As cruzes

© Chema Madoz

Creio que foi o Juan José Millás que escreveu que a zona lombar é um território mítico, não corresponde exactamente a um órgão ou osso, é antes uma terra de ninguém, de fronteiras incertas. Gente com dores de cabeça, de dentes, de cotovelo tem dores precisas, em sítios concretos, sem imaginação nenhuma. Nós, os que caímos pelas escadas abaixo em algum momento das nossas desastradas existências, sofremos uma dor numa “zona”, coisa sem valor científico, território vago e que suporta o castigo de asneiras diversas: más posturas, sonecas no sofá, demasiado peso nos sacos que carregamos.

Não é só uma dor, é um estado de alma, um tributo ao bicho antepassado que decidiu ser bípede. É uma dor filosófica, vá. Torna-se, por isso, insuportável que um Esteves sem metafísica chegue ao pé de nós e resuma tudo com um “Ah, doem-te as cruzes”.

É intolerável, decerto concordarão.

Comments

  1. Ana Moreno says:

    Um bombom de um escrito, pelo encadeamento das palavras e delicadeza da ideia.