Postal de Valência #2

‘Res del que passa és comparable a tu’*

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Em Valencia continua a primavera e estou mais viva que nunca. Levanto-me cedo e tomo o pequeno almoço na cafetaria do Colegio Mayor. Há sol no pátio e muita gente jovem que bebe sumos e cafés e conversa por aqui e por ali, em conversas que apanho no ar e a que não presto muita atenção. Ao meio-dia, depois do taxista se ter perdido e me ter querido deixar a 10 minutos a pé da Faculdade de Ciências Sociais e de ter havido uma discussão, que ganhei bem entendido (‘mira, cuando llamas un taxi es para que te lleve de un punto al otro. A mi me dejas en la puerta, vale?’), chego finalmente à porta da faculdade. Entrego uns papeis, encontro os outros membros do tribunal e vamos à tese. A tese da Marina. Muito bem escrita, muito bem estruturada. Como alguém disse: uma tese de verdade. Excelente, portanto, estamos todos de acordo. A defesa demora algumas horas, duas ou três, a partir de uma certa altura perdemos a conta. É muito bom discutir um trabalho (mesmo se como eu, em ‘portunhol’) muito bom, feito com alma, se quiserem, que nestas coisas, sim, também é preciso que a tenhamos. A seguir vamos almoçar. Comemos uma paella fenomenal e quando acabamos são seis e um quarto da tarde. Estamos em Espanha. Não é surpreendente que seja assim, mas penso ‘en mi primo de Valencia’, o Pep, com quem tinha combinado às seis e quarenta e cinco para ‘tomar una copa’ e comer alguma coisa e mando-lhe um sms a dizer que às nove.

Tomo o autocarro de regresso, com a Imaculada. o autocarro não se perde como o taxi e passados poucos minutos deixa-me na Plaza de la Reina. Avanço até à Plaza de la Virgen, como ontem à noite. E meto pelas ruelas que me hão-de levar ao Colegio Mayor. Descanso um bocado, vejo os emails. Realizo que tenho saudades de uma pessoa, de repente. Que é como uma espécie de primavera na minha vida, nestes últimos meses, apesar de tudo o que sei sobre mim – e sobre ela. Uma espécie de primavera. Não tenho jeito para me apaixonar, ou melhor, tenho sim, muito. Não tenho é muito jeito – desde há alguns anos e por razões precisas que eu conheço muito bem, mas que aos outros serão – suponho eu – difíceis de entender – para o que vem a seguir, passada a primavera. E a primavera, como a paixão, é uma estação voraz. Apesar de tudo isto, sinto subitamente saudades dessa pessoa, embora fale com ela muitas vezes por dia. Mas não é o mesmo. A primavera é uma estação voraz, acabei de o dizer.

Às cinco para as nove desço. O Pep está já na entrada, com a Maria (que passou só para me dar um beijo, que simpática!). Vamos caminhando os três pelas ruelas, até que a Maria se despede numa esquina. Eu e o Pep atravessamos novamente a Plaza de la Virgen e metemos por outra rua estreita para o restaurante onde já estão a Eva e a Roser. A Roser está grande e bonita. A última vez que a vi foi há 3 anos.Tinha 13. Agora tem 16 e está magnífica. De muitas maneiras. Tal como a Eva. Comemos umas coisas deliciosas, embora em porções reduzidas – felizmente – e bebemos umas cervejas. Fumamos todos, menos a Roser (claro). O meu telefone apita duas ou três vezes e quando vejo porquê é outra vez a primavera que explode, como as saudades. Hoje é, até, um dia especial e devo dizer ao autor da mensagem uma frase de uma música de um grupo catalão: ‘res del que passa es comparable a tu’… ou seja, ‘nada do que acontece se pode comparar contigo’. É verdade. Ou é quase sempre verdade. Por mais coisas que me aconteçam, nada se pode comparar contigo, nem a primavera repentina que faz em Valencia.

*para o André

Comments

  1. Nascimento says:

    Muito bonito…😊GRACIAS PELA PARTILHA…


  2. obrigada eu, por ler 🙂