Frederico Lourenço sem pés nem cabeça

Fernando Venâncio

Sempre tive em elevado apreço o ensaísta, tradutor e ficcionista Frederico Lourenço. Por isso me custou crer no que os olhos me viam quando ‘links’ amigos me conduziram ao texto que abaixo se verá. Foi, até, por esse conhecimento ser indirecto que me resguardei de comentário público. Mas, hoje, o Ciberdúvidas da Língua Portuguesa reproduziu a tirada e, com isso, dispensou-me da reserva.

Parece nítido que Frederico Lourenço (FL) quis dar gozo a quem o lesse. A julgar pela caixa de comentários, conseguiu-o em pleno. Só que o preço pago de antemão para esse efeito foi desmesurado. Vejamos.

Confronta-nos FL com um «acontecimento catastróphico». Este: «A nossa orthographia deixou de ser etymológica há mais de cem anos».

Pois é, entramos hoje em «hysteria» por grafar-se REDAÇÃO. Mas aceitamos a «atrocidade» de uma grafia como TRADUÇÃO… Que tontos somos! Escrevamos pelo AO90, não escrevamos pelo AO90, continuaremos a ser «um povo sem autoestima».

Mas o que FL não sabe, ou finge não saber, é que aquela nossa sublime «orthographia» que há cem anos soçobrou foi, enquanto durou (e durou dois séculos), uma pirosice sem nome, um provincianismo de se lhe tirar o chapéu, uma snobeira de que nós, e poucos mais, temos a chave.

Sim, esses penduricalhos, esses «y», esses «ph», esses «th», foram todos, a partir de 1700, copiadinhos da pirosa, da snob, da provinciana ORTHOGRAPHIE de Paris da época.

Mas há pior. Sugerir que essa grafia de pechisbeque seria a mais adequada, ou até a única adequada, para a nossa língua é embarcar em parvas (mas ó quão patrióticas) fantasmagorias essencialistas do idioma.

Dá-se, contudo, no sábio paleio de FL, um momento de verdade: aquele em que diz ter-se dado conta, numa livraria de Coimbra, da «QUANTIDADE ESPANTOSA» (destaque meu) de livros «recentes» que recusam o AO90.

Uma quantidade espantosa! Nós sabíamo-lo de há muito. Mas é sempre bom vê-lo noticiado.

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FREDERICO LOURENÇO

Chrónica de Carnaval

Estava eu ontem a folhear, numa livraria de Coimbra, as novidades editoriais quando, de repente, comecei a rir às gargalhadas. Ainda não parei. É que estive a reparar na quantidade espantosa de livros recentes que, na sua ficha téchnica, afirmam não seguir, “por vontade expressa” do auctor, as normas do mais recente accordo orthográphico com que a língua portuguesa voltou a ser (segundo dizem) desfigurada. Ri-me hystericamente por duas razões.

A primeira é que esta reforma orthográphica será obviamente a última: nunca haverá outra, porque o grau de desobediência civil é tal que nenhum gubernante (sim, a graphia correcta seria essa) se atreverá a alterar de novo por legislação a orthographia do português. Vejamos bem: o resultado práctico desta última reforma foi dar charta branca a cada um de nós para escrevermos como nos apetece (“por vontade expressa do auctor”), sem nenhum constrangimento jurídico. Deixou de haver orthographia official no nosso país.

Por outro lado, a reacção algo hystérica de tantos oppositores da nova orthographia parece-me uma absurdeza digna da comóidia aristophânica (não esquecer que o “ói” da palavra “comóidia”, analphabeticamente escripto por desconhecedores da sua origem hellénica como “é”, provém de um diphthongo grego de base longa).

Sinceramente, não consigo ver que a actual orthographia seja muito pior do que a anterior. É igualmente analphabeta. A anterior, numa escala de zero a vinte, mereciam-me zero valores. Não era nenhum património imaterial nem material nem coisíssima nenhuma. A actual não difere muito da anterior: continua igualmente na fasquia do zero. Ambas são orthographias para um povo sem auto-estima. Mas não vamos por aí: hoje é Carnaval.

Gente! A questão fulcral é esta: a nossa orthographia deixou de ser etymológica há mais de cem annos. A partir desse acontecimento catastróphico, não vejo razão para entramos em hysteria pelo facto de “redacção” ter perdido um “c”, se já aceitávamos uma atrocidade como “tradução” (em vez da forma correcta “traducção”).

