ruta de los Pueblos Blancos – bem bonitas. Lembro-me do calor que fazia (muito mais que hoje), do N. ter ido comprar água enquanto eu fiquei sentada à sombra (como se adiantasse). Um homem sentou-se ao meu lado e disse banalidades antes de me perguntar se eu era italiana.Disse-lhe que não, no mesmo instante em que o homem que me importava chegou com a água. O outro desinteressou-se, naturalmente e foi pousar noutro banco qualquer. Talvez tenha conhecido uma italiana.

Hoje no autocarro do aeroporto um jovem de origem e/ou ascendência asiática explicava em inglês a um homem mais velho, de ar nórdico, que os portugueses se distinguem bem porque são morenos e de olhos escuros. ‘Os franceses por exemplo’ – disse ele – ‘têm a pele branca e os olhos muitas vezes verdes’. Eu podia passar por francesa, pensei nas costas deles. Tantas banalidades e estereótipos que se dizem e se ouvem por esse mundo fora! Em todas as línguas! Pensei isto também.

No avião, pequenino, fiquei à janela. Não gosto de ficar à janela. Sinto-me (ainda) mais vulnerável. O avião chamava-se Pardal e isso alegrou-me, porque gosto de pardais. Estava entre a alegria e a vulnerabilidade quando o homem nórdico cruza os seus olhos azuis com os meus, verdes, e me sorri com aquele sorriso (cm um certo ‘je ne sais quoi’) que se faz aos franceses. Retribuí naturalmente com um sorriso de francesa. Não ia agora estragar a lição e o estereótipo. Gosto de pardais, voltei a pensar, e de homens com os olhos azuis.

O Pardal fez um voo impecável. Aterrámos bem, nórdicos, asiáticos, italianos, espanhóis, portugueses e eu – francesa hoje – e à hora marcada. Gosto quando tudo funciona e corre bem. Se calhar, afinal, sou alemã. Apanhei o autocarro no terminal 2 para o terminal 4, no aeroporto de Barajas onde me sinto sempre num poema do Ruy Belo, é evidente. No terminal 4 apanhei o Cercanias para Atocha. O que eu gosto de estações de comboio só é comparável ao que eu gosto de pardais e de girassois e de homens com olhos azuis e de coisas que funcionam bem.

Saudades de Madrid, que a breve viagem e dois cigarros fumados numa varanda da estação de Atocha, não dão para matar. Talvez em Dezembro cá venha. ‘Todavía queda mucho y quedan muchas otras cosas que hacer’. O Ave para Sevilha sai obviamente a horas. Tenho um ataque de tosse horrível passado um bocado. Não morro, no entanto, e vou buscar água ao bar, mesmo se ninguém me espera num banco, à sombra e alguém se senta e lhe diz banalidades. O bar é um reduto dos machos. Nem uma mulher. Uns 20 homens. Bebem cervejas. Alguns armam-se em engraçados comigo. Parecem não reparar que não sou espanhola pois cumprimentam-me em castelhano e um deles diz ‘señora. .. o señorita?’ Rio-me. Estereótipos. Como se eu tivesse pachorra para isto nos tempos que correm. Como se eu alguma vez tivesse tido pachorra para isto! Agarro na água e regresso ao meu livro.

Quando chego a Sevilha pouco passa da meia noite. Está quente na rua. Está quente no hall de entrada do hotel. Os meus colegas aparecem e insistem numa cerveja, que hão-de ser duas e umas tapas de ‘jamón y e queso’. Mais estereótipos. Mas pelo menos são de comer e beber. Falamos das eleições. Dos resultados e das coligações que que será em muitos sítios necessário fazer. Estão otimistas. Gosto deles. Como de pardais e homens de olhos azuis e estações de comboio. Não me importava de ser espanhola. Talvez no regresso a Madrid, no bar do Ave, responda ‘señorita’, afinal, com o meu sorriso ‘je ne sais quoi’ de francesa.

Comments


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