La cucaracha

Há coisas que uma pessoa não pode fazer em Espanha e uma delas é tomar café. A não ser, claro, que o café seja de marca portuguesa. Tenho, por isso, uma pequena lista de lugares onde sei que posso pedir um café sem riscos de maior e lanço mão dessa lista sempre que necessário. Na manhã de Carnaval, estava eu a tomar o pequeno-almoço num desses sítios já conhecidos, quando entra um grupo de mulheres vestidas de Thermomix. Eram quatro cinquentonas, descaradas, de risada sonora e língua afiada. A Thermomix, talvez não saibam, é uma instituição em Espanha, uma máquina liquidificadora e processadora de alimentos, dessas que fazem sopas, sumos de fruta, pão, soufflés,  queques fofos. As folionas traziam uns chapéus muito vistosos, com frutos, peixes, salsichas de plástico, e no peito uns botões com diferentes velocidades, mesmo a jeito para que os homens atrevidos lhes perguntassem se podiam dar ao botão. Podiam ser quatro “chicas Almodóvar”, ou pelo menos a isso aspiravam, embora os chapéus remetessem inevitavelmente para a “Pequena Notável” de Marco de Canaveses.

Sentaram-se na mesa ao lado da minha e começaram a abanar-se com os menus, como se fizesse muito calor e não tivesse nevado na noite anterior, e não estivesse o café com o aquecimento no mínimo. Riam cada vez mais alto e interrompiam-se umas às outras com fingida indignação.

– Pero, ¡por Dios!, ¿qué estás diciendo?

– Que mentirosa eres, ¡la madre que te parió!

Um dos membros do meu grupo meteu conversa com elas. Que guapas estavam, e que originais, e que coloridos os fatos, e que graciosos os botõezitos. E elas respondiam, com os menus a-dar-a-dar, simpáticas, faladoras, resplandecentes, a desfrutar do seu momento, mas já um pouco entristecidas por saber que, findo o Carnaval, a Thermomix acabaria e, com ela, a atenção masculina inabitual. Porque eram mulheres pouco agraciadas pela beleza e para quem o passar dos anos não havia sido meigo. Mas agora brilhavam e o café era delas. Pediram café com leite, churros, croissants. Soltaram muitas gargalhadas. Deixaram que um descarado de outra mesa fosse experimentar o já famoso botãozito acelerador. A propósito de nada, começaram a falar do Joaquín Sabina, tão a propósito de nada que se percebeu ser um dos seus assuntos preferidos, e ainda os croissants não tinham saltado da plancha e já elas cantavam em coro bem ensaiado o “Y nos dieron las diez” para a qual tentaram recrutar acompanhantes, mas sem êxito. A dona do café seguia-as, do balcão, com cara de poucos amigos.

Comeram, beberam, riram. Quando pareciam estar a serenar, uma delas soltou um grito que nos fez estremecer.

– ¡Mira! Mira, ¡qué asco! ¡Una cucaracha!

Debruçaram-se as outras três sobre o prato e gritaram em uníssono. Que sim, que era uma barata no croissant da Thermomix 1. Que horror, que porcaria, que nojo de lugar, por Deus, como era possível semelhante coisa?

A dona do café veio a correr, muito pálida, murmurou vinte vezes um pedido de desculpas que elas não deixaram ouvir, entregou o prato à empregada que correu com ele para o balcão, garantiu que nunca tal acontecera, que não entendia, mas que iria compensá-las, que a deixassem compensá-las, por favor, que todo o consumo ficaria por conta da casa.

As Thermomix, ainda muito agitadas, com a contemplada com a barata a tapar a boca com a mão, enjoadíssima, em choque, e as outras a abanar-lhe o menu como se fosse um leque. Tiraram-lhe o chapéu, afastaram-lhe o cabelo da testa, gritaram que ela precisava de espaço, que precisava de ar, que se retirassem todos, como se alguém se tivesse aproximado. A outra fechou os olhos, suspirou muitas vezes, e por fim reabriu-os e pediu um copo de água. Veio o copo de água. A seguir, pediu um sumito, para sossegar-lhe a tripa. Veio o sumito. As outras disseram que era boa ideia e pediram um para cada uma. O sumito abriu-lhes o apetite. Vieram umas torradas, mais uns churros, umas madalenas. A cozinha trabalhava quase inteiramente para elas. E nem pensar em cobrar.

Quando, por fim, se deram por saciadas, a mesa era um amontoado de pratos, copos e guardanapos sujos. Levantaram-se todos para ir ao quarto de banho e atravessaram a sala de braço dado, carnavalescas, com os chapéus postos, tão abastecidos quanto a mesa de onde se levantavam tinha sido.

Foi aí que cometeram o erro.

Ao passar pela minha mesa, uma delas deixou cair, do bolso do fato de Thermomix, uma caixinha. A dona, que viu tudo do balcão, saiu disparada e apanhou a caixa antes que qualquer um de nós tivesse tempo de fazê-lo. Abriu-a frente a nós, que haveríamos de ser as testemunhas. Lá dentro, havia cinco pequenas baratas de plástico, tão perfeitas e realistas como a que havia saído de debaixo do croissant.

Pedimos a conta em seguida e pusemo-nos a andar. Estávamos já na rua quando ouvimos os gritos das Thermomix e ainda as vimos a fugir para a rua, com a vassoura da dona do café no seu encalço.

Conto-vos isto para que desconfiem sempre quando alguém vos disser que, quando é Carnaval, ninguém leva a mal.

Foto: Everett Collection

Comments

  1. arlindo vicente says:

    verdade ou não é um conto muito bem contado – gostei..!

  2. António Fernando Nabais says:

    Pergunto-me que espécie de anormal terá escolhido o polegar para baixo. Terá sido uma das Thermomix ou barata? Não é importante, claro. Importante é a escritora.