Postcards from Scotland #3 (Glasgow)

«Touch the Earth Lightly»*

Este slideshow necessita de JavaScript.

Glasgow é uma cidade agradável, já o disse ontem. Emendo, aliás, Glasgow é uma cidade viva, saudavelmente viva. E linda na sua imperfeição honesta. Fico a gostar bastante desta cidade e dos seus habitantes, simpáticos todos, trocando sorrisos com os estranhos na rua. Uma dimensão humana, mais humana que Liverpool. Creio que não será supreendente. Aqui quase não dou pela presença de turistas. Em Liverpool também não encontrei muitos, exceto quando passava pelo Cavern Quarter e pelos sítios dedicados aos quatro fabulosos rapazes – sim, os Beatles, de que não sou fá, tirando uma ou duas músicas. Mas aqui já me esqueci dos Beatles completamente, enquanto passeio pelas ruas e vou reparando nos prédios e nos recantos, enquanto visito a GoMA ou The Lighthouse.

Acordei bastante depois da hora do pequeno almoço. Eram dez e meia, uma hora depois de terminar o período dedicado a esta refeição, quando saí do quarto em direção à cozinha, esperançosa ao menos numa chávena de café. O hotel tem cupcakes e bolachinhas espalhadas pelos corredores, em frascos e boleiras, pelo que – pensei eu – uma chávena de café e uma destas coisas e está o pequeno almoço tomado. Entro na cozinha e peço a chávena de café. Não só me a dão, como me servem um pequeno almoço completo. Acho que os hotéis se vêem também por estas pequenas coisas. Um hotel existe para os seus hóspedes. Se não te tratam bem, dificilmente voltarás. Já eu tenho a dizer que se alguma vez voltar a Glasgow voltarei a ficar no The Grasshoppers Hotel, não apenas por estas simpatias, mas porque é um sítio verdadeiramente magnífico. Limpíssimo, branquíssimo, com gravuras e fotografias brilhantes e com a melhor das vistas que se pode ter, pelo menos do meu quarto.

A vista é sobre The Lighthouse. O farol seria a tradução, mas não se trata de um farol, mas do edifício desenhado pelo arquitecto mais famoso de Glasgow – Charles Rennie Mackintosh. Desenhado inicialmente para albergar o Glasgow Herald é atualmente o Scotland’s Centre for Design and Architecture. Não sou arquiteta, mas gosto de arquitetura, especialmente de edifícios modernos e não muito convencionais e de maquetes e desenhos. O Lighthouse não é moderno, mas é tudo menos convencional. Vou visitá-lo. Mas antes vou à GoMA – Galery of Modern Art. A GoMA fica na Royal Exchange Square, uma das minhas praças favoritas de Glasgow, como já devem ter percebido, pela quantidade de vezes que já a atravessei e que já nela falei. Esta manhã está sossegada e eu bebo um expresso muito decente na esplanada do The Social, outro belo sítio. Enquanto isso uma senhora dá milho aos pombos e eu observo-a por um bocado antes de me dirigir à entrada da Galeria. Lá dentro uma rapariga muito simpática dá-me o plano do museu e diz-me que a entrada é grátis. Aqui é, aliás, tudo grátis… falo destas coisas, bem entendido, que o resto, sobretudo a comida e a bebida e o alojamento paga-se bastante caro. Mas não falemos nisso por agora. Na GoMA está em exibição um filme realizado por Phil Collins (não, não é esse, é outro) acerca da cidade de Glasgow – ‘Tomorrow is always too long’. Diz-se na brochura que o filme é uma carta de amor à cidade. Dura 88 minutos. E eu vejo todos os 88 minutos. Não sei se é uma carta de amor à cidade de Glasgow, e ainda não estou convencida que seja uma grande obra, mas gosto especialmente das partes com animação, com silhuetas recortadas, como sombras. Há uma cena de que gostei especialmente, mas não vos vou dizer qual é.