Porque é que estas questões de mudança de orthographia tornam as pessoas tão irracionais? O meu pai ficou de luto quando tiraram o accento grave aos advérbios de modo (na escripta dele, lia-se sempre “invariàvelmente”) e eu perguntava-lhe se ele não era capaz de perceber que esse accento era um mero phantasma – mas não. Ele insistia na hypérbole do cataclysmo.

Ora o meu pai era, como se diz em latim (e se voltássemos simplesmente a escrever latim?), um “laudator temporis acti” e, na sua melancholia, chamava à nossa cultura “A Morte de Horácio”, porque, segundo ele, o abysmo chaótico das orthographias posteriores ao collapso da monarchia tinha levado a que batêssemos no fundo mais fundo do troglodytismo. Como Ricardo Reis, ele gostava de escrever “apocalypse”, assim, com graphia bem theatral.

Mas eu cá sou muito menos lyrico e contento-me com o facto de – contràriamente ao italiano – ainda não termos chegado ao grau máximo do analphabetismo, que seria escrevermos “Orácio”. Enquanto Horácio mantiver o seu H, escreverei com qualquer orthographia, velha ou nova. A verdade é esta: “una vale l’altra, perchè nessuna vale nulla” (paraphraseando Lorenzo da Ponte). Assinado hoje, em dia de Carnaval, por vontade expressa de mim mesmo, auctor.

Comments


  1. Um palerma. É assustador e confrangedor o nível de ignorância em relação à ortografia e à história da ortografia portuguesa. E nota-se, sobremaneira, que não leu uma linha do texto do AO nem sabe sequer o que está em jogo. Trazer à liça a ortografia pré-1911 que nada tem a ver com os preceitos do acordo é sobremaneira revelador. A ignorância é mesmo muito atrevida. E a palermice de o Ciberdúvidas dar guarida a uma coisa destas, mas ignorar o artigo de Carlos Fernandes sobre a trapalhada jurídica da entrada em vigor do acordo… Imenso despudor.


    • São as tretas do Gonçalves Viana que dizia que a ortografia em que escreviam Eça e Pessoa “é uma superstição herdada, um erro científico, filho de um pedantismo que (…) assoberbou os deslumbrados adoradores da antiguidade clássica”.
      O Viana de história sabia pouco. São os limites do autodidactismo.

    • Luís Bastos says:

      Só não se percebe a publicidade dada ao post do Lourenço.


  2. Lourenço podia começar por se interrogar se o dito acordo estava em vigor. Seria um bom ponto de partida.
    Lourenço prefere espantar-se com a reacção ao acordismo que reputa de histérica. Já a imposição ao repelões à Constituição e à Lei de uma mudança de ortografia com uma extensão inustitada no mundo inteiro parece deixá-lo descansado. Pois não “haveria de” ser assim – para usar uma expressão grata a Lourenço – e ingrata à língua portuguesa.


  3. Não sei se no Reino Unido há ortografia oficial, mas tendo em conta a diversidade das ortografias que por lá se lê, duvido.

  4. Ivo Miguel Barroso says:

    Transcrevo do artigo “AO”/90: “um monumento de incompetência e ignorância”, em http://www.jornaltornado.pt/ao90-um-monumento-de-incompetencia-e-ignorancia/, nota 8, para demonstrar que FL está desinformado, o que é imperdoável num Filólogo e Tradutor de craveira como FL indiscutivelmente é:

