Postcards from Scotland #5 (Aberdeen)

We, the great people of the South…

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Este postal vai escrito sem muito cuidado. Estou cansada. Passei o dia praticamente todo fechada em salas a ouvir os colegas, moderei uma sessão, falei com muitas pessoas em várias línguas, sobretudo em inglês, é certo, mas com pessoas com sotaques muito diferentes. E amanhã tenho de acordar cedíssimo para mais um dia (uma parte dele, pelo menos) fechada em salas a ouvir pessoas falar em inglês com diferentes sotaques. Não é que não goste, que gosto, acho que se percebe que uma das coisas que mais me dá prazer na vida é o meu trabalho, mas, reparem, um congresso no meio das férias, mesmo que reencontremos amigos, não é exatamente a melhor das ideias. E depois os congressos são sempre muito cansativos, a começar pelos horários estapafúrdios, e a acabar na sobrecarga de sessões e na quantidade de gente com quem se fala. Claro que há a outra parte, a mais agradável de todas, jantar com os amigos que vemos apenas de vez em quando, beber umas cervejas com eles, falar de política, dizer piadas, rir.

O dia começou relativamente cedo e chovia quando acordei. A custo levantei-me da cama antes das oito e meia. Ontem fiquei até bastante tarde a ler mais do fabuloso ‘The First Bad Man’, da Miranda July. Já vos contei como estou fascinada com a escrita dela e completamente rendida à história que nos conta neste romance. Quando acordei chovia, como já disse. Era suposto que eu visse o mar da janela do meu quarto, mas quando abro as cortinas só vejo água e névoa. O tempo escocês, ao que dizem. Suponho que até agora tive sorte na minha viagem. Só ontem e hoje de manhã choveu verdadeiramente. Mas hoje, depois de almoço, o sol brilhava outra vez e estava até ligeiramente quente. Para a Escócia, quero dizer.

Cheguei ao centro de conferências um bocadinho antes das 10, encontrei logo alguns colegas gregos com quem fiquei na conversa, animada como sempre, a beber café até quase às 11h, hora de moderar uma sessão sobre Turismo Rural no meu Grupo de Trabalho, que organizei com o Pavel, uma excelente pessoa da Republica Checa, com um enorme sentido de humor, com quem tenho partilhado ideias e risos ao longo dos últimos congressos de sociologia rural, enquanto fumamos cigarros reflexivos, digamos assim. O Pavel trabalha mais ou menos sobre o mesmo que eu – as representações socio-institucionais sobre o rural. Temos algumas coisas em comum. Os cigarros, para começar. A primeira coisa que me perguntou quando nos encontrámos em Aberdeen, depois do abraço caloroso foi: ‘are you still smoking?’ E diante da minha resposta, positiva já sabemos, saímos os dois para a rua para fumar um dos nossos cigarros.

A sessão que moderei foi interessante, mas não tanto como a da tarde. A apresentação do próprio Pavel sobre as representações do rural veiculadas pelo concurso ‘a melhor aldeia’ República Checa e uma outra de uma rapariga polaca sobre as ‘selfies’ dos agricultores e o modo como estão a contribuir para o seu empoderamento e participação política, fizeram-me ganhar o dia, por assim dizer. É bom quando encontramos pessoas que fazem coisas interessantes, quer dizer, que nos interessam muito. E que são entusiasmadas pelo que fazem. E que são, ao mesmo tempo, pessoas simples, que discutem com simplicidade aquilo que fazem. É que, não sei se sabem, mas o mundo académico está cheio de grandes e arrogantes egos que fazem como que um favor ao comum dos mortais em aparecer durante 15 minutos para apresentar o seu, acham eles, brilhante trabalho. Leiam, recomendo de novo, estando ainda para mais no Reino Unido, os livros do David Lodge (especialmente a trilogia ‘Um almoço nunca é de graça’; ‘O Mundo é pequeno’ e ‘A Troca’). Está tudo lá. Ou quase tudo.

