É que o problema é exactamente esse

maria luz 5

O perfil falso a vangloriar-se do trabalho feito

Consegue a esquerda fazer chegar as suas mensagens ao mais comum dos cidadãos? Será que apenas alcança – em debates, publicações e iniciativas – circuitos e universos («reais» ou «virtuais») demasiado restritos? Com a ilusão de comunicar de forma ampla, quando na verdade não sai dos aquários em que se move, mobilizando essencialmente os «mesmos de sempre», as militâncias e os já convencidos? [Nuno Serra]

Blogs e outros meios funcionam em circuito fechado, para um público que já está informado, seja ele de esquerda ou de direita. Trocam-se argumentos mas não se convence ninguém, já que cada um tem as suas posições bem cimentadas, tenha ou não razão. Ambos os lados esperam convencer uma suposta audiência, mas têm, eles mesmos, as suas opiniões congeladas.

Há uma enorme massa populacional que não acompanha o dia a dia do país. Possivelmente, com os pacotes de TV por cabo e com a Internet a comer audiência à televisão, nem sequer segue os noticiários dos canais abertos. E quando segue, convenhamos, pouco fica a saber, pois estes optam por um formato de repetidor de mensagens dos diversos protagonistas, sem um trabalho complementar de validação da mensagem. É mais barato. E poderá haver colagem ao poder, mas será sempre ao poder estabelecido, seja de direita ou de esquerda.

Como é que se chega a esta massa? Com mensagens simples e simplificadas. A coligação fê-lo com mensagens falsas. Contou com um verdadeiro exército, composto por três vértices:

1. Spin doctors: construção e difusão primária da mensagem, usando canais especializados, tais como o acesso aos meios de comunicação social,  os meios partidários (congressos, “universidades” de Verão, etc. ) e comentadores. O objectivo deste nível consiste em fazer chegar a mensagem a um público restrito mas empenhado na difusão (militantes e simpatizantes). A mensagem não tem que ser simples mas precisa de ter elementos que possam ser desenvolvidos e relacionados por outros (números, gráficos, teses,  posições oficiais sobre os temas da actualidade,  etc.).

2. Consolidadores da mensagem: aqui entra o Observador, mas também pessoas com acesso aos órgãos de comunicação social. Pegam na mensagem, desenvolvem-na e dão-lhe credibilidade. Esta camada da comunicação tem por objectivo criar um conjunto de referências (links, notícias, registos de vídeo,  artigos) que possam ser citados pelo nível três. O Twitter também tem um papel relevante neste nível como canal de distribuição mais elitista.

3. Este nível é responsável pela difusão em massa da mensagem. Fá-lo de forma simplificada mas usando as referências do nível 2 para lhe dar credibilidade. O Facebook foi central para a coligação atingir este objectivo. Demonstrou-se no Aventar que a coligação construiu, possivelmente a partir de 2012, uma rede de perfis falsos para, com ela, fazer chegar as mensagens simplificadas a um largo espectro. Mesmo quando esta rede foi desmascarada, a coligação deu o passo em frente e continuou como se nada se passasse, inclusivamente quando tal foi notícia na SIC. E, tirando a minoria informada, nada se passou. Esta rede de perfis falsos fez chegar a mensagem a uma camada populacional que se declara desinteressada da política e que tem no Facebook um importante meio de contacto com o mundo. Para esta camada, a televisão liga-se para filmes e séries, que isso da política “são todos iguais”. E quando calha dar-lhe para o sério, lá está o nível 2 em acção a comentar as teses do nível 1.

Para dar um exemplo e não ficar pelas generalidades, vejamos o tema do desemprego. A tese oficial é que este baixou. O nível 1 preparou um discurso tendo como ponto de partida 2013, quando houve inversão no ciclo recessivo (a razão de tal ter acontecido é, ela mesma, outro tema, mas vamos manter o foco no desemprego). Como se sabe, fez-se de conta que o governo não estava em funções desde 2011, período de enorme queda do emprego. O nível 1 trabalhou também os números do IEFP, nomeadamente a questão da limpeza do número de inscritos no centro de emprego. O nível 2 tratou de fazer os anúncios em opinião e noticias. Neste aspecto, o Observador, mas também outros OCS, repetiram a mensagem sem análise ou contraditório. O nível três encarregou-se de fazer pequenos posts com grafismo e mensagens curtas a apontarem para as mensagens do nível 2. Estes posts chegaram directamente a milhares de “amigos” ligados pela rede de perfis falsos.

demontar a propaganda - emprego

Exemplo de uma das mensagens da PAF (à esquerda na imagem)

O PS de Sócrates já tinha usado uma estratégia semelhante mas sem Facebook. Tinha o blog Câmara Corporativa como ponto central, à semelhança deste perfil falso “Maria Luz” da PAF, ao qual se ligava mais um conjunto de blogs perfeitamente identificados. Mas o fenómeno Facebook tem, agora, uma escala muito superior ao que tinham os blogs em 2009. E objectivo também não é exactamente o mesmo, pois em 2009 pretendia-se influenciar os influenciadores (bloggers, jornalistas, comentadores) para, através deles, fazer o spin chegar à população. Na PAF, além deste objectivo, houve, também, o uso do Facebook para chegar directamente às pessoas. Comparando com o comércio, cortou-se no canal de distribuição para chegar directamente aos consumidores, tal como fizeram as grandes superfícies indo comprar directamente aos produtores.

Outra diferença foi o fim de vozes claramente discordantes na televisão, como era o caso de Manuela Moura Guedes e outras. Questões de políticas editoriais e económicas, estas agravadas com a austeridade, acentuaram este fenómeno de ausência de contraditório.

Não chega um Observador de esquerda. Este apenas é uma peça na engrenagem.

Comments

  1. joão lopes says:

    caro Cordeiro,com perfis falsos,com mirones ou outros,a verdade é que bastou o Jeronimo antecipar-se a toda a gente(incluindo BE),numa jogada tactica quase ao nivel dos mind games do mourinho…para toda a gente ficar a tremer(o quê,o PC no governo,bolas,vade retro satanas).lindo,já me fartei de rir.mas claro,o Passos é que deve ser o PM.ganhou,que governe…em minoria.

  2. Nightwish says:

    Independentemente do partido ou da ideologia, tudo isso é uma manipulação perigosíssima da democracia que trará consequências enormes por todo o ocidente.
    Não sei o que se vai suceder a isto ou em que moldes, mas andamos a cozinhar (juntamente com a TINA, o TTIP, a plutocracia e etcs) uma catástrofe de incontáveis dimensões.

  3. Rui Silva says:

    Andamos convencidos que o Povo pensa como nós. Chegam as eleições e o resultado é completamente diferente daquilo que pensamos.
    Conclusão:
    Como eu sou o mais esperto do mundo , eu é que sei o que é melhor para o Povo, se os demais pensam diferente de mim, só pode ser manipulação.

    E está tudo explicado.

    cumps

    Rui Silva

    • j. manuel cordeiro says:

      “Andamos convencidos que o Povo pensa como nós.”

      Talvez ande o Rui.

      “Como eu sou o mais esperto do mundo , eu é que sei o que é melhor para o Povo, se os demais pensam diferente de mim, só pode ser manipulação.”

      Como seu eu estivesse a dar receitas a doentes. Constato o que se passou. Quem não gosta, paciência.


  4. Chamar aos eleitores de atrasados, que não sabem pensar pela sua cabeça, foi um dos erros das esquerdalhadas. Continuar a dizer o mesmo, é patético. Confundir a influencia dum post, com os comentãrios, mesmo que militantes, é usar argumentos falsos.
    Conheço e leio muitos blogs de esquerda, como aspiriba B.este , Causa Nossa, C:Coroporativa e o que noto é um faciosismo, sem limites, por vezes até de ataques incoerentes e primários, eem que se ataca o mensageiro e pouco se rebate a mensagem (excepto Causa Nossa).
    Talvez seja mais curial fazerem um exame de consciência das cretinices que foram feitas, em vez de chuatar para canto e culpara os outros.
    Que dirá um leitor independente dos litirismos de movimentos como Agir, Livre… em que se intitulavam do mais genuino e puro, quando se via que se representavam e narravam as suas próprias fantasias?

    • j. manuel cordeiro says:

      “Chamar aos eleitores de atrasados, que não sabem pensar pela sua cabeça, foi um dos erros das esquerdalhadas.”

      Deve ter sido por isso que a PAF apresentou um programa detalhado a dizer o que ia fazer.

      “Confundir a influencia dum post, com os comentãrios, mesmo que militantes, é usar argumentos falsos.”

      Como pode ler no post, estou a fala da influência de um post mas de uma máquina de propaganda. Até dei um exemplo, mas tome lá outro. Aqueles cartazes pirosos do PS eram uma não notícia. Mas tal foi a agitação que nasceu no facebook (por acaso, está visto), que ao fim do dia estava a agenda.

      “o que noto é um faciosismo, sem limites, por vezes até de ataques incoerentes e primários, eem que se ataca o mensageiro e pouco se rebate a mensagem”

      é ao gosto do freguês, quando me apetece desmontar a argumentação, faço-o; quando me apetece desmascarar a táctica, também o faço. vantagens de escrever sem bitola.

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