Kai Littmann

O grupo parlamentar da CDU de Angela Merkel
A Constituição alemã é clara: os deputados eleitos devem votar segundo a sua consciência e jamais coagidos pela chamada “disciplina parlamentar” – prática que serve não os cidadãos que aqueles representam mas a estratégia partidária que pode ajudá-los a manter-se no poder.
Foram 60 os deputados da CDU que, em meados de Julho passado, votaram contra a política do governo alemão relativamente à Grécia. O que em nada afectou o resultado final, pois a “grande coligação” CDU/SPD [o equivalente ao português “bloco central”] dispõe no parlamento alemão de uma maioria esmagadora. Nesse contexto, o anúncio da punição dos 60 conservadores rebeldes da CDU pode surpreender.
Sucede que foi já declarado – pelo líder da bancada parlamentar da CDU no Bundestag, Volker Kauder – o primado do “espírito corporativista” (“korpgeist”), e que os deputados que votaram contra os empréstimos à Grécia (em favor da sua saída do euro) vão ser afastados das comissões parlamentares mais relevantes do ponto de vista do partido: as que se ocupam dos assuntos orçamentais e europeus, onde importa manter a maioria, e salvaguardar os interesses da posição do referido grupo parlamentar – e da espécie de bloco central que integra.
Esta semana, um novo pacote relativo à Grécia deverá ser objecto de votação no Bundestag. Se é certo que a “grande coligação” há-de passá-lo, certa é também a manutenção da posição dos rebeldes. O que lhes acontecerá, então? Serão realmente punidos? Está a Alemanha a abandonar de vez os procedimentos democráticos?
E a democracia representativa, o que se passa para que tenha cedido o lugar à democracia tecnocrata, em que apenas a vontade dos partidos conta? Um fenómeno que não é unicamente alemão, aliás, e que tende a afastar ainda mais a política dos cidadãos.
O facto de os deputados rebeldes da CDU serem os mais conservadores não invalida que Kauder esteja a levar por diante um verdadeiro ataque ao sistema democrático – pois por mais fragilidades que tenha, não deveria ser aceitável esse tipo de punição sobre quem vota de acordo com a sua consciência.
[Eurojournalist – publicação bilingue Alemão/Francês]






Apoiado.
Peço desculpa, mas há aqui um erro de interpretação!
Os deputados dos partidos do governo que votaram contra pertencem à fação mais conservadora da CDU e não votaram contra as medidas de austeridade na Grécia, mas contra os empréstimos à Grécia!
A Alemanha é governada por um Bloco Central (a expressão “grande coligação”, traduzida à letra, não será a melhor para que, em Portugal, se saiba exatamente do que se trata), ou seja, os socialistas estão no poder – o SPD traduz-se de facto para Partido Social-Democrata, mas é o equivalente ao nosso PS e pertence à Internacional Socialista (aliás, apadrinhou a criação do, à altura, PSP, liderado por Mário Soares). A CDU é o equivalente ao nosso PSD.
Salvo erro, também a oposição, constituída pelos Verdes e por Die Linke (espécie de Bloco de Esquerda), votou a favor da política do governo alemão em relação à Grécia, a fim de possibilitar os empréstimos.
Ou seja: os que votaram contra, na verdade, são a favor da saída da Grécia do euro!
Obrigada, Cristina Torrão, pelos seus esclarecimentos. O autor foi contactado e foi já publicada uma nova versão do seu artigo. O problema foi mesmo da tradução e não do autor, naturalmente.
De nada! Fui ao texto original, mas só encontrei a versão francesa (talvez só haja essa versão). De um texto alemão, eu poderia confirmar se a tradução estava correta. Do francês, tenho certas dificuldades.