A seguir ao filme subo ao último andar da GoMA e vejo obras de artistas que não conheço. Acho que a luz da galeria não é boa. Há muito reflexo nos vidros dos quadros, mas a Galeria é muito bonita, assim mesmo, e gosto especialmente da exposição feminista ’21 Revolutions’, que celebra os 20 anos da Glasgow Women’s Library. Entre o filme e as exposições passo mais de três horas na Galeria e quando saio vou ao Costa comer uma sanduiche e beber um smoothie de maracujá e manga. Enquanto o bebo penso no meu camarada David e que tenho saudades dele. Beber smoothies lembra-me o David e um belo smoothie de manga bebido em Madrid já faz algum tempo. Lembra-me que tenho de voltar a Madrid e talvez antes do fim do ano isso aconteça. ‘Enhorabuena’. Deixo-me ficar na esplanada do Costa, na praça que mais gosto em Glasgow, a apanhar sol. Tenho tido uma sorte bestial com o tempo. Ainda que as temperaturas nunca tenham passado dos 20 graus (e eu me tenha realmente constipado, é já oficial), aparte o dia em que fui a The Another Place, em Crosby Beach, não choveu. Parece que amanhã e nos próximos dias choverá em Aberdeen, mas vou estar quatro dias num congresso – interrompendo as férias, mas não os postais – e a chuva, nessas circunstâncias, há-de ser irrelevante.

O sol não chega para me bronzear, evidentemente, mas aquece-me e deixa-me bem disposta, à mistura com a calma da praça e o sabor do smoothie. Gosto tanto de estar sentada em esplanadas a ver a vida passar. Já se sabe que gosto. E já se sabe – porque já o escrevi tantas vezes – que foi assim que me tornei socióloga. Por gostar, desde que me conheço, de estar sentada em sítios a advinhar a vida das pessoas. Não sei se foi um erro, ser socióloga, às vezes penso que sim, sobretudo quando me passam as outras vidas que eu mesma poderia ter vivido pela cabeça. Mas foi um erro honesto (‘there is beauty in honest error’**). Foi o que escolhi ser, antes do resto, dessas outras vidas que poderia ter tido e jamais terei agora. Adiante. Da esplanada solarenga do Costa, atravessando outra vez a praça e saindo por um dos arcos, o da direita de quem está de frente para a GoMA, entro na Gordon Street de que percorro apenas uma centena de metros para logo virar à esquerda para a Mitchell Street e encontrar logo ali também à esquerda, no Mitchell Place, The Lighthouse. Empurro a porta giratória e entro. Dirijo-me à menina da receção e digo que quero visitar a torre e as exposições. Diz-me que para as exposições tudo bem, mas a torre está fechada. Faço uma cara de tal forma desapontada que ela me diz que espere.

Liga para alguém e esse alguém chega e diz que, apesar de estar fechada, a abrem para eu a ver. Fico perplexa mas muito contente, claro está. Gosto de torres, como já sabemos, mas nunca tinham aberto uma torre de propósito só para mim. Subo no elevador até ao 5º piso. A seguir abre-se uma porta por dentro e atravesso uma sala enorme até outra porta e ei-los, os últimos 50 ou 60 degraus, dos 140, mais um menos outro, que têm as escadas desde o 3º piso do The Lighthouse. Subo os degraus em forma de caracol e chego ao cimo. A vista é bonita, mas não tão espantosa como imaginei, quando, desde as janelas grandes do meu quarto no Grasshoppers, a vejo de longe. Daqui do cimo da torre vejo as duas janelas grandes do meu quarto e tudo isto, mais o facto de estar numa cidade estranha onde estranhos abrem as portas de torres só para mim, me dá uma sensação de enorme familiaridade e aconchego. Desço da torre e visito as exposições nos 3º, 2º e 1º pisos. No 3º piso fica o Centro Mackintosh e nele estão expostas as suas principais obras, em maquete (claro), assim como algumas das suas fantásticas cadeiras. Nele também está a história do The Willow Tea Room e eu decido visitá-lo ainda esta tarde.

No 2º e 1º pisos estão exposições de outros arquitetos. Gosto principalmente de ‘Touch the Earth Lightly’ de Glenn Murcutt e de ‘Consolations of the Landscape’ de Christine Halliday, outro manifesto sobre as desigualdades de género e o o lugar das mulheres. Afinal, em toda a parte. Vistas as exposições saio de The Lighthouse voltando a agradecer muito muito à menina da receção a imensa graça concedida. Diz-me que de nada, que está ali exatamente para isso. E eu re-agradeço e penso que conheço imensos sítios onde, estando ali para isso, as pessoas nos museus, nos cafés, nos restaurantes, etc., não estão para isso. É bom saber que há lugares assim e gente assim. E uma vez mais, deve dizer-se, nada paguei, nem pela visita à torre, nem pelas exposições. Há também países a sério, vá, e não é a primeira vez que o digo, até a propósito do Reino Unido, embora seja a primeira vez que o menciono a propósito da Escócia.