À hora do almoço tivemos a Assembleia Geral da ESRS – European Society for Rural Sociology – onde, entre outros assuntos, deveríamos eleger a nova presidência e os membros do Comité Executivo. Para a presidência e vice presidência havia apenas dois candidatos que foram, naturalmente, eleitos. Havia 6 candidatos par os 4 lugares do Comité Executivo. Há uns meses o Luis e o Jesus acharam que eu e a Txus devíamos ser nomeadas e trataram de nos nomear. Confesso que não estava particularmente preocupada com a eleição. Dos 6 candidatos, 3 eram da europa do sul (Portugal, Espanha e Itália), dois do Reino Unido e uma francesa. Não achei que fosse ser eleita, ou melhor, não pensei nisso mais que os 10 minutos que me perdi, há coisa de um mês, a escrever a minha apresentação e intenções em 10 linhas. Mas fui eleita, com a Txus (de Espanha) e o Pierluigi (de Itália) e a Lee-Ann (do Reino Unido). De certo modo, o que me enche de satisfação não foi ter sido a mais votada de entre os seis (ainda que…), mas essencialmente de, em 4, 3 sermos pessoas do Sul. Quando falei, 5 minutos, antes da votação – como os demais – enfatizei isso mesmo: sou uma pessoa do sul e é tempo de reconhecermos que a Europa do sul, que o rural na Europa do sul, tem problemas completamente diferentes. Tem potencialidades também completamente diferentes. Que a Europa em geral – e a Europa rural em particular – está longe de ser igual e de poder ser vista, analisada e pensada da mesma maneira. É tempo de reconhecer isso e eu afirmei que queria contribuir ativamente para esse reconhecimento.

Até 2013, a ESRS foi dominada, digamos assim, pelos anglo-saxónicos e pelas pessoas do norte da Europa. Em 2013, o Babis foi eleito Presidente e o Gianluca Vice-Presidente. Foi a primeira vez que dois europeus do sul foram presidentes. Hoje foram eleitos 3 sul europeus para o Comité Executivo. Estarão as coisas a mudar, de facto, dentro da ESRS e em geral? Assim o espero. E ficarei contente se puder contribuir para essa mudança, dentro e fora da ESRS. Quer dizer, acho que, pouco a pouco, já contribuo. Isto são problemas de académicos e peço desculpa se escrevo um postal sobre eles. Mas, os postais são sobre as minhas coisas, as minhas impressões, os meus passos. Estou contente que me tenham nomeado e, claro, que me tenham eleito. Acho que é a primeira vez que um português (mas não estou completamente certa) tem alguma espécie de cargo na ESRS. Também estou contente que esteja nisto com a Txus. Claro. Acho que se não fosse assim, seria bastante mais difícil. E mais chato. Sobretudo muito mais chato.

À tarde continuam as sessões e os grupos de trabalho. Encontramo-nos (os PIGS, em que o I representa a Itália e não a Irlanda) às 6 da tarde, na entrada. Estamos 4 portugueses, 5 espanhóis, 7 gregos, 1 italiana. Celebramos a eleição dos membros do sul, mas basicamente a amizade. Entre os gregos estão dois membros do atual governo do Syriza e os outros são também apoiantes. A conversa dirige-se, como quase sempre quando estamos juntos, mas agora com maior justificação que nunca, para a política. Na Grécia e nos restantes países do Sul da Europa. Mas é sobretudo da Grécia que falamos. Devo dizer que todas as intervenções que ouvi dos gregos, até agora, neste congresso, tiveram uma carga política evidente. Uma mensagem política. Estas grandes pessoas estão unidas num propósito. E esse propósito também nos diz muito respeito, como é evidente. Falam da crise. Falam da Europa que temos e da que (não) queremos. Falam das nossas vidas também. É bom voltar a ter entre nós pessoas com capacidade crítica, com uma posição política e ideológica forte. Nós, os cientistas sociais, esquecemo-nos frequentemente, nos últimos anos, desse papel que nos cabe. Sermos críticos. Dizemos o que é preciso que seja dito. Os gregos têm aqui feito este extraordinário papel. Estou orgulhosa deles e ao jantar digo-lhes isso. Temos de ter orgulho e capacidade de reinvindicar, de criticar, de intervir. Temos essa obrigação, além do mais. ‘We, the great people of the South’.

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