    “A Reforma de 1911 suprimiu também as consoantes “c” e “p”, quando grafadas depois das vogais “i” e “u” (ex., “vi(c)tória”; “produ(c)to”, “lucta”), quando não tivessem valor diacrítico (e, em geral, não tinham) (consoantes essas, porém, que eram não só grafadas nessas línguas estrangeiras, mas também, amiúde até, são pronunciadas (ex., “ViCtory” em Inglês; “product” em Inglês; “ProduKt” em Alemão)).
    Certas “consoantes nulas” eram, assim, suprimidas.
    Porém, a Reforma de 1911, embora procurasse seguir o Castelhano, e sem prejuízo de algumas excepções (ex., “contrato”, em lugar de “contraCto”), preservou um núcleo comum às restantes eurolínguas.
    Com efeito, as consoantes “c” e “p” – quer quando a vogal ‘a’, ‘e’ ou ‘o’ precedente é átona, quer em vocábulos aparentados, quando é tónica” -, quando ou fossem facultativamente pronunciadas, ou tivessem valor diacrítico (abertura da vogal precedente) ou fossem relevantes para a manutenção da família de palavras, foram expressamente preservadas na Reforma de 1911, em termos relativamente próximos dos propostos por GONÇALVES VIANA:
    “I. Escrever-se hão sempre as letras que facultativamente se proferem, como, por exemplo, nas palavras (…) facto (…).
    II. Quando uma consoante muda influi na vogal precedente, vestíjio que perdurou de quando ela ainda se proferia, deve escrever-se também; exemplos: director = ‘dirètor’, não ‘diretor’; acção = àção, e não ‘ação’; preceptor = ‘precètor’ (ou ‘precèp-tor’), e não ‘precetor’.” (A. R. GONÇÁLVEZ VIANA, Ortografia Nacional. Simplificação e unificação sistemática das Ortografias Portuguesas, Lisboa, Livraria Editora Viuva Tavares Cardoso, 1904, pg. 73.).
    “‘Acção’ pronuncia-se à-ção, mas escreve-se com dois ‘cc’, mesmo em ortografia simplificada, porque, com um só poderíamos lêr ‘â-ção’, como lemos â-câ-so’, etc. “aCt” [em Inglês; “AKt” em Alemão].
    Da mesma forma, em ‘redactor’, não se pronuncia-se o ‘c’, mas escreve-se, porque é êle que dá valor aberto á vogal anterior. Sem êle, poderíamos ler ‘re-dâ-tor’, como lemos (…) ‘co-men-dâ-dôr’, etc.
    Ao caso de ‘recepção’ e redactor’ podem adicionar-se muitos outros, similares: ‘inspecção’, ‘redacção, ‘distracção’, estupefacção’, ‘facção’, etc. Suprimir nêstes casos a consoante ‘aparentemente’ inútil, não é desacatar a etimologia, – o que sería o menos: – é desacatar a fonética – o que é o mais ou quase tudo.” (CANDIDO DE FIGUEIREDO, A ortographia no Brasil (A propósito da Reforma ortográfica votada pela Academia Brasileira), História e crítica, Livraria Clássica Editora, Lisbôa, 1908, pg. 171).
    “‘predilecção’, ‘exceptuar’, e não (…) predileção’, ‘excetuar’” (A. R. GONÇÁLVEZ VIANA, Ortografia Nacional, 1904, pg. 289).
    “III. Algumas palavras de derivação ou afinidade evidente devem conservar também as letras mudas; exemplos: adoptar, adopção; a par de ‘optar’, ‘opção’, com o ‘p’ pronunciado; Ejipto, a par de ejípcio, em que se ouve o ‘p’ (…)” (A. R. GONÇÁLVEZ VIANA, Ortografia Nacional, pg. 73 (negritos originais)). Assim também “‘gimnásio’, e não, ginásio; ‘acto’, e não, ato; ‘excepto, e não ‘exceto’; em razão de ‘acção’, excepção’ (…)” (A. R. GONÇÁLVEZ VIANA, Ortografia Nacional, pg. 289).
    “Outro exemplo é espectaculo, no qual ninguém profere o ‘c’, que muitos, porém, em ‘espectador’ deixam ouvir, como em ‘expectativa’, ‘expectante’, etc.; isto com o fundamento de que todos devem reconhecer na escrita a pronunciação que dão a cada vocábulo, logo que não seja viciosa. Quando a mesma vogal de um primitivo seja tónica, conservar-se há nele a consoante nula: acto, em razão de activo, acção = ‘àtivo’, ‘àção’.” (A. R. GONÇÁLVEZ VIANA, Ortografia Nacional, pg. 73, negritos originais).
    Seguindo de perto este lastro doutrinário, a Reforma de 1911 consignou uma limitação muito lata à supressão de tais consoantes “mudas” “c” e “p”:

    “Casos, porêm, há, e muitíssimos, em que tais consoantes ou são ainda facultativamente proferidas ou a sua influência subsiste no valor das vogais ‘a’, ‘e’, ‘o’, que as precedem, as quais, em vez de se obscurecerem, como é de regra, nas sílabas antetónicas, conservam os seus valores, relativamente ‘à’, ‘è’, ‘ò’, que tinham quando essas consoantes, hoje mudas, se proferiam. Dêste modo, a Comissão entendeu ser de necessidade a conservação delas, quer quando a vogal ‘a’, ‘e’ ou ‘o’ precedente é átona, quer em vocábulos aparentados, quando é tónica; por exemplo: ‘direcção’, ‘directo’, ‘acção’, ‘activo’, ‘acto’, ‘tracção’, ‘tracto’, ‘excepção’, ‘exceptuar’, ‘excepto’, ‘adopção’, ‘adoptar’, ‘adopto’, comparados estes últimos vocábulos com ‘opção’, ‘optar’, ‘opto’, em que o ‘p’ se profere. Com esta excepção aos princípios simplificadores que a Comissão observou no sistema ortográfico que propõe, conseguiu não demudar o aspecto de centenas de palavras relativamente modernas, mas de uso constante; e com tanto maior razão o fêz, quando é certo que em muitas destas palavras as letras ‘c’ e ‘p’ por muitas pessoas ainda são proferidas, tais como ‘facção’, ‘recepção’, ‘espectador’, a par de ‘espe(c)táculo’, etc.” [Relatório da Comissão nomeada, por portaria de 15 de Fevereiro de 1911, para fixar as bases da ortografia que deve ser adoptada nas escolas e nos documentos oficiais e outras publicações feitas pelo Estado., (publicada no Diário do Govêrno, n.º 213, 12 de Setembro), in Collecção Official de Legislação Portuguesa, Anno de 1911, Primeiro semestre, Imprensa Nacional, Lisboa, 1915, pgs. 1916-1921 (um excerto do Relatório encontra-se publicado in A demanda da ortografia portuguesa. Comentário do Acordo Ortográfico de 1986 para a compreensão da Questão que se lhe seguiu, Volume organizado por IVO CASTRO / INÊS DUARTE / ISABEL LEIRIA, 2.ª ed., Edições João Sá da Costa, Lisboa, 1987, pgs. 153-154)].

    Neste aspecto das consoantes “c” e “p” (à semelhança de tantas outras normas dignas de nota; tais como a escrita dos nomes dos meses com maiúscula inicial; na hifenização; no hífen colocado na conjugação do verbo haver no Presente do Indicativo), o AO90 constitui um autêntico assassinato do pensamento de GONÇÁLVEZ VIANNA e da Reforma de 1911.

    (Fonte: IVO MIGUEL BARROSO, “AO”/90: “um monumento de incompetência e ignorância”, nota 8, em http://www.jornaltornado.pt/ao90-um-monumento-de-incompetencia-e-ignorancia/)


    • Acresce que a ortografia pré-1911 estava eivada de pseudo-etimologia, algo que Frederico Lourenço também parece desconhecer.

  5. Pedro Marques says:

    A ligação do facebook não dá.

  6. Marcos says:

    Engraçado como há pessoas aqui que não entenderam o que o FL quis dizer.
    Ele só diz que as causas de indignação quanto a ESTE acordo deveriam ser as mesmas quanto ao acordo anterior.
    Que a última reforma feriu tanto a língua quanto a atual.

    E mais engraçado ainda é ver quantas pessoas aqui têm uma formação em latim melhor do que a dele – um dos nossos melhores ensaístas.
    Eu poderia até apontar todos os erros que os sabichões acima resolveram desfilar nesta “Parade of Stupidity” aqui, mas não o faço.
    Sabe-me melhor que continuem ignorantes.


    • Marcos, é que as causas de indignação não podem ser as mesmas, porque as mudanças não são as mesmas! É capaz de entender isso? Vir com o raciocínio de que se houve mudanças antes, todas as posteriores são legítimas, sejam quais forem, é no mínimo um absurdo lógico. Nota-se que não leu criticamente uma linha do acordo, à semelhante desse colosso dos ensaios.
      É muito conveniente apontar ignorância aos outros, dizendo que não vale a pena tirá-los dela, que conveniente…


  7. E porque haveríamos de reagir bem ou mal às anteriores mudanças ortográficas, alminha? Era o mesmo que ficarmos para aqui a discutir se D. Sebastião tomou a decisão certa ou errada ao promover a invasão de Ceuta. Já nada se pode fazer quanto a isso, é facto consumado e enterrado na poeira do tempo. Em 1945 nem o meu pai tinha nascido, em 1911, também não. É agora é que devemos decidir se queremos ou não voltar a fazer outra borrada descomunal. E eu não quero!