Da Lighthouse volto à praça Royal Exchange (que querem? é central) e meto pela Ingram Street até ao City Hall. Volto para trás e viro na John Street onde encontro a ‘Osteria del Tempo Perso’. De certeza que é o nome mais bonito que pode haver para uma ‘Osteria’. Taberna do tempo perdido. Claro que em italiano, como sempre, soa bastante melhor. Não páro, nem dou o meu tempo por perdido ao atravessar os arcos do Glasgow City Chambers e virar à direita para a George Street. Ao fundo viro de novo à direita e percorro a última parte da Buchanan Street para, á esquerda, virar para a Sauchiehall Street. Procuro o número 217. O Willow Tea Room, desenhado completamente por Mackintosh. Tenho de percorrer a longuíssima rua toda até encontrar o edifício. Passa pouco das cinco e meia da tarde e quando o encontro está já a fechar. Acho inusitado que uma casa de chá feche pouco depois da convencional hora do dito chá, mas ainda consigo entrar por um bocadinho. Quando saio sento-me num banco em frente e fumo um cigarro. Penso que posso ir ao outro (uma recriação deste) Willow Tea Rooms, na Buchanan Street (nº 97) mas provavelmente estará já igualmente fechado, por isso fico calmamente por ali. Volto a caminhar pela Sauchiehall street em sentido inverso. Encontro uma livraria enorme – a Waterstones, no nº 153 – e entro. Logo em frente à porta vejo um livro de Miranda July, ‘The First Bad Man’. Não sabia que a Miranda July escrevia livros e interesso-me imediatamente. Se viram os filmes ‘The Future’*** e ‘Me, you and everyone we know’**** acho que me entenderão. Além de ser uma realizadora brilhante, uma atriz dotada, também escreve livros (a avaliar pelas críticas na contracapa, do Times, do NY Times, do Observer, parece que o livro é fenomenal)? Compro o livro, mas antes percorro a enorme livraria. Enorme e bonita e calma.

Acabo, quando saio da Waterstones, de percorrer a Sauchiehall até à Hope Street, onde viro. Desço-a completamente até encontrar a estação central de Glasgow, onde meto à esquerda e depois à direita até encontrar o hotel, onde entro por duas horas para descansar os pés e ler um bocadinho (embora não ainda o livro da Miranda July). Saio duas horas depois para comer. Como uma salada sem história e volto ao The Social na minha praça favorita de toda a Glasgow que pude conhecer para o último expresso. Em toda a parte a mesma simpatia das pessoas, os mesmos sorrisos trocados. Gosto destes escoceses. Talvez haja outros, menos agradáveis. Mas hoje só recebi imensa gentileza. E desejo apenas tocar a terra com leveza. Esta leveza que vem destes sorrisos de estranhos. Desta bondade dos estranhos para com outros estranhos. Amanhã deixo Glasgow. Mas amanhã é ainda muito longe.

* título da exposição da obra do arquiteto Glenn Murcutt no The Lighthouse, em Glasgow.

** frase de Charles Rennie Mackintosh

*** https://www.youtube.com/watch?v=u2FuwJh8DSs

**** https://www.youtube.com/watch?v=2TTGhyp-mhE

2 comentários em “Postcards from Scotland #3 (Glasgow)”

  1. Mas a Elisabete não se senta para comer a sério? É só café e pequenos almoços? Parece que os escoceses têm pelo menos uma coisa em comum com os povos do sul: comem coisas nojentas, como estomago de ovelha recheado, o haggis. Só me constou, quem me dera experimentar ao vivo. Outra coisa que eu experimentaria mais são os cemitérios, de que já falou. Eu gosto de visitar cemitérios e os escoceses devem ter alguns bem catitas, com arquitetura gótica, sobretudo para visitar à noite.